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Rio de Janeiro, 29 de junho de 2017


Cultura

Eisner inspira avanço dos quadrinhos autorais no país

Bárbara Chieregate - aplicativo - Do Portal

01/06/2015

 Arte: Davi Raposo

O cartunista americano Will Eisner, gigante dos quadrinhos morto em 2005, conserva-se um mestre também da influência. Celebrizado pelas narrativas autobiográficas e pela sensibilidade em tratar questões reais com personagens comuns, segue apontando caminhos para gerações de artistas. Mais que isso, observa o escritor e pesquisador Gonçalo Junior, Eisner ainda abre horizontes para estilos independentes de HQs, inclusive no Brasil:  “O que ele plantou com os quadrinhos autorais está predominando e se estabelecendo no Brasil”, anima-se Gonçalo, quatro vezes vencedor do Troféu HQMix.

Propagador – mas não inventor, diferentemente do que dizem – do termo graphic novel (romance gráfico), Eisner elevou o gênero das HQs ao patamar de arte. Mostrou que nem só de super-heróis vivem as histórias. A importância para o mundo dos quadrinhos reflete-se no batismo do principal prêmio da área: Eisner Award. Dez anos depois da morte, a singularidade do mestre, que trafegava entre o traço clássico e o humorístico, apesar da seriedade das histórias autobiográficas, influencia quadrinhos americanos e brasileiros. Assim observa-se, por exemplo, na adaptação do livro O Alienista, de Machado de Assis, reproduzida em quadrinhos pelos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá.  “Identifico o traço dele como inspiração, talvez muito mais que na narrativa. Nos gêmeos, por exemplo, percebo a presença das graphic novels do Eisner. Vejo a influência do traço, da arte final nas histórias”, avalia o pesquisador.

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Muitas vezes a influência é indireta. O estudante de Cinema da PUC-Rio Gustavo Monlevad, colecionador de quadrinhos há 18 anos, aponta um desses casos:

– Percebe-se que Eisner serviu de inspiração a Jack Kirby, co-criador da Marvel e uma das maiores influências em gibis até hoje. Kirby gostava muito da utilização de fotografias nas histórias do Eisner e fez o mesmo. A narrativa e os planos ousados também indicam referência a Eisner. Se você leu algo da Marvel, viu alguma influência do Eisner.

Coautor da HQ Terapia, o desenhista e ilustrador Mario Cau acredita que o caráter visionário de Eisner também se desdobre nas produções atuais e reforce o sentido de inovação das novas safras de quadrinistas. “Ele escrevia histórias sobre pessoas como eu e você, que têm dramas, alegrias e problemas reais, mas sem ser mundano e simplório. Sempre havia poesia no trabalho dele, seja no jeito com que desenhava, seja no jeito como escrevia”, enfatiza Cau, que desenhou uma página inteira de Terapia emulando o estilo de Eisner. 

Para o colecionador Guilherme Kroll, editor da Balão Editorial, Eisner foi um revolucionário. Ao imprimir um novo olhar sobre os quadrinhos, inspirou e inspira gerações de artistas:   

– Foi um autor completo, revolucionando a nona arte. Eisner se debruçava sobre as pessoas comuns, os anônimos que circulam nas cidades com histórias muitas vezes mais extraordinárias do que aquelas vividas pelo seu protagonista.

Quadrinhos brasileiros ladeira acima

Eisner, dizem os especialistas, é um dos fermentos do avanço da área no Brasil, visto com entusiasmo por autores e consumidores. A morte do gigante dos quadrinhos, em 2005, coincide com o crescimento do volume e da visibilidade das produções nacionais. Entre 2011 e 2014, 96 quadrinhos verde-amarelos conseguiram ganhar o mercado graças ao milhão e meio de reais arrecadado no Catarse, serviço eletrônico de financiamento coletivo. Quadrinhos autorais mostram-se mais reconhecidos pelas editoras – uma valorização alinhada com o legado de Will Eisner. “Qualquer pessoa que acompanha minimamente o mercado de HQs nacionais percebe que estamos numa época memorável. Autores têm muita voz, espaço, e possibilidades de publicar seus trabalhos. Editoras, editais, financiamento coletivo, internet como forma de publicação”, observa Cau.

Para o historiador e quadrinista Raphael Fernandes, parte dessa mudança também pode ser atribuída a inciciativas voltadas ao financiamento de produções do gênero, como o Proac, e à valorização dos profissionais do segmento, como o Festival Internacional de Quadrinhos e o Troféu HQMix. “A produção nunca foi tão diversa e acessível”, comemora. Fernandes também destaca o pioneirismo de quadrinistas como Fábio Moon, Gabriel Bá e Ivan Reis, que passaram a publicar no mercado internacional. Para Kroll, o processo é irreversível:

– Vivemos um período de prosperidade, um avanço da produção autoral como nunca se viu. Há quadrinhos para todos os gostos. Observamos ainda certas carências, faltam obras mais extensas e coisas mais comerciais que furem um pouco o domínio da Turma da Mônica. Mas essa bonança é inegável e, ao meu ver, irreversível – afirma Kroll.

Inspiração ao avanço dos quadrinhos independentes

Professor de Comunicação Gráfica da PUC-Rio, Affonso Araujo coleciona HQs desde 1985 e reforça o vasto time de admiradores do trabalho de Eisner. Ele reitera a relação entre a fase atual e a herança de Eisner:

– Eisner, de certa forma, rompeu com o status quo dos quadrinhos, criando uma nova forma de narrativa, fugindo do comum. Muitos quadrinistas brasileiros seguem essa tentativa de novas trajetórias. 

Para Gonçalo, uma das principais influências recai sobre o rumo dos quadrinhos próprios. “Há uma expansão grande dos quadrinhos autorais. Editoras como Cia. das Letras, Devir e HQM começaram a publicar mais destes materiais“, exemplifica. Kroll acrescenta:

– Todo quadrinista tem um pouco de Eisner em seu trabalho, e o cenário independente brasileiro bebe ainda mais dessa fonte, pela coincidência das histórias.

A ascensão da cena independente confirma a influência pulsante do mestre quadrinista. "Cada graphic novel que você vê lançar está aí por causa de Um Contrato com Deus, encadernado que lançou e popularizou as graphic novels. Eisner não só seguiu tendências, mas as criou", frisa Monlevad.

 

A vida do mestre

O quadrinista nova-iorquino Will Eisner, nascido em 1917, ficou conhecido por criar o herói Spirit. Ao longo de seus 87 anos, trabalhou como desenhista, roteirista, editor, cartunista e empresário, além de ensinar Técnicas de Quadrinhos na Escola de Artes Visuais de Nova York. Eisner é criador de "Contrato com Deus", um retrato da vida no Bronx durante o período da Grande Depressão, considerada a primeira graphic novel da história. Ele também criou as obras "Quadrinhos & Arte Sequencial" e "Narrativas Gráficas", livros com metodologia própria para escrever e publicar quadrinhos.

Considerado um mestre dos quadrinhos, emprestou seu nome para o Eisner Award, principal prêmio das HQs americanas. Suas últimas obras foram "O Complô" e "Fagin, o Judeu", que abordam questões do judaísmo. Em 2013, foi publicada a biografia "Will Eisner, um sonhador nos quadrinhos", lançada no Brasil pela editora Globo.