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Rio de Janeiro, 23 de maio de 2017


Cultura

'A literatura é incompatível com a interação. Escrever exige solidão'

Luisa Oliveira - aplicativo - Do Portal

06/11/2015

 Paula Bastos Araripe

Música e literatura podem fazer parte de universos distintos, mas é nesses dois mundos que o jornalista Arthur Dapieve se inspira para compor seus textos publicados às sextas-feiras no Segundo Caderno de O Globo, ou seus mais de dez livros publicados, quatro deles com edições francesas e portuguesas. Maracanazo e outras histórias (Editora Alfaguara), que será lançado na terça-feira, 10, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, o trouxe de volta à ficção, gênero do qual esteve ausente por mais de sete anos. O professor de jornalismo cultural da PUC-Rio admite que escrever textos na era digital pode ser um desafio, já que é um ambiente mais propício para a dispersão: “É um ponto que assola a mim e a outros escritores. Seu computador não tem só o Word, há navegadores, Itunes... Ajuda na pesquisa, se o livro tem alguma referência histórica, mas ao mesmo tempo dispersa, o escritor começa a escrever e vai parar em outro universo”.

A banda Pink Floyd, que conquistou o carioca ainda na infância é frequentemente mencionada em seus textos, também está presente no mais recente livro do jornalista e escritor, reunindo cinco contos. Da mesma forma, seus personagens também têm gostos pessoais, mais ou menos inspirados na realidade: “O gosto das pessoas para mim é mais importante do que o signo delas. O que você escolhe está no limite entre o consciente e o inconsciente, e eu as identifico por isso”. Ao Portal, Dapieve contou mais das suas experiências literárias, musicais e esportivas que geraram Maracanazo:

Portal PUC-Rio Digital: Como surgiu Maracanazo?

Arthur Dapieve: Foi um convite, uma encomenda muito bem-vinda, porque me tirou de um bloqueio, já que estava sem conseguir escrever ficção há um bom tempo, ocupado em outra ideia de livro, e esse pedido me despertou. A Copa [de 2014] já tinha começado, e um amigo meu, que é tradutor na França e traduziu um livro meu lá, ligou com a encomenda de uma editora que queria uma obra em torno da Copa do Mundo. Podia ser qualquer tipo de livro: não ficção, um diário, minha apreciação da Copa... Enfim, qualquer coisa. Achei um pretexto para escrever uma peça de ficção, mas hesitei porque o prazo era muito curto, eu precisava entregar em setembro do ano passado, já que eles queriam lançar na Feira do livro de Paris deste ano, em abril. Minha resposta não foi nem sim nem não, simplesmente não fechei a proposta. Só que assisti a um jogo pela TV, entre Espanha e Chile, no Maracanã, e a história surgiu na minha mente. O que eu poderia fazer a partir daquele jogo? Não só falar da derrota da Espanha, da eliminação, mas o encontro humano que poderia haver naquela torcida. Escrevi Maracanazo, o conto, bem rápido, cumpri o prazo e o livro foi lançado lá primeiro, como uma obra separada (na edição brasileira Maracanazo está reunido com mais quatro contos). Aqui no Brasil há um pensamento de que livro pequeno raramente vende, mas na França não tem problema. Já vi livro editado por grandes editoras, principalmente como literatura de cordel, de 10 páginas, lindinho. Na edição brasileira de 100 páginas, a gente conseguiu emplacar um desenho do Millôr Fernandes, totalmente diferente da capa francesa, porque aqui tem que ser a ilustração que sirva para os cinco, e lá é somente do Maracanazo.

 Reprodução Portal: Qual a principal diferença entre Maracanazo e seus outros livros?

Dapieve: A principal diferença é que é de ficção. Em outros de ficção eu também uso a realidade, sobretudo no primeiro romance [De cada amor tu herdarás só o cinismo, de 2004], em que percebi que não ia conseguir me desvencilhar do adestramento jornalístico, e aí escrevi um livro que parecia verdade: os shows acontecem na mesma semana em que foram realizados, os personagens frequentavam quatro botequins que eu frequentava na época, os garçons existiam e são mencionados nominalmente. E eu usei isso a meu favor, eu tenho que usar isso ao meu favor. Achei uma vitória quando me perguntavam: vem cá, essa história aconteceu mesmo (O personagem principal se envolvendo com a estagiária)? e eu falava: não, é de um universo alternativo. Mas usei informações que eu tinha. E usei isso também em Maracanazo: o jogo é real, as histórias ali também poderiam ser, então eu embaralho a minha experiência como jornalista para rechear uma história de ficção com coisas que instigam as pessoas com a ideia desconfortável se aquela história é verdadeira ou não. Um cunhado meu estava lendo o primeiro conto, que é ambientado em Copacabana, e me disse que estava lendo e falava: “Coitado do Arthur, o pai dele morreu!”. Mas depois ele se tocou, entendeu que meu pai está vivo, que não era uma história pessoal. Mas eu jogo com essa apuração feita em tempo verdadeiro.

