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Rio de Janeiro, 17 de agosto de 2017


Cultura

Homenagens recordam 100 anos de nascimento de Frank Sinatra

Texto produzido para a disciplina Redação em Jornalismo Impresso, ministrada pelo professor Chico Otávio* - aplicativo - Da sala de aula

20/07/2015

Às 22h50 do dia 14 de maio de 1998, em Los Angeles, morria Frank Sinatra aos 82 anos, vítima de um ataque cardíaco. A cidade declarou luto ao acender um feixe de luz preta na torre da Capitol Records, gravadora de muitos álbuns de Sinatra. Nova York preferiu homenageá-lo com o azul: o edifício Empire State Building iluminou o céu com a cor dos olhos do cantor. Cem anos depois do nascimento de um dos ícones do sonho americano, é a voz, antes de qualquer outra memória, que ainda encanta. "A primeira coisa que as pessoas sabem, aprendem sobre Sinatra é o som daquela voz milagrosa”, festeja James Kaplan, autor de Frank Sinatra: a voz (2011), uma das 12 biografias do astro Frank Sinatra.

Em 60 anos de carreira, Frank Sinatra apresentou mais de 1.800 canções, apareceu em mais de 60 filmes e produziu oito. Ganhou um Oscar pela atuação em A um passo da eternidade (1953). De acordo com a Associação da Indústria de Gravações da América (RIAA), órgão que regula a quantidade de vendas de álbuns nos Estados Unidos, Sinatra ganhou 31 discos de ouro, que equivale a 500 milhões de cópias vendidas, e 18 discos de platina, equivalente a 1 milhão de cópias vendidas.

No dia 12 de dezembro de 2015, o cantor americano comemoraria 100 anos. Ao longo do ano, exposições, documentários e shows comemoram o centenário. Nos Estados Unidos, a exposição Sinatra: An American Icon, foi inaugurada em 4 de março e fica disponível até 4 de setembro na Biblioteca Pública de Nova York.

Também inaugurada em 4 de março, a exposição The Sinatra Experience, instalada no hotel  Morrison Hotel Gallery SoHo, ficou aberta até o dia 25, em Nova York. O canal a cabo HBO lançou no dia 4 de abril o documentário Sinatra: All or Nothing at All, que tem duração de quatro horas, e foi exibido em duas partes. A comemoração do centenário da voz também conta com o curso Why Sinatra Matters, realizado em maio pelaUniversidade da Califórnia em Los Angeles.No Brasil, a exposição Sinatra: An American Icon, foi inaugurada em 4 de março e fica em cartaz até 4 de setembro na Biblioteca Pública de Nova Iorque. A mostra traz objetos e fotos pessoais do cantor.

A homenagem mais marcante, no entanto, é prestada pela dama do teatro Bibi Ferreira. O show Bibi Ferreira canta repertório de Sinatra entrou em cartaz no dia 5 de maio, e estava previsto para ir até 10 de junho. Com o grande sucesso de público, a temporada só vai ser encerrada no dia 12 de julho. Conhecida pela ousadia, Bibi é a primeira mulher a fazer um espetáculo só com músicas interpretadas por ele. A ideia do show surgiu de uma brincadeira nos bastidores, em torno de um temor que o cantor tinha: o medo de abrir a boca para cantar e a voz não sair.

Mas a voz nunca falhou e continua emocionando até hoje. De 1998 até hoje, a música New York, New York é tocada em toda virada de ano na Times Square e em todas as partidas dos Yankees, famoso time de beisebol nova-iorquino, quando jogam em casa. Do velho disco de vinil aos aplicativos digitais, a voz milagrosa desafia o tempo e ainda emociona gerações.

Biografia inédita mostra o homem e o poder

Em 1967, ao invés dos olhos azuis de Frank Sinatra, eram os olhos azuis de Jim Morrison, líder do The Doors, que dominavam as rádios. A banda era número 1 nos Estados Unidos com o single Light my Fire. Porém, o ritmo dançante e as letras sensuais não agradaram a Frank, que se sentiu ameaçado. Na época, Sinatra estava tão furioso com o rock’n’roll que, em um acesso de raiva, chutou o rádio de seu carro quando percebeu que a canção tocava em múltiplas estações. O rock abalava o trono de Frank no reinado da música pop americana.

O episódio é descrito em Sinatra: The Chairman, sequência da biografia de 2013 Frank: A Voz. Foi um momento significativo que marcou a virada de Frank de democrata para republicano. No livro, que será lançado em outubro nos Estados Unidos, o autor relata a busca crescente do cantor pelo poder, em meio a ligações obscuras com a máfia americana e envolvimento com muitas mulheres.

O desejo de poder transformou o pequeno e magro ítalo-americano numa das figuras mais emblemáticas da música mundial. Sinatra procurava aprovação incessante para compensar a infância traumática, marcada pelo relacionamento conturbado com a mãe, e a desvantagem de ser italiano em uma sociedade avessa a estrangeiros. No caminho para o sucesso, a construção da influência do cantor passou por uma vida desregrada.

