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Rio de Janeiro, 17 de agosto de 2017


Cultura

Fernando Sá: "Sem novos leitores, não há indústria editorial forte"

Carolina Ernst - aplicativo - Do Portal

02/09/2015

 Matheus Salgado

A XVII Bienal Internacional começa nesta quinta-feira, 3 de setembro, a expor 383 editoras no Riocentro, ocupando uma área de 60 mil metros quadrados. A Editora PUC-Rio estará no estande da Associação Brasileira de Editoras Universitárias (Abeu) trazendo novidades ao público. Em entrevista ao Portal, Fernando de Almeida Sá, editor da Editora PUC, que trabalha no ramo há 40 anos, comenta sobre a participação da editora na Bienal, ressaltando a oportunidade de reunir em um só lugar toda a produção, em parceria com mais de 30 editoras. Discute temas como os impactos da crise econômica no mercado editorial, a expansão dos livros digitais, e a premência do incentivo à leitura e à formação de leitores no país.

Portal PUC-Rio Digital: Qual é a importância da Bienal para a Editora PUC e quais são as expectativas da participação deste ano?
Fernando Sá:
A Bienal é importante para todas as editoras do Brasil. É um fenômeno cultural e de massa impressionante. Para se ter uma ideia, ano passado, a Bienal de São Paulo recebeu 720 mil pessoas, e a média aqui no Rio são 600 mil, 650 mil pessoas. É um evento importante porque as livrarias ficam vazias o ano inteiro, tem-se uma dificuldade enorme de vender livro, todos anunciam a morte do livro... Aí faz-se uma Bienal e 600 mil pessoas vêm para ver livros! Lá não tem princesas, não tem o Mickey, só tem livro. Por outro lado, dificilmente se ganha dinheiro na Bienal; as editoras e as livrarias estão lá porque é importante, suas marcas têm que estar lá. Mas conheço pouquíssimas pessoas que ganham dinheiro na Bienal, porque o aluguel de espaço é muito alto. Para nós, o fundamental é que estaremos no estande da Associação Brasileira de Editoras Universitárias (Abeu). A Abeu tem muitos associados, então ganha uma área muito grande e privilegiada, logo na entrada, e divide essa área entre os seus parceiros. Nós temos um espaço nosso, e a importância é mostrar a Editora PUC, as nossas publicações e fazer com que a universidade tenha contato com o público que naturalmente se interessa por ela, ou seja, um público que se envolve com cultura, leitura e textos acadêmicos. Como a PUC é do Rio e ocupa esse espaço, é uma maneira de dar um retorno à sociedade sobre a produção intelectual dentro da universidade. Além disso, é muito difícil encontrar todos os nossos títulos reunidos em um só lugar, porque trabalhamos com mais de 30 editoras – nosso modelo de trabalho é com coedições comerciais. A Bienal é um momento privilegiado, quando todo o nosso catálogo está exposto.

Portal: Qual é o rumo das editoras universitárias, levando em consideração a crescente expansão do meio digital? Você acredita que no futuro haverá uma transição completa do livro impresso para o digital?
Fernando Sá:
Essa é uma grande discussão. O e-book não pegou. No mundo inteiro você tem dificuldade de estabelecê-lo, por alguns motivos. A digitalização de livros que não foram feitos ainda é cara. Mesmo assim, em outras sociedades, outras culturas, o e-book começa lentamente a ocupar seu espaço. Mas, ao produzir o livro, vai ter que produzi-lo em dois formatos, no impresso e no digital. O grande problema é digitalizar as obras anteriores; é um processo de anos, complicado e caro. Mas acho que no futuro esses dois formatos vão conviver. O grande problema ainda é, para o meio digital, não ter encontrado um sistema ou formato que seja tão agradável ou eficiente quanto o livro impresso, que ainda é um produto insubstituível. E no Brasil temos um problema: as editoras não têm sensibilidade e não abaixam os preços dos livros digitalizados. É absolutamente ridículo um livro impresso custar R$ 60 e o digital, R$ 50. Não faz sentido. Aqui o mercado ainda está muito incipiente. Há 40 anos que trabalho e ouço que o livro vai acabar, e ele não acaba. É um produto da indústria cultural com uma resistência fantástica.

Marina Chiarelli  Portal: No meio universitário, os estudantes levam livros, muitas vezes pesados, nas bolsas e mochilas. Por uma questão de mobilidade e praticidade, você acha que a universidade venha a ser o lugar onde esse formato de leitura vá conquistar adeptos?
Fernando Sá:
Tem um lugar onde o livro digital já é usado; são as obras de referência. Não faz sentido ter uma enciclopédia de 70 volumes em casa para, de vez em quando, consultar um verbete, então você traz isso no computador. Eu acho que vai acontecer a mesma coisa com o trecho do livro: o professor adota ou indica o capítulo 8, uma introdução do livro x, o que vai acontecer é que cada aluno vai fazer a sua lição, vai ter quase um livro para aquele período, e acho que isso (a troca pelo digital) vai acontecer. Eu diria que ainda há uma resistência ou ainda não se criou o hábito natural de ler textos longos na internet e de refletir sobre esses textos. Textos que, por exemplo, imponham ou peçam anotações à margem, reflexões. Embora a gente saiba que há recursos para que essas coisas aconteçam, o leitor clássico não está ainda dominando essas tecnologias. Mas certamente eu acho que o futuro é esse.

