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Rio de Janeiro, 26 de abril de 2017


Cultura

As lições e memórias de Carlos Manga (1928-2015)

Tiago Coelho* - aplicativo - Do Portal

17/09/2015

Carlos Manga, 84 anos, honra o clichê do homem movido a paixão. Assim o Brasil perdeu o bancário e ganhou o grande diretor nos anos 1950. Manga rendeu-se ao apelo da companhia Atlântida Cinematográfica, fundada em 1941, e nela ajudou a popularizar o cinema nacional. Uma outra paixão, também antiga, o fez mudar novamente de rumo. Deixou a televisão, onde trabalhou por décadas, decidido a consumar "um dos grandes projetos da carreira": contar na telona a vida de Carmem Miranda, “a mulher que mais amei na vida”. Do lendário estúdio, coleciona lembranças ao ritmo das chanchadas que lotavam as sessões país afora. Uma época de ouro, para a qual Manga contribuiu com clássicos como "A dupla do barulho", quando dirigiu Oscarito e Grande Otelo; e "O homem do Sputnik", que reuniu Norma Benguell, Jô Soares, Zezé Macedo e, é claro, Oscarito. Em entrevista ao Portal PUC-Rio Digital, o cineasta destila um pouco das alegrias, perdas e lições amealhadas em 60 anos dedicados à produção audiovisual. Fala da falta que o amigo Oscarito faz, da intimidade com Carmen Miranda, da gratidão que sente por Luiz Severiano Ribeiro,  do renovado amor pela sétima arte. E deixa no ar, bem ao seu estilo, uma doce provocação: o cinema está menos alegre. Estas e outras histórias serão compartilhadas pelo diretor na manhã desta terça-feira, na palestra O Cinema Popular da Atlântida e o Centenário de Luiz Severiano Ribeiro Jr, no  auditório do RDC na PUC-Rio. Às 13h, 15h e 17h, será exibido, no mesmo local, o documentário "Esse é Carlos Manga" (2010), dirigido por Oscar Maron Filho, morto no ano passado. A palestra e as sessões abrem o ciclo de debates e exibições referentes à Atlândida e Luiz Severiano Ribeiro Jr.  

O que fez o senhor deixar a vida de bancário para fazer cinema na Atlântida?

Estava me achando medíocre na profissão e pelo resultado do meu trabalho no banco. Gabava-me daquela fortuna que corria pelas minhas mãos, mas nunca tive o desejo de possuí-la. Aquilo não me emocionava mais, porque eu tinha uma vontade muito grande de fazer cinema. E eu não pude resistir a esse amor. Mas eu tinha vergonha porque o cinema não era uma coisa máscula. Não era bem visto. Um dia procurei meu pai e disse: “Vou largar o banco e vou aprender a fazer cinema”. Meu pai quis saber se aquilo dava dinheiro. Respondi que não sabia. Sabia apenas que estava apaixonado por aquilo, e era o que eu devia fazer. Agora, por favor, não me chame de senhor. Sou o seu amigo Carlos Manga.

Essa vontade de fazer cinema se renova?

Sinto muita vontade. Parei de fazer televisão para me dedicar àquilo que mais amo.

Algum projeto em especial?                    

Tem um projeto que Deus insiste em brilhar para mim, e eu não consigo tirar da cabeça. Tenho que tentar fazer. Eu preciso falar sobre a vida da Carmem Miranda, que foi a mulher que mais amei. Era uma mulher que irradiava graça quando entrava em cena. Uma graciosidade que levou o Brasil ao exterior. É um pouco difícil, muitos já quiseram, e é necessário muito dinheiro, mas vou tentar realizar este sonho. Se não conseguir, quero que registre o meu sofrimento.

Produzir um filme hoje é mais difícil do que no tempo da Atlântida?

Não acho. E ainda tenho o apoio do Luiz Severiano Ribeiro Neto, que se propôs a me ajudar, e que é neto daquele que muito me ajudou e me deu vitória nos tempos da Atlântida: Luiz Severiano Ribeiro.