Portal: Em que o Dapieve de hoje mudou para o Dapieve que escreveu seu primeiro romance, 10 anos atrás?

Dapieve: A gente vai mudando a vida. Tem perdas pessoais, ganhos, vai ficando mais velho, a saúde muda, a maneira de ver o mundo muda, embora tenha coisas em comum. De cada o amor tu herdarás só o cinismo é o livro mais verde, estilisticamente falando. O segundo, Black music, é uma obra mais louca, mais alegórica, e Maracanazo é diferente. Onze anos mais velho, e eu escrevendo aquilo. Acho que a gente melhora, pelo menos muda a linguagem, vai escrevendo de uma forma diferente.

Portal: Você mudaria alguma coisa se escrevesse o primeiro romance hoje?

Dapieve: Certamente...

Portal: O quê?

Dapieve: Muitas coisas! E é sempre assim, o autor que acha o livro perfeito certamente tem problemas de autoestima, e excessivo. Eu não gosto de ler meu texto publicado no jornal no dia seguinte porque quando leio, acho que poderia melhorar alguma coisa e isso pode ser relacionado a qualquer erro mesmo: de digitação, de informação... Claro que se você pegar alguma coisa escrita há muito tempo você quer mudar. Um dos pontos de Maracanazo, que é o conto que envolve Pink Floyd, eu uso também o fato real: aquela história que aconteceu da canção que os músicos da banda não conseguiram gravar, aquilo foi verdade. Mas os diálogos foram invenção. Agora, De cada amor tu herdarás só o cinismo é mais antigo, ele tem dez anos e aí, quando peguei para republicar, falei: hum... não! Eu não posso mudar! E então achei que não deveria mudar, o que mudei foi muito pouco. É porque é o retrato de um momento, ele foi escrito em 2004, 2005, é um momento da minha vida, da minha evolução. O meu procedimento é não escrever o que já foi publicado. Eu posso mudar o posfácio, ou então o prefácio, mas o livro sobre rock brasileiro [Brock: o rock brasileiro dos anos 80] ou o perfil do Renato Russo [O trovador solitário] são publicados como originalmente.

Portal: Você mencionou Pink Floyd, e nota-se que é uma banda recorrente nos seus textos. Qual é a importância deles na sua vida?    
Dapieve: Eu aprendi inglês escutando Beatles, a minha professora do colégio usava música dos Beatles para a gente se interessar mais pela aula. Eu gostava deles e de outras coisas menos importantes, mas Pink Floyd foi a primeira banda pela qual me apaixonei. O irmão mais velho de um colega de colégio estava escutando um disco que é conhecido como o disco da vaca [Atom heart mother], eu escutei de carona e... uau, isso mudou minha percepção de mundo, nunca ouvi nada igual.

 Paula Bastos Araripe Portal: Qual o ponto de convergência entre a música, o amor, o esporte e a realidade?

Dapieve: Acredito que estão todos interligados e acho que os nossos laços afetivos, sejam eles pessoais, sexuais, artísticos, esportivos, são afetos, né? E acabam se misturando. Quando eu comecei a escrever Maracanazo, foi uma conjunção disso, uma conexão de circunstâncias, porque esses personagens se ligam naquele jogo por uma situação. Mas, fora, esse ambiente que os aproxima faz com que eles passem a noite juntos. Eles torcem por seleções diferentes, têm posições políticas e estéticas diferentes, mas o esporte circunstancialmente os aproximou. A música pode ter feito isso, a política pode fazer isso às vezes. Como era uma encomenda em cima da Copa do Mundo, eu vi claramente isso acontecer em um estádio de futebol.

Portal: Qual é o maior desafio de um escritor na era digital?