Portal: A Editora PUC também disponibiliza e-books. Qual é o critério para a digitalização da obra?
Fernando Sá:
Como todos os nossos livros são feitos já no formato digital, nós fazemos a versão em papel. Quando essa versão em papel se esgota, nós pedimos a autorização dos autores e transformamos esse livro em e-book de download gratuito. Isso mantém o catálogo e a obra vivos. Porque, embora não tenha mais demanda nas livrarias por aquele livro, se alguém tiver interesse ainda por aquele tipo de conteúdo saberá onde encontrar.

Portal: E a demanda é muito grande?
Fernando Sá:
Às vezes sim, às vezes não e às vezes nós somos surpreendidos. Por exemplo, quando um livro que já transformamos em e-book porque não houve mais interesse em reeditá-lo de repente é adotado.

Portal: Quais iniciativas podem ser tomadas para impulsionar o mercado editorial brasileiro, tanto universitário como literário?
Fernando Sá:
Eu diria que um dos setores da economia brasileira que reproduz com mais fidelidade nossa miséria sociocultural é o setor cultural e, particularmente o editorial. É o setor da economia onde a crise econômica se instala primeiro. Porque não é uma prioridade do brasileiro ler livros, então corta se logo o livro, depois o cinema, depois comer fora, e depois só se gasta dinheiro com o essencial. Exatamente por isso, é o último setor a se recuperar. Trabalhar nesse setor é sempre conviver com crise, às vezes com ciclos maiores, às vezes com ciclos menores. Mas a única maneira de romper essa lógica é investimento maciço em educação, não tem outro jeito. É a alfabetização das massas. Em última análise, é criar o leitor. Se o leitor não é criado, dificilmente haverá uma indústria editorial sadia, forte. Apesar disso, eu diria que no Brasil, ao contrário de outros países, tem uma compensação muito grande. O Brasil tem um programa gigantesco de distribuição gratuita de livros didáticos. Senão o maior, um dos maiores do mundo.

Portal: Vai ser sentido na Bienal algum efeito da crise econômica?
Fernando Sá:
Espera-se a mesma fluência e menos vendas. Mas, como todo mundo perde dinheiro, ninguém vai reclamar muito. Ninguém vai para a Bienal para ganhar dinheiro. Certamente a crise vai provocar uma timidez maior do leitor ao adquirir livros. Mas acredito que esse fenômeno cultural continue enchendo, eu acho que as pessoas vão à Bienal nem que seja para amortecer sua má consciência por passar o ano inteiro sem visitar uma livraria (risos). Então leva a família, leva as crianças. Eu acho ótimo.

Portal: E a crise afeta da mesma forma uma editora universitária e uma comercial? Pelo fato de a Editora PUC tratar, de certa forma, de educação, uma área na qual há investimento independente de crise econômica...
Fernando Sá:
Nós sentimos isso de uma maneira mais suave, porque a nossa produção é muito diluída. Como trabalhamos sempre em coedição com editoras comerciais, e a universidade atinge um leque muito grande de interesse, trabalho com muitas editoras. Então, não estamos concentrados em um lugar só, e isso faz com que a crise se dilua. Mas lançamentos já foram adiados para 2016. Alguns livros que estavam em produção pararam. As pessoas ficam mais prudentes, é natural. E no caso do livro é terrível. O editor bota o livro em máquina e, se encalhar, ele tem um prejuízo colossal. E, às vezes, o prejuízo é total. Então as editoras vão ficando mais cautelosas não só com novos lançamentos, mas muitas vezes com os livros em produção. Seguram um pouco, diminui-se a quantidade de lançamentos, adiam-se outros, entra-se em contato com os parceiros... As pessoas vão entender.

Portal: Uma pesquisa da Federação do Comércio do Rio de Janeiro sobre os hábitos culturais feita no ano passado constatou que sete em cada dez brasileiros não leram um livro sequer em 2014. Na sua avaliação, quais são os investimentos para mudar isso?
  Marina ChiarelliFernando Sá:
Duas coisas: maciço investimento em educação e cultura, formação do leitor, criação de um público leitor. E aí, por consequência, vai haver a diminuição dos preços. O preço do livro é resultado de uma escala econômica. Quanto mais leitores e mercado, mais baratos serão os livros. Supõe-se que o formato digital, por não ter a necessidade de botar o livro em máquina, teoricamente supere toda a parte industrial. Poderia se oferecer isso por um preço bem mais razoável. Mas tudo depende do leitor. Sem leitor, não tem jeito.

Portal: E como a Bienal pode incentivar esse público?
Fernando Sá:
Tem uma grande coisa: a quantidade de crianças que frequenta a Bienal. Botá-las em contato com o livro é maravilhoso. Faz parte da formação do leitor. Mas nada disso adianta se não se incutir nessa criança a leitura como um prazer, como é ver um filme ou um programa na televisão. Em outras sociedades, é comum, na hora do almoço, ver muitas pessoas lendo um livro. Aqui, dificilmente se vê essa cena. Mas eu acho que é a formação do leitor mesmo e, para isso, temos que se investir em educação e leitura.

Portal: Que novidades a Editora PUC está trazendo nesta edição?
Fernando Sá:
O livro Os antropólogos: de Edward Tylor a Pierre Clastres, é uma aposta grande, pois é uma obra inédita. É o caso, também, de Os filósofos: clássicos da filosofia, parte do projeto de mobilizar a universidade para fazer textos de boa qualidade, de informação correta, criteriosa, mas de leitura clara e fluente. Os grandes intelectuais da área de filosofia e antropologia fazem ensaios sobre a vida dessas pessoas, a contribuição que deram para a ciência, a antropologia, a sociologia, a história, e esse conhecimento vai se disseminando Brasil afora. É uma impressão que tem tido grande sucesso.

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