Marcas da infância: traumas e conflitos

Desde o nascimento, Sinatra foi marcado por cicatrizes físicas e emocionais que dificultaram a relação dele com as mulheres, e contribuíram para a insegurança característica do cantor. A cicatriz no rosto foi causada por um parto traumático. Ela começava na orelha esquerda e descia até a linha da mandíbula, de tal maneira que Sinatra sentia a necessidade de passar maquiagem para tentar escondê-la. Ele se sentia fraco diante dela. Para o psicanalista Adail Ivan Lemos, todo parto é traumático, mas Frank Sinatra teve mais dificuldades diante do corte no rosto:

 – O parto é um momento disruptivo na formulação do inconsciente. Quando a criança nasce, ela tem que lutar pela sobrevivência. O que caracteriza essa marca de nascimento, que é a nossa identidade, é atribuída à mãe. Ele vai atribuir um defeito no rosto a uma mãe má. O que ele escondia, quando escondia a marca corporal? Ele não quer que outras mulheres soubessem da relação de amor e ódio com a mãe.

De fato, a primeira relação conturbada que Sinatra teve foi com a mãe, Dolly Sinatra. Como filho único, Frank era muito mimado, mas ao mesmo tempo isso era compensado com uma criação rígida. Dolly era adepta de castigos físicos, e, certa vez, chegou a jogar o filho da escada. O biógrafo James Kaplan descreve o relacionamento entre os dois como ambíguo:

– Era um relacionamento de amor e ódio. Ele tinha muitas incertezas sobre ela, e costumava dizer: "Eu nunca sei quando ela vai me abraçar ou me bater.” Isso é uma coisa horrível para uma criança sentir, de não saber quando a própria mãe vai te abraçar ou te bater. Eu acho que ele pegou essa incerteza sobre a mãe dele e colocou em todos seus relacionamentos.

Entre a máfia e a presidência

Dolly era uma mulher de pulso forte, envolvida com o partido democrata local. Era ela que, como uma típicamamma italiana, geria a casa, mas que também sustentava financeiramente a família. Ela trazia até mais dinheiro que o pai, que ganhava pouco como lutador de boxe e quase não participava da educação do filho. Mais tarde, Frank também se envolveria na política. Em 1944 e em 1960, dois presidentes democratas seriam eleitos com o apoio do cantor: Franklin Roosevelt e John F. Kennedy. O último se tornaria um dos maiores amigos do cantor.

Adail explica que, enquanto a mãe pode ter influenciado a agressividade de Frank, a ausência de uma função paterna teria causado no cantor uma necessidade maternal de se prover para os outros. Para Kaplan, essa característica também estava ligada a busca pelo poder:

– Ele gostava de sentir que estava tomando conta de todo mundo em sua vida. Essa era uma parte de senso de poder dele. Ele tinha essa grande e infeliz admiração pela máfia, particularmente pela figura de Don. E o Don na literatura, em filmes como O Poderoso Chefão e na mitologia é o homem que cuida de todo mundo. Isso era o que Sinatra queria ser.

Além da ausência paterna e da conturbada presença da mãe, um elemento essencial para formar a sede de controle de Sinatra foi o contexto em que o cantor passou a infância, em Hoboken, New Jersey. Era a época domelting pot do início do século XX, em que várias nacionalidades se reuniam na América. Embora houvesse diversidade étnica, os ítalo-americanos estavam na base da pirâmide social norte-americana. Por isso, segundo Kaplan, a ideia da máfia era interessante para um povo sem nenhum poder:

– O menino Sinatra idolatrava a máfia, assim como um menino branco idolatra a figura dos cowboys ou dos soldados. Ele mantinha contato com eles frequentemente, e tinha muito respeito por eles. Ele tinha uma admiração além do normal, porque, sendo um menino ítalo-americano, ele cresceu sem poder. E não apenas porque ele pertencia a um grupo que era considerado inferior, mas também porque era pequeno, sem poder físico. Ele temia e respeitava esses caras durões. E infelizmente Sinatra admirou esses homens por toda a vida dele.

Da admiração ao envolvimento: FBI documenta ligação de Sinatra com a máfia

 FBI A ligação com a máfia foi uma das manchas mais profundas na reputação do cantor. Durante mais de três décadas, o FBI manteve um arquivo que descrevia o envolvimento de Frank em ações ilícitas promovidas pelo bando de nomes como Lucky Luciano, Sam Giancana e Carlo Gambino (fotos). Após a morte de Sinatra, esses arquivos foram divulgados no site do órgão de investigação. Eles mostram episódios como o contrabando de US$ 1 milhão que Frank teria feito para Lucky Luciano em 1950, além da suposta tentativa de extorsão de US$ 100 mil do ex-corretor da Bolsa de Valores Ronald Alpert, em parceria com Carlo Gambino, documentado em 1971.

 FBI Embora os arquivos não comprovem definitivamente as conexões mafiosas, a porta-voz do FBI Linda Kloss disse na época que “os registros falam por si”. Além disso, não faltam outras provas de uma relação íntima. No célebre perfil de Frank escrito por Gay Talese, o jornalista observa como o cantor sempre era rodeado de um círculo de camaradas, no qual era conhecido como II Padrone, o mestre. Fotos, como a da viagem de Sinatra para Havana com um grupo de mafiosos – entre eles Lucky Luciano –, eternizam o não-dito.

 FBI Luciano organizou os bandos ítalo-americanos sob o nome Cosa Nostra - para se opor a dos outros, Cosa Loro. Cada gangue foi nomeada uma famiglia, para denotar união e evitar delações. A Máfia siciliana, dada a conexão, passou a se chamar também de Cosa Nostra. O juiz Walter Maierovitch, especialista em máfia, explica o papel do amigo de Sinatra dentro da organização criminosa:

 FBI – Lucky Luciano era um embaixador da Cosa Nostra. Morava no último andar do sofisticado hotel Waldorf Astorias. Recebia políticos, juízes, governadores e prefeitos em magníficos jantares, com orquestra a animar. Para se ter ideia desse poder de influência, na Segunda Guerra Mundial, as tropas aliadas desembarcaram na Sicília e o desembarque foi acertado num acordo da Marinha americana com Lucky Luciano.

Ainda que as amizades mafiosas trouxessem benefícios, elas também levaram ao distanciamento entre Sinatra e o presidente Kennedy, e contribuíram para a mudança de lado do cantor: de democrata a republicano. Nos anos 1960, o cantor e o presidente dos Estados Unidos tiveram uma relação que, nas palavras da filha de Frank, Nancy Sinatra, continha um “amor muito forte”. Porém, em 1962, Kennedy teve que mudar os planos de uma viagem em que planejava ficar na casa do Chairman em Palm Springs. Para não ser associado a criminosos, o democrata preferiu ficar na casa de um dos rivais de Sinatra, Bing Crosby.

Sinatra: de democrata a republicano

 “Esse foi o começo da mudança de Sinatra”, explica Kaplan. “Ele sempre foi um democrata, o partido mais liberal, e no final dos anos 1960 ele mudou para o Partido Republicano e se tornou mais conservador”. A situação do país na época era instável: com a Guerra do Vietnã, multiplicavam-se os protestos em campus universitários e episódios violentos. Isso puxou cada vez mais o cantor para a direita.

Sinatra fez campanha para a candidatura de Ronald Reagan ao governo da Califórnia, em 1970, e à presidência, em 1980. Os dois ficaram tão amigos que, em um programa de TV, o presidente republicano brincou: “Frank Sinatra daria um ótimo presidente, forte na defesa, mas que também teria preocupação com a humanidade. Os cientistas, a seu pedido, teriam desenvolvido um míssil balístico intercontinental que não é uma arma de destruição em massa. O míssil só atinge fotógrafos”.

“Sinatra gostava da sensação de estar apaixonado”, afirma biógrafo

Algo nos olhos de Frank era convidativo. Por onde ele passava, as mulheres entravam em pânico e suas pernas tremiam. Não é a toa que o poder de sedução do cantor mexia com muitos corações. O escritor e colunista Luiz Fernando Vianna do jornal Folha de São Paulo explica que Sinatra desempenhou um importante papel sentimental para as mulheres americanas: “Ele era o rei das jovens adolescentes da época. Elas ficavam na porta esperando ele sair, arrancavam a roupa dele, gritavam. Ele preenchia o espaço dos homens que estavam na guerra”.

“Sinatra gostava da sensação de estar apaixonado”, afirma o biógrafo James Kaplan. Seus casamentos não bastavam, ele sentia falta da agitação de uma conquista. Nem mesmo a mãe de seus filhos, Nancy Barbato, conseguiu mantê-lo fiel.

Nancy with a laughing face 
(Nancy sorrindo)

Frank conheceu Nancy, sua primeira mulher, aos dezenove anos. De início foi uma relação calorosa, que logo se transformou em casamento. Foi graças a ela, que Sinatra deixou seus herdeiros no mundo: Nancy, Tina e Frank Sinatra Junior. Com o passar dos anos, o amor de Sinatra por Nancy virou uma amizade afetuosa. Para Kaplan, o sentimento que o cantor sentia pela primeira mulher durou a vida toda, mas não chegou a ser uma paixão: “Era um amor espiritual. Ele tinha muito respeito por Nancy”.

George Evans, agente de publicidade de Sinatra, seturner esforçou para reacender o amor entre Nancy e Frank. Evans mudou a imagem simplista de Nancy. De uma camponesa italiana, ela virou uma mulher mais confiante, com um cabelo novo, roupas mais sofisticadas e uma autoestima restaurada. Durante um tempo, Frank viu a esposa com um outro olhar. Contudo, o estrelato dele trouxe turbulências ao lar.

Sinatra já não estava mais satisfeito com seu casamento. Quanto mais a fama crescia, mais mulheres passavam a conhecê-lo, a adorá-lo e a desejarem ir para a cama com ele. Frank não via nenhuma razão para não satisfazê-las. “Ele estava interessado em uma mulher em um dia, e depois em outra mulher, em outro dia”, conta o escritor.

Foi assim que surgiram os inúmeros casos extraconjugais, como os affairs com as atrizes Lana Turner e Marilyn Maxwell, mantidos às escondidas. Foi de um desses romances que surgiu o segundo casamento de Frank, com a atriz americana Ava Gardner. Somente em outubro de 1951 o cantor conseguiu o divórcio de Nancy, para se casar com Ava.