Dapieve: Não se dispersar. É muito tentador para qualquer pessoa se dispersar e escrever coisas que não vão levar a lugar nenhum nas redes sociais. Ou então, até como questão de sobrevivência, participar em excesso de festivais literários, já que pagam participação. Só que aí o autor acaba escrevendo pouco e falando muito sobre aquele pouco que escreveu. Escritura é uma coisa que exige certa solidão, e as pessoas solitárias, circunstancial ou determinadamente, são vistas como doentes. A interação social é exigida, e a literatura é meio incompatível com a interação social. Então esse é o desafio: escrever concentradamente coisas relevantes, e também saber dosar o quanto tem realmente que ajudar na publicidade de um livro e o quanto está entrando numa trip diferente, fazendo a divulgação pela divulgação, sem ter feito algo. É uma questão que não só me assola, mas também a muitos colegas escritores. Mas a dispersão é o principal ponto. Seu computador não tem só o Word, tem navegadores, Itunes. A tentação de trocar de tela é muito grande. Ajuda na pesquisa se o livro tem alguma referência histórica, mas ao mesmo tempo dispersa, você começa a escrever e vai parar em outro universo.

Portal: O que mais mudou, a forma de escrever ou a plataforma?

Dapieve: A plataforma muda a forma de escrever. A forma acaba ditando ou ao menos sugerindo conteúdo. Escrever no tempo da máquina de escrever era diferente de escrever no computador. Meu primeiro livro, que é o do Rock Brasileiro [1995], foi feito em uma máquina de escrever. Era meio elétrica, só depois que eu via no visor do cristal líquido a linha completa, dava um enter – não tinha nome de enter – e era impresso no papel. Era diferente, porque isso fazia com que eu prestasse atenção literalmente a cada linha. Não se escrevia em jatos, se escrevia pausando. O computador facilita, você coloca no papel e depois pode mexer profundamente. Eu não consigo trabalhar assim. Quando coloco na tela do computador, eu fico horas em cima de um trecho curto. Não consigo sair escrevendo e depois voltar mexendo em tudo. Para estabelecer o ritmo da história, já preciso que a primeira versão seja o mais próxima da versão final que eu puder fazer. Não significa que seja a única maneira de trabalhar; o computador facilita que você vire qualquer texto. Eventualmente eu posso vir, trocar um parágrafo, eliminar, mas tento escrever na forma da frase final.

Portal: Como a síntese entre música e literatura influencia na construção dos seus textos?

Dapieve: Eu não consigo conceber pessoas dissociadas de músicas. O gosto das pessoas para mim é mais importante do que o signo delas. O signo é aleatório, você não escolhe a data em que nasce. Agora a música, a arte de maneira geral e a música em particular, o que você escolhe está no limite entre o consciente e o inconsciente. Você escolhe conscientemente, mas por coisas que você não sabe identificar. Então eu identifico as pessoas por isso, identifico as pessoas pelo clube de futebol – que também é a fronteira entre o consciente e o inconsciente. Eu não consigo fazer um perfil de um personagem, que vai ter uma existência um pouco mais longa, sem pensar no que ele escuta. Mesmo que isso não seja mencionado no texto, na minha cabeça ele tem uma trilha sonora mental. Isso me ajuda a criar uma tipologia. Um personagem só é real se ele tem gostos artísticos e, em particular, gostos musicais.

Portal: Como foi a experiência de ter sido finalista do Prêmio Jules Rimet, para livros sobre esportes publicados na França?

Dapieve: Uma bela surpresa, porque eu nunca concorri a nada no Brasil. Nunca ninguém me inscreveu nem eu nunca me inscrevi a alguma coisa. E aí quando veio da França a notícia de que o prêmio tinha pedido à editora exemplares do livro para distribuir entre os jurados, eu achei ótimo, competir é ótimo. Até porque eu nunca tive a esperança de ganhar. Mas só competir é ótimo, e foi interessante porque eram seis competidores na fase final, dois brasileiros e quatro franceses. Só essa proporção eu já achei ótima. Poderiam ter escolhido quatro ou cinco franceses e ficar nisso, mas escolheram dois brasileiros [ele e Sérgio Rodrigues, com O drible]. E no meu caso uma editora francesa pequena, cult [a Folies d'Encre], com uma história interessante de ser ligada a uma livraria de subúrbio.

Portal: O que o Dapieve romancista se permite e o Dapieve jornalista não?           

Dapieve: Inventar coisas. Não dá para inventar como jornalista, e como romancista dá para inventar. Mas acho que o barato de ser romancista é inventar em termos de casos reais, para as pessoas ficarem com a pulga atrás de orelha. “Aquilo aconteceu? O pai dele morreu? De onde ele está tirando?”. Vou fazer pesquisa de campo. Em um dos contos do livro, fui a Viena, nos cafés e lugares onde acontece, não só para ter uma noção intelectual ou abstrata do que é aquele lugar, mas sentir o ar e o clima da cidade. Eu fui ano passado a Viena para fazer isso.