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Rio de Janeiro, 23 de outubro de 2017


Cultura

"É preciso dirimir desequilíbrios da dependência do livro didático"

Cecília Bueno e Carolina Ernst* - aplicativo - Do Portal

03/09/2015

 Thayana Pelluso

Embora o mercado editorial tenha resistido relativamente à crise – e crescido 21% no último ano, segundo o Painel de Vendas de Livros no Brasil, realizado pela Nielsen e pelo Sindicato Nacional de Editores de Livros (SNEL) –, a dependência de encomendas do setor público, especialmente para livros técnicos, o nível de leitura atrofiado  e a emblemática debandada das livrarias de rua preocupam autores, editores, executivos e pesquisadores do setor. O tema se incorpora aos 60 mil metros quadrados da 17º Bienal do Livro, no Riocentro, cujos três pavilhões reunirão, desta quinta até o próximo dia 13, 383 expositores e diversas palestras. Uma delas vai discutir justamente a formação e leitores no país. Está marcada para 11 de setembro, às 16h, no Café Literário, com Ignácio De Loyola Brandão e Tânia Rosing, Marisa Lagiolo e Volnei Canônica. Todo o catálogo da Editora PUC-Rio estará disponível no estande da Associação Brasileira de Editoras Universitárias (Abeu).

Apesar do ascendente consumo de informação e entretenimento nas plataformas digitais (60 milhões de brasileiros já se informam, principalmente, pelo Facebook, revela o levantamento Digital News Report, da Reuters), o livro eletrônico empaca em 2% do mercado nacional. Está longe ainda de multiplicar o acesso à leitura, como se havia previsto. O brasileiro lê, tradicionalmente, muito pouco: quatro livros por ano – dois inteiros e dois em partes, constata a pesquisa Retratos da Leitura, do Instituto Pró-Livro em 2011, com apoio da Câmara Brasileira do Livro. Nem a redução de 4,6% do preço médio de capa, no ano passado, nem a ligeira subida na taxa de leitura no Nordeste (média de dois livros per capita em três meses), tampouco o aumento de 27% no volume de publicações se traduzem num nível de leitura menos incipiente.

Os leitor brasileiro apresenta um perfil de consumo pouco animador às ambições do mercado e à necessidade de melhorar nossa educação, 60ª entre os 76 países avaliados pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), o ranking mundial da área. Bíblia e livros didáticos comandam as preferências, fora o modismos dos livros de colorir para adultos, que movimentaram R$ 22 milhões de janeiro a junho. Contos, romances e literatura infantil seguem atrás. 

A formação "deficitária" de leitores se mantém o pedregulho no sapato do mercado editorial, aponta o diretor da Associação Nacional das Livrarias (ANL), Afonso Martin. Segundo ele, apenas 38% das graduados são capazes de compreender plenamente um texto. A constatação alude a um efeito cascata:

– Educação deficiente leva ao leitor deficiente, que leva ao mercado consumidor deficiente. O mercado editorial está casado com a cidadania, com os processos de instrumentalização da leitura e a linguagem e compreensão de texto As livrarias funcionam como um termômetro da qualidade educacional e de cidadania no país. Quanto menos livraria, mais doente está o país – alerta Afonso. Ele completa:

– O analfabetismo, ou mesmo o analfabetismo funcional, não coloca a pessoa à margem de uma sociedade, coloca a pessoa à margem da civilização. Porque a linguagem falada e escrita é a base da comunicação e da interação humana na civilização. Não existe uma política de Estado séria de instrumentalização da cidadania plena.

Thayana Pelluso  Para irrigar a formação desses consumidores, especialistas reiteram a necessidade de se coordenarem esforços públicos e privados em torno de programas de acesso ao livro e incentivo à leitura. "Ainda não somos uma pátria leitora", ressalta a gerente de atendimento da Neide Martingo, numa alusão ao lema "pátria educadora", do governo federal. "Precisamos mudar essa realidade, não só porque desejamos vender mais livros, mas, principalmente, porque queremos um país melhor, mais culto, mais preparado, mais moderno, mais competitivo”, completa.

O caminho até a "pátria leitora" exige, entre outros aspectos, a mudança no perfil do próprio mercado, ainda dependente de publicações didáticas e técnicas, encomendadas pela adminisração pública, e vulnerável a modismos, como o dos exemplares para colorir. Dos R$ 5,5 milhões arrecadados no ano passado, quase a metade caiu na conta dos livros didáticos (R$ 2,6 milhões), contabiliza o estudo Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, feito pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) a pedido da CBL e do Sindicato Nacional de Editores de Livros (SNEL). Em volume de venda, a proporção se equivale: do total de 435 milhões de livros comercializados, 215 milhões foram exemplares didáticos para atender os governos federal e estadual.

Embora dourado pelo custo menor e pelos recursos digitais interativos, o livro eletrônico estacionou em 2% de participação no mercado. Mostra-se insuficiente para ampliar o acesso à leitura. Nem a investida da gigante Amazon revela-se capaz, ao menos por enquanto, de turbinar a procura por livros no Brasil. Desde o ano passado, a gigante do comércio eletrônico passou a vender exemplares físicos por aqui, mas aposta mesmo na transposição, para o mercado literário, do modelo de consumo característico dos serviços de áudio e de vídeo, como Spotify e Netflix, pelos quais se tem acesso a um cardápio de conteúdos mediante uma mensalidade relativamente modesta (em torno de dez dólares). Leitores ainda não compraram a ideia, até pelos comportamentos distintos entre o consumo de livros e de filmes/seriados e música.