I’m a fool to want you 
(Eu sou um tolo por te querer)

Das quatro esposas, ela foi o grande amor da vida de Frank. “Era alta, cabelos escuros, olhos verdes sonolentos, maçãs do rosto mortíferas e lábios absurdamente luxuriantes”, como é descrita no livro A Voz, de James Kaplan. Os dois tiveram uma paixão arrebatadora, porém conturbada, com brigas, traições e abortos, sempre bem documentados pela imprensa. “Ela era muito volátil, ela nunca poderia ser contida e nunca poderia ser domesticada”, comenta o biógrafo. Diferentemente das outras mulheres de Frank, das quais ele gostava de controlar.

“O perfil psicológico da Ava era muito parecido com a mãe de Frank” explica o psicanalista Adail: “Ela não jogava o jogo de Hollywood. A mãe ficava escondida em Nova Jersey, a Ava em si mesmo. O divórcio da Ava foi como o trauma do nascimento, foi mostrar a marca para o mundo”.

O casamento das duas estrelas ia de mal a pior. As crises de ciúmes e as constantes traições estavam destruindo a relação. Em uma das fugas de Ava para a Espanha, o cantor quis cometer suicídio e tomou várias pílulas. Sinatra não tinha com quem desabafar e acabava chorando no colo de Nancy, que, com paciência, o escutava.

“Sinatra quase não compunha, mas compôs I’m a Fool to Want You quando Ava Gardner o traiu com um toureiro espanhol”, conta Vianna. Durante a gravação da música, em março de 1951, os olhos azuis se encheram de lágrimas, e Frank teve que sair correndo do estúdio. Ao contrário de outras músicas, esta foi feita em apenas um take.

Frank andava disperso e a carreira estava indo por água abaixo. Os discos não emplacavam mais e os shows estavam ficando cada vez mais vazios. Em parte, isso era culpa da obsessão que Sinatra tinha por Ava. No dia 29 de outubro de 1953, eles decidiram se divorciar. Era o fim da grande paixão da vida de Frank.

Por anos, o astro viveu em depressão, tentando superar as mágoas do fim do relacionamento. Foi nessa época em que ele dividiu um apartamento com a atriz mais sexy de Hollywood, Marilyn Monroe.

No início era uma amizade, mas com o tempo o envolvimento foi inevitável. Ele lidava com a impotência sexual devido ao excesso de álcool. Marilyn tentava curá-lo, mas não perdia a oportunidade de revelar a fraqueza do cantor perante os amigos.

Certa vez, ela disse que fingia sentir prazer com ele. Ao saber disso, Frank sentiu sua masculinidade reduzida. Ambos perceberam que, apesar de se darem muito bem, o relacionamento não passava de uma válvula de escape, já que queriam esquecer os seus ex-parceiros.

 You make me feel so young 
(Você me faz sentir tão jovem)

O próximo relacionamento mais estável de Frank não foi menos complicado. Mia se casou com apenas 21 anos, enquanto Sinatra já estava no seu terceiro casamento, com 50 anos. O relacionamento foi amplamente debatido na mídia, o que causou uma crise no cantor, retratada no perfil Frank Sinatra está resfriado, de Gay Talese. Em 1968, dois anos depois, Mia e Frank resolveram se separar. O motivo alegado foi que a atriz se recusou a abandonar o papel no filme O Bebê de Rosemary para atuar em um filme de Frank.

 “O casamento terminou com muitas brigas, muita raiva e por muito tempo eles não tiveram contato. Mas eles conseguiram construir um relacionamento amigável à medida que os anos foram passando”, comenta Kaplan. Dessa época, ficou a música You Make Me Feel So Young (Você me faz sentir tão jovem). “Era o que ela fazia por Frank”, diz Kaplan.

Em 2013, Mia Farrow afirmou que seu filho, Ronan Farrow, poderia ser fruto do relacionamento com o cantor, e não do diretor Woody Allen. Apesar das semelhanças físicas, Ronan não pode ser filho de Frank, já que Sinatra havia feito vasectomia em 1970, dezessete anos antes do nascimento de Ronan, como foi confirmado recentemente por Tina Sinatra, filha do cantor.

A despedida da voz

Frank morreu, em 1998, nos braços de sua última mulher, Barbara Sinatra. O último casamento foi realizado em 1976. Foi o mais longo e tranquilo relacionamento que Sinatra teve. Mesmo assim, não era um matrimônio perfeito, segundo Kaplan:

– Todos os casamentos de Frank foram muito problemáticos. E o último, apesar de ter durado até o final da vida dele, também foi problemático. Havia amor entre Frank e Barbara, mas era, talvez, o casamento menos romântico dele em muitos aspectos. Dá pra ver pelo tempo que durou: 22 anos, muito mais que qualquer outro dele. Acho que teve mais a ver com praticidade, com ter alguém para cuidar dele, do que com romance.

Após a morte do cantor, Barbara escreveu um livro, intitulado Lady Blue Eyes: My life with Frank: "Durante muito tempo eu tive que me beliscar para conseguir acreditar que eu, Barbara Ann Blakeley, a garota desengonçada de Missouri, tinha me tornado a esposa de Francis Albert Sinatra”, escreveu Barbara.