Hoje, como naquela época, guardadas as diferenças, observa-se uma explosão de musicais nos teatros brasileiros. Por que o cinema não acompanha esta tendência, muito forte no cinema nacional nas décadas de 1940 e 1950?

Naquela época o brasileiro gostava imensamente de rir, de ser alegre, coisa que hoje ele não é. As pessoas morriam de rir com o Oscarito e o Grande Otelo. Eu tinha o privilégio de saber fazer isso. Hoje o cinema está mais difícil de agradar. Não sei se vou conseguir, mas a vontade é maior.

A história sobre Carmen Miranda é mais triste ou alegre?

Meio a meio. A Carmen tinha muita alegria, era muito linda, porém com o passar do tempo ela foi ficando mais distante dessa alegria. Eu tenho uma coisa estranha para dizer: eu acho que a saudade da Carmem é maior do que a presença.

Você chegou a ter algum relacionamento amoroso com ela?

Não. Mas tive uma situação muito curiosa, na casa da atriz Renata Fronzi, onde a conheci. Depois de uma peça de teatro, Carmem foi até lá. Cantou, dançou, fez tudo o que podia fazer, e depois disse: "Manga, estou muito cansada, não consigo mais andar. Vou deitar no sofá e você me faz uma massagem na perna, tá?". Respondi que seria o maior prazer poder mexer em um pé que dança tão bem. Ela falou: "Você é o homem certo para fazer o que eu quero, e o que eu quero é que você conte a minha história no cinema.". Disse a ela que não seria fácil, pois o mundo inteiro iria querer fazer o mesmo. Então, Carmem insistiu que eu teria de fazer, pois "enquanto eu não fizesse os outros não o fariam". Terminamos a noite com esta frase.  

Por que até hoje este filme não saiu?

Porque trilhei outro caminho. Fiz filmes que fizeram muito sucesso e não consegui me dedicar a este projeto. Mas agora que parei um pouco e saí da TV, voltei a pensar neste projeto sobre a vida da Carmem.

O que você acha da produção cinematográfica brasileira atual?

Ela é um pouco sem um caminho definido. Não tem uma característica própria. Não gosto muito de opinar. Tem coisas muito razoáveis e outras ruins. Mas, quando vejo um letreiro de filme brasileiro, sinto muito orgulho.  

Iniciativas como os debates na PUC-Rio sobre a Atlândita e o centenário de Luiz Severiano Ribeiro Jr. contribuem para a renovação e a consolidação da identidade do cinema nacional?

Considero a PUC-Rio uma instituição muito séria. Vou com muito boa vontade falar daquilo que eu respeito profundamente, que é o cinema, e relembrar os momentos lindos vividos na Atlântida.

O estilo de cinema que a Atlântida fazia começou a entrar em decadência quando a televisão decolou? Isso o fez trocar o cinema pela TV?

Para responder esta pergunta, eu teria que ser um pouco desagradável. Por isso, prefiro dizer que gostei muito de fazer cinema. Parei de fazer filmes sentindo muito pesar. Quando o Oscarito faleceu, senti muita saudade. Eu morri um pouco com ele, perdi um pouco da vontade de fazer cinema.

Você lembra de alguma história engraçada, em especial, do Oscarito nos tempos da Atlântida?

Tenho muitas histórias. Ele era um homem muito engraçado. Fazia todo mundo rir. Em particular, nas filmagens de "Nem Sansão, Nem Dalila", a atuação dele era muito engraçada e muito inteligente. No filme "O homem do Sputnik", uma sátira política com o contexto ideológico da época, ele também teve uma atuação exemplar. Nos bastidores, ria-se muito com o Oscarito. Era um homem muito simples, humilde, mas extremamente engraçado. O Oscarito sentava numa cadeirinha ao meu lado e inesperadamente soltava uma pérola que fazia todo mundo rir.

* Reportagem publicada originalmente em 10/4/2012, com o título Carlos Manga quer contar a vida da amada Carmen Miranda.