Autores, editores e executivos do setor divergem sobre os rumos dos e-books. Alguns acreditam na extinção do livro, em médio prazo. Outros confiam na coexistência, por longo tempo, entre os dois formatos. "A portabilidade é um trunfo do livro digital. Mas muitos ainda desconhecem a natureza deste formato. E o preço do leitor digital, em torno de R$ 300, afasta parte do público", pondera a assistente editorial da Editora PUC-Rio, Lívia Salles (ouça a íntegra na reportagem de Andressa Pessanha)

A crença inicial de que os livros de papel seriam engolidos pelos digitais se dirimiu. Apesar do crescimento de 35% na venda de e-books, (900 mil unidades vendidas em 2013 para cerca de 1.200.000 em 2014), de acordo com a pesquisa Fipe, a variação ficou menor do que se esperava. "Tem-se observado que os materiais digitais não se sobrepuseram aos impressos. Houve um desenvolvimento da leitura simultânea em diversas plataformas. Por exemplo, jovens optam por acessar a internet em aparelhos eletrônicos para acompanhar notícias e aulas, mas usam impressos para estudar em casa. Acredito que os impressos e os digitais dividirão o espaço no mercado livreiro, sem domínio de um sobre o outro”, projeta Neide Martingo.

Afonso cultiva prognóstico semelhante: "A experiência do livro de papel não foi suplantada pela tecnologia e pela plataforma digital. Vai continuar fundamental para a experiência da difusão cultural humana”. O diretor da Associação Nacional de Livrarias (ANL) também confia que o papel se manterá articulado com outras mídias (rádio, cinema, TV, internet). "Cada uma tem sua função na sociedade e no mercado”, argumenta.

O presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, Marcos da Veiga Pereira, nutre um olhar otimista em relação ao avanço do livro eletrônico no Brasil e, consequentemente, do volume de leitores. Para ele, há uma "enorme" perspectiva de crescimento:

– Em países onde o livro digital está mais consolidado, ele representa, no máximo, 30% do mercado. No Brasil, este número deve chegar a 6% até o fim do ano. Ou seja, há um enorme espaço para o crescimento. E é de se imaginar que a convivência entre o digital e o impresso também seja mantida no Brasil.  

O diretor executivo da Editora Simplíssimo, Eduardo Melo, joga as fichas no digital, mas ressalva: “O problema da leitura digital está completamente conectado aos problemas da leitura no Brasil. Só que o livro digital tem que competir com livros (de papel), música, jogos, outros aplicativos, outros entretenimentos, e ainda está em desvantagem. Na preferência dos pessoas,  fica em quinto ou sexto”, estima. 

Já o superintendente da Editora Melhoramentos, Breno Lerner, considera provável o avanço do digital não só no segmento literário, mas também no das publicações didáticas e técnicas. Ainda assim, ele avalia que "o espaço do livro papel tende a ser pouco afetado”.

Enquanto o livro digital e as iniciativas público-privadas de incentivo à leitura não decolam como se deseja, executivos buscam outras estratégias para aquecer o varejo editorial e diversificar o consumo historicamente concentrado em encomendas didáticas: incrementam as feiras literárias, aproximado-as de festas, com programação variada; garimpam jovens talentos já reconhecidos nas mídias sociais, mas cuja legião de seguidores não necessariamente garante fôlego de campeão no mainstream comercial; discutem formas ou fórmulas para conter o estrago da inflação, à beira dos 10% ao ano. A defasagem decorre, em parte, da falta de regulação do varejo, observa o presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, Marcos da Veiga Pereira. Ele aponta as principais distorções do mercado:

–  O preço médio de capa do livro pouco se altera há mais de dez anos, ou seja, está sendo corroído inflação. Enquanto, por exemplo, o ingresso de cinema sai a R$ 40, por duas horas de filme, o preço médio do livro é de R$ 33. Nosso mercado está absurdamente desregulado, o que aguça um desequilíbrio crônico: 16% do total de pontos de venda de livros no país respondem por 70% do volume vendido. Além disso, 15 editoras representam 60% do mercado. Nesse quadro, ainda temos práticas corrosivas de preço, nas quais livros são oferecidos com desconto médio de 40% ou até mais.

Ainda de acordo com o presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, "a lei do preço fixo pode ajudar a equilibrar os elos da cadeia produtiva do livro”. O diretor da ANL, Afonso Martin, lembra que o preço "de referência" é estabelecido pelo produtor, ou seja, pela editora, não pelo varejo, o que "limita a margem de ajuste" da livraria. A discussão sobre o modelo de negócios capaz de melhor conciliar interesses de editoras, livrarias, autores e, claro, leitores já frequentou, neste ano, os corredores e plenários do Congresso, mas caminha distante de um consenso.

Outra tentativa para corrigir defasagens e aquecer o setor em meio à crise econômica, sugere  Veiga Pereira, é a identificação de segmentos emergentes, como o dos livros de aventura, romance e fantasia para os jovens, A categoria representa boa parte dos lançamentos dirigidos aos 700 mil visitantes esperados na Bienal até o próximo dia 13.  “Mais do que nunca, o editor vai ter que ser criativo para perceber nichos e detectar o interesse do público”, diz o representante dos editores.

Os esforços para detectar os ventos do consumo passa por revestir de entretenimento as feiras do setor. A Flip, por exemplo, já nasceu, como sugere o batismo (Festa Literária de Paraty), sob o signo da confraternização. A Bienal segue o trilho de enriquecer a programação com mesas redondas e shows, para capturar o interesse do leitor, especialmente dos leitores em potencial. “As feiras são uma excepcional oportunidade para a editora conhecer melhor as tendências, se aproximar do leitor, que, por sua vez, abre encontra um leque de títulos disponíveis”, destaca Veiga Pereira. “E quem ainda não é um leitor regular tem a oportunidade de entrar em contato com autores, com o próprio livro e se encantar pelo universo da leitura”, arremata.

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