Aprendeu a respirar com o trombonista

 “Ninguém trabalhou tanto quanto Sinatra”, afirma James Kaplan. O cantor aprendeu a cantar sozinho, jamais teve qualquer aula de canto. Descobriu no início da carreira como crooner, a importância da boa respiração. Quando trabalhou na banda de Tommy Dorsey, ele passou a observar detalhadamente a maneira que o trombonista respirava sem interromper a melodia:

 Revista Life “O que mais me influenciou foi a maneira como Tommy tocava trombone. Ele pegava uma melodia e tocava sem respirar por oito, 10, talvez 16 versos", escreveu Sinatra em artigo da revista “Life”, em 1965 (foto). “A minha ideia era fazer com que minha voz trabalhasse do mesmo jeito que um trombone ou um violino”.  Portanto, quando ia se apresentar em um show, parava de fumar, de beber e ainda nadava debaixo d’água para aumentar a capacidade pulmonar.

“I would sacrifice anything come what might” 
(Eu sacrificaria qualquer coisa não importa o que fosse)

Inspirado pelo ídolo Bing Crosby, que foi pioneiro no uso do microfone, Sinatra desenvolveu sua própria técnica que foi copiada pelos cantores no futuro. Segundo a professora de canto Diana Goulart, que pesquisou sobre as técnicas musicais de Frank Sinatra para escrever a monografia Material Didático para o Canto Popular - Discussão e Proposta, jornalistas costumavam rir de Frank Sinatra em seus primórdios pela maneira como o cantor manuseava o microfone, com as mãos em volta da base, bem embaixo do microfone propriamente dito. “Não entenderam que ele estava tocando o microfone”, relata a professora.

Frank Sinatra abandonou a abordagem de ficar bravamente estático diante do pedestal para movimentar o microfone de acordo com o que estava cantando. “Foi ele que desenvolveu esta técnica, que tornou possível o canto no nível da fala. Restaurou a naturalidade ao canto”, diz Diana Goulart.

A voz ainda vive

“Sinatra é indescritível. Nós éramos jovens e ele era nosso ídolo”. Assim Ney, de 64 anos, e Marilor, de 68, definiram o Frank Sinatra. O casal estava na plateia do show Bibi canta repertório de Sinatra, interpretado pela cantora e atriz Bibi Ferreira. A atração, que estava programada para ficar em cartaz até o dia 10 de junho, foi prorrogada para 12 de julho, no Theatro NET Rio, em Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Bibi Ferreira, de 93 anos, surpreendeu ao ser a primeira mulher a interpretar o cantor americano.

Pelo mundo, o cantor Frank Sinatra também está sendo homenageado. Com a exposição Sinatra: An American Icon e The Sinatra Experience, ambas em Nova Iorque. Na TV, a rede HBO lançou o documentário Sinatra: All or Nothing at All. Os filmes e músicas do cantor e artista também serão lançados em edição especial comemorativa para o centenário. Por ser um grande apreciador de bebidas alcoólicas, a famosa whiskeria Jack Daniel’s lança: Jack Daniel's Sinatra Select. Além disso, várias modalidades de esporte farão homenagens ao gênio da voz. Como se não bastassem tantas homenagens e reverências, um show no Teatro Princesa Isabel, em Copacabana, que ocorreu durante todo o mês de maio, emocionou a plateia que permanecia lotada a cada apresentação.

O espetáculo de Bibi é composto por uma orquestra com 18 músicos, e conta com a presença do maestro e ator Pedro Gracindo. Além das canções de Sinatra, as histórias do cantor são narradas por Gracindo, que conduz o espetáculo. A plateia entra alvoroço com as músicas My Way, New York e a versão da música de Tom Jobim, Corcovado.

Durante o show, o público, que é composto basicamente por idosos, registrava o espetáculo com fotos e vídeos feitos pelos celulares. Diferente da época de 1980, quando a voz veio ao Rio de Janeiro para a apresentação no Maracanã, onde cerca de 150 mil pessoas compareceram ao show em uma noite chuvosa. 

A influência do cantor também fez a cabeça das novas gerações. O jovem músico João Mauro Senise, de 26 anos, considera Frank Sinatra um artista completo.  João acredita que Sinatra é a inspiração para o seu trabalho diário, e por isso decidiu fazer um show em homenagem ao centenário do ídolo.  O espetáculo começa em agosto, sem data de estreia, no teatro Baden Powell, em Copacabana.

Os destaques do repertório para o show são I’ve Got You Under My Skin, For Once in My Life - no arranjo clássico de Don Costa -, Cheek to Cheek e All of Me. Já a emblemática música My Way, não será interpretada. De acordo com o músico, a letra da música melancólica do cantor diz que o fim está próximo. E João brinca: "Não canto essa música, porque, simplesmente, eu estou longe do fim".   

Ainda no Rio de Janeiro, o musical 100 anos de Frank Sinatra, levou um grande público, durante os finais de semana do mês de maio, ao Teatro Princesa Isabel, em Copacabana. O espetáculo conta um pouco da vida e obra do cantor americano. O show tenta dar vida ao dono da “Voz” e levar ao público a experiência de estar realmente na presença de Sinatra. Os atores Luiz Cesar e Pedro Calheiros interpretam algumas das músicas mais marcantes da carreira de Sinatra. A dupla se dirige ao público em inglês e representa os trejeitos clássicos do homem de olhos azuis.

Simultaneamente, imagens históricas do homenageado rolam no telão, que serve de fundo para o show. Durante o espetáculo a única interação em português é realizada pelo produtor e apresentador Sidnei Domingues, que faz entradas pontuais para situar as canções no tempo e contar um pouco sobre a biografia.

