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Rio de Janeiro, 29 de junho de 2017


Crítica de Cinema

Retrospectiva de Pasolini traz filmes inéditos no Brasil

Miguel Pereira* - aplicativo

24/10/2014

 Reprodução

O Centro Cultural do Banco do Brasil, o CCBB, está realizando uma retrospectiva completa do cinema de Pier Paolo Pasolini, sob a curadoria do professor da PUC-Rio Flávio Kactus, um conhecedor profundo da sua filmografia. A mostra teve início no dia 16 de outubro, no Rio de Janeiro, com a exibição de Evangelho segundo São Mateus (foto), e vai se encerrar no dia 10 de novembro. Em São Paulo, começou no dia 22 de outubro e termina em 16 de novembro. Já em Brasília, vai de 5 a 24 de novembro.

Uma atenção especial deve ser dada aos filmes ainda inéditos no Brasil. Destