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Rio de Janeiro, 17 de agosto de 2017


Crítica de Cinema

Sofia Coppola traça retrato da juventude sem rumo

Miguel Pereira* - aplicativo

09/09/2013

 Divulgação

Não é novidade o cinema ter como enredo grupos juvenis delinquentes. Esses personagens aparecem sempre em contextos de desajustes familiares e sociais.  São formas de reação ao desconforto vivido, à falta de horizontes e perspectivas existenciais. Sofia Copolla, em seu novo filme Bling Ring: A gangue de Hollywood, segue, em parte, essa receita. No entanto, sua abordagem faz uma espécie de painel crítico da vida contemporânea no que diz respeito à juventude sem rumo e à sociedade que se encontra à deriva dos valores fundamentais que há séculos a sustentam. É como se um vazio profundo, um buraco negro abismal, roubasse o sentido do existir. Do lugar comum da falência das instituições à impossibilidade da razão ser a luz da vida, o sentimento de que vale apenas o instante vivido joga sobre a superfície do espaço existencial a intensidade de uma experiência passageira que é substituída por outra, e, assim, sucessivamente. É nesse fruir efêmero e sucessivo que se dão as respostas à crise contemporânea. É como se o tempo provisório se tornasse a medida única das vivências cotidianas. Adrenalina no sangue é o que importa. Muita excitação, pouca razão. Quando esse elo é cortado, não há saída senão o confinamento.

Sofia Coppola conduz sua narrativa sem arroubos e exaltações. Procura construir um ambiente naturalista e trabalha com personagens colados numa representação realista. A origem da história se diz baseada em fatos reais. Esse artifício não significa que o relato é uma expressão fidedigna dos acontecimentos históricos. Essa aura de que o filme retrata o mundo tal como ele é, obviamente, não se sustenta. O que produz novidade é o modo pelo qual o drama se articula nas suas diferentes partes e no resultado estético do conjunto. Tanto os interiores das mansões com suas coleções de bens que simbolizam o poder, a riqueza e o prestígio das celebridades do momento, como os ambientes familiares dos jovens adolescentes, ou mesmo as escolas e clubes noturnos compõem um universo que se sustenta na cultura da abundância e do supérfluo. Além disso, todos os personagens jovens vivem os conflitos do tempo da autoafirmação e os desafios de ser e buscar a própria identidade num ambiente fechado, sem diálogo. A transgressão é uma oportunidade de vivência fugaz e calculada. A satisfação de si, mesmo que por momentos descontínuos e eventuais, se traduz em momentos de euforia. É exatamente nessas ocasiões que se estabelece a cadeia da perversão, do risco, do confronto de valores, enfim, de uma prática social que conduz ao vazio da existência, ao sentimento da infelicidade, às tragédias da vida cotidiana. As imagens dos jovens algemados e presos chocam pelo abandono e pela infâmia dos seus próximos sempre ausentes e fora do lugar. É isto que Sofia Coppola tenta nos dizer. Seu recado não é moralista. Mostra inquietação e nos provoca.

Dona de um estilo desconcertante, sob a aparência de uma harmonia visual agradável, Sofia Coppola faz deste seu último trabalho, Bling Ring: A gangue de Hollywood, um exercício estético da simplicidade que leva o incômodo ao espectador. Esse efeito é o resultado mais evidente do filme e sua grande virtude como obra cinematográfica.

* Miguel Pereira é professor da PUC-Rio e crítico de cinema.