Acompanhando as canções, um casal de bailarinos dá leveza ao espetáculo. O público tem as letras na ponta da língua. Muitos números tem a plateia cantando junto e marcando com palmas. Coisa de fã, e de quem parece reviver áureos tempos e se encantar ao relembrar Sinatra. O evento continua no Teatro Vanucci, no shopping da Gávea, Zona Sul do Rio,  no dia 12 de junho.

Um documentário foi produzido pela HBO, Sinatra: All or Nothing at all, imagens do show da aposentadoria do cantor, em 1971, entrevistas, fotos e vídeos caseiros são exibidos. A estreia foi em 5 de abril deste ano e teve 4 horas de duração. Segundo a análise do site americano Billboard, o registro fala também dos relacionamentos amorosos de Sinatra. A presença dos filhos é constante ao longo do documentário. O diretor Alex Gibney, queria mostrar o verdadeiro Sinatra, não apenas o cantor da voz inigualável.  

Com um legado musical inesquecível, Frank Sinatra também será relembrado com novas coleções de suas gravações atemporais apresentados pela Capitol, Universal MusicSony Music e Frank Sinatra Enterprises. Os filmes de Sintra não foram esquecidos. A Warner Bros vai lançar edições comemorativas das produções cinematográficas mais memoráveis ​​de Sinatra, com exibições especiais no Tribeca Film Festival, na Universidade do Sul da Califórnia.

O cantor conhecido no mundo inteiro também será homenageado no Reino Unido. No dia da abertura de um palco multimídia, em 10 de julho, no London Palladium, a família Sinatra e a Frank Sinatra Enterprises, vão lançar em conjunto uma edição limitada do livro de fotografia high-end, com imagens inéditas de Sinatra.

A campanha Sinatra 100, organizada pela família do artista, conta com a parceria de empresa Jack Daniels. Juntos, eles pretendem lançar uma linha de uísque.  O Jack Daniel's Sinatra Select é uma bebida feita a partir de uma produção especial. Segundo a empresa, para a elaboração do destilado a própria marca fabrica barris de carvalho, levemente tostados por dentro para aumentar a qualidade da bebida. No Brasil, a bebida custa cerca de 499,90 reais. A marca fez essa parceria com a família de Sinatra porque, de acordo com eles, em um de seus shows, o cantor subiu ao palco com uma garrafa de Jack Daniel´s na mão e afirmou: “este é o néctar dos deuses”.

No esporte, várias modalidades farão homenagens. Uma das maiores equipes de baseball dos Estados Unidos, aSan Francisco Giants Club, fará um tributo ao centenário do cantor antes das partidas, durante este período. Além disso, um evento especial, que ainda não foi confirmado, deve celebrar a chegada do ano novo com a voz de Frank Sinatra na Times Square, Nova Iorque.

Para os fãs que não podem estar presentes nessas comemorações, é possível baixar o aplicativo Frank Sinatra 100 App – o aplicativo é gratuito para download, e está disponível para iPhone, iPad e iPod touch e tablets android – o programa divulga o que ocorre de mais importante nesses eventos e mantém o fã atualizado das programações.

Todo dia, o cantor fazia exercícios vocais. Ele estudava as palavras das canções intensamente e, assim, transformava as músicas em poemas antes de gravá-las. A combinação de elementos que Sinatra desenvolveu na técnica vocal, a dedicação e a sensibilidade artística contribuíram para que cada gravação se tornasse única, diferente de qualquer outro cantor.

Para James Kaplan, não há e nem vai haver um sucessor de Frank Sinatra. “É uma voz que só aparece uma vez a cada mil anos. Talvez apenas uma vez na História. Além disso, a cultura mudou muito. A cada 15 minutos, surge uma nova estrela.” Com a transformação da indústria musical, Frank Sinatra não está na lista de cantores mais tocados. A última vez que integrou a lista “HOT 100” da Billboard foi em junho de 1980, na posição 32º com a música New York, New York. “Hoje, existe o ‘Auto Tune’ e qualquer um pode se tornar cantor, tudo é modificado”, afirma o biógrafo.

“You gotta love livin' baby, 'cause dying is a pain in the ass”  
(Você tem que amar viver, baby, porque morrer é um saco)

Como a maioria dos partos da época, Francis Albert Sinatra nasceu no dia 12 de dezembro de 1915, em casa, no subúrbio de Hoboken, em Nova Jersey. Era o filho único do casal de imigrantes italianos Martin Sinatra (Marty) e Natalie Garavante (Dolly). Devido ao peso acima dos seis quilos, o médico teve dificuldades para retirar o bebê Frank da mãe e precisou do auxílio do fórceps, instrumento cirúrgico de metal semelhante a uma pinça que é ajustado na cabeça do bebê. Fora da barriga da mãe, Frank não chorou até que sua avó Rose o segurasse debaixo da água gelada. O parto traumático é o ponto de partida para as cicatrizes físicas e emocionais que ele maquiou a vida inteira.

Na adolescência, Frank Sinatra trabalhou como entregador no jornal Jersey Observer e, assim como seu pai, lutava boxe de vez em quando. Quando estava no último ano do ensino médio, Sinatra decidiu que queria ser cantor, depois de assistir a performance de Bing Crosby em Nova Jersey, e largou a escola com o apoio da mãe Dolly. Ele começou a carreira integrando um quarteto de sua cidade natal, o Hoboken Four. Depois que o grupo ganhou o prêmio 'Major Bowes's Original Amateur Hour'', Sinatra decidiu cantar sozinho.

O trabalho como garçom cantor no Rustic Cabin, um restaurante de estrada em Nova Jersey, abriu as portas para Sinatra. De 1939 a 1942, o cantor trabalhou como vocalista nas bandas dos trompetistas Harry James e Tommy Dorsey.

He got the world on a string 
(Ele tinha o mundo numa corda)

A carreira solo de Sinatra começou ao fechar contrato com a gravadora Columbia Records, em 1942. Segundo o jornalista cultural Luiz Fernando Vianna, eram LPs de 78 rotações por minuto, com uma música de cada lado. “Depois, todas as gravações da Columbia foram colocadas em 12 Cds”, ele conta.

Vianna também diz que na mesma época Frank Sinatra cantava músicas patrióticas por conta da participação dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Ele emergiu como o queridinho da América e passou a ser conhecido popularmente como “a voz”. Cantor e também crooner na década de 1940, Tony Bennett chegou a descrever o período como a era em que você levava flores para a namorada ou noiva e sorria apaixonado ao ouvir Frank Sinatra.

No final dos anos 40, Sinatra entrou em uma fase decadente, que coincidiu com o surgimento do rock e com o fim do casamento com Nancy Barbato depois que o cantor a traiu com Ava Gardner. Mas em 1953, ele se reergueu como nunca. Como cantor, ele passou a dar mais personalidade às músicas, e como ator, recebeu o Oscar pelo filme “A Um Passo da Eternidade”.

De 1954 a 1962, Sinatra fecha acordo com a gravadora Capitol Records e as canções dele passam a ser menos orquestra e mais swing. “É o momento em que ele se consagra como versátil, um cantor maduro e experiente”, diz Vianna. Em 1960, ele cria a própria gravadora, a Reprise Records, e lança ‘I’ve Got the World on a String’. “’The String is on My Finger’, ou seja, ele queria dizer que tinha o mundo nas mãos”, Vianna explica. Nessa época, Sinatra lança “My Way” e “Strangers in the Night”. A última música caiu no desgosto do cantor, pois virou um símbolo gay e Sinatra era extremamente homofóbico.

She's like a samba that swings so cool and sways so gentle
(Ela é como um samba que se move tão bem e desfila tão suave)

 Hemeroteca Jornal do Brasil Mesmo que Sinatra ainda estivesse fazendo discos solo e ganhando dinheiro, ele sempre estava à procura de algo novo. Segundo Vianna, Sinatra virou um homem de si mesmo e passou a apostar em outros compositores: “Era um cantor mais velho tentando agradar um público mais variável”, explica. Surge então a parceria com o maestro Tom Jobim. A Bossa Nova estava em alta no mundo todo. Sinatra tinha um grande respeito por Jobim e viu na parceria uma possibilidade de lutar contra o rock n’roll crescente.

Foi uma grande mudança para o cantor. Enquanto estavam produzindo o primeiro disco, o cantor americano comentou que nunca havia cantado tão baixo desde que havia tido faringite. “Ele já tinha feito músicas mais calmas antes, como nos álbuns de baladas românticas. No final dos anos 1950, ele gravou o disco Close To Youapenas com um quarteto de cordas. É um disco mais quieto”, diz James Kaplan. 

Mas a voz dele nunca foi tão sussurrada e comedida como foi com Jobim. O estilo da Bossa Nova pedia um tom baixo, diferente da música americana. “Se Sinatra ainda estivesse em uma gravadora como a Columbia, talvez a parceria não ocorresse. Afinal, era com um músico da “periferia do mundo”, diz Luiz Vianna.

"Meu jeito"

 Arte Ana Luisa Nunes Frank Sinatra gravou mais de 1800 canções. No entanto, nenhuma delas diz mais sobre o artista do que My Way. Intérprete de Sinatra no Brasil, Helcio Hime conta que começa seu musical com a canção por ser emblemática na carreira do cantor: “A plateia já vai à loucura. É um momento único porque é uma música que arrasa quarteirão”. Para ele, My Way é uma das canções mais lindas já escritas e que é muito forte por falar sobre a relação de Frank Sinatra consigo mesmo.

Criada pelo músico Paul Anka a pedido de Frank Sinatra, a letra de My Way teve sua composição delineada por uma tentativa de Paul em colocar na música a personalidade do cantor, como se o próprio Sinatra a estivesse escrevendo, e por um esforço em compor uma canção que se tornasse um grande sucesso. My Way conta a história de um homem que estando próximo de morrer, reflete sobre sua vida através dos altos e baixos que passou – “Eu já amei, ri e chorei, cometi minhas falhas, tive a minha parte nas derrotas” – e que não demonstra arrependimento, pois fez tudo do seu jeito.

“Regrets I've had a few

But then again too few to mention

I did what I had to do

And saw it through without exemption”

“Arrependimentos, eu tive alguns

Mas então, tão poucos para mencionar

Eu fiz, o que eu tinha que fazer

E eu vi tudo, sem exceção”

No entanto, a música apresentada por Paul a Frank Sinatra pouco tinha a ver com a letra da canção originalComme d' Habitude, do francês Claude François, que narra o fim de uma história de amor. Paul Anka se interessou por Comme d' Habitude quando a música estava no topo das mais pedidas da França, aproximando-se de François e conseguindo os direitos da canção.

Ao ser gravada por Sinatra, My Way se torna um grande sucesso no mundo todo ao transformar uma canção de amor em um grito de rebeldia. Nos EUA, logo se tornou a segunda música mais ouvida pelos americanos. No Reino Unido, de abril de 1969 a dezembro de 1971, entra para a história ao permanecer 75 semanas no Top 40 inglês, se tornando a faixa que esteve o maior número de semanas no ranking.

O sucesso da canção fez com que My Way fosse interpretada por vários artistas. Em 1970, a cantora galesaDorothy Squires gravou a música enquanto a original ainda estava nas paradas de sucesso. Sete anos depois, foi a vez de Elvis Presley.

A letra da canção, por seu caráter atemporal, de certa forma reflete o que as pessoas sentem sobre suas vidas. Talvez seja isso que faça de My Way a música preferida em funerais da Grã- Bretanha nos últimos sete anos, segundo pesquisa do serviço funerário britânico Co-operative Funeralcare.  Contudo, o homem que fez da canção um grande sucesso não a considerava uma de suas músicas favoritas. Quando morreu, em 1998, Sinatra não seguiu os milhões de pessoas que tinham My Way em sua lápide. Em vez dela, a canção The best Is Yet To Come.

Há 35 anos, um show que tocou o coração dos brasileiros

 Hemeroteca Jornal do Brasil O dia 26 de janeiro de 1980 amanheceu chuvoso no Rio de Janeiro. A expectativa era grande, mas o mau tempo ameaçava adiar o encontro entre Frank Sinatra e os 170 mil fãs brasileiros, promovido por Roberto Medina. No entanto, nem o boato de que a tempestade poderia cancelar o show desanimou o público que esperava pelo cantor, no Maracanã. A chuva caiu até minutos antes da apresentação, mas o inesperado ocorreu. No horário marcado para o início do espetáculo, às 21h, o tempo abriu, as estrelas reapareceram para receber a voz e Frank Sinatra subiu ao palco.

Trinta e cinco anos depois, as memórias daquela noite continuam vivas no coração de quem viu o cantor americano de perto. Acompanhado de sua orquestra, Frank Sinatra iniciou o espetáculo com a música The Coffee Song, escrita em homenagem ao povo brasileiro. Bernardo Monteiro, de 69 anos, trabalhou na organização do evento, o que o permitiu ficar próximo do palco.

 Hemeroteca Jornal do Brasil – Este show foi a maior audiência do Maracanã. Nem a Copa do Mundo superou a venda de ingressos. E foi o show de maior audiência da história do Frank Sinatra. Ele, quando subiu no túnel dos juízes, parou e falou: Oh my God. Tomou um susto quando viu a multidão, porque era um mar de gente – recordou Monteiro.

O público não precisou enfrentar filas e tinha uma visão privilegiada do palco de qualquer ponto do estádio. Aos 65 anos, Dona Lourdes, também estava presente no Maracanã. Ela assistiu ao show do ídolo das cadeiras azuis, a antiga geral do Maracanã, o que não a impediu de perceber cada detalhe das reações do artista ao afeto da multidão.

– Ele estava tão emocionado com aquela gente toda que esqueceu a letra, quando cantou ‘Let Me Try Again’. Ele parou de cantar e ficou: “la,la,la,la”. Daí, o público inteiro cantou. Ele ficou extasiado e ficou completamente parado, olhando. Foi um momento emocionante tanto para ele quanto para o público – relembra Dona Lourdes.

A atriz Regina Duarte também esteve presente no show, mas a apresentação não foi o mais importante para ela, até porque aquela também foi a noite do nascimento de um dos filhos, o João Ricardo. "Eu tive que sair no meio do show, porque comecei a ter contrações", conta Regina.

O show de Sinatra impactou os fãs e mais de três décadas depois ainda influencia músicos no Brasil. Hélcio Hime, por exemplo, costuma interpretar as canções do artista em shows no Rio de Janeiro. Ele acompanhou a apresentação com apenas oito anos e lembra que o show foi um dos primeiros com atração internacional no país.

– Era raríssimo vir uma atração internacional para o Brasil. Então vocês imaginem dentro de um cenário em que a gente não recebia a Madonna, o Paul McCartney, não tinha o Rock in Rio, não tinha o Lollapalooza, não tinha essas atrações intelectuais todas. Daí vir o maior cantor do mundo visitar o Brasil! Foi realmente uma coisa maravilhosa. E colocou o Brasil como grande organizador de eventos – disse Hélcio Hime.


*Texto produzido pelos alunos Alessandra Monerat, Ana Luísa Nunes, Árion Lucas, Davi Raposo, Carol Pecoraro, Fernando Loureiro, Francenilson Klava, Gabriela Torres, Isabella Rocha, Isadora Barros, Larissa Marques, Paula Laureano, Rafael Chimelli, Rayssa Ranauro, Thâmily ALvez, Thatiane Narciso, Victor Dagne e Yasmin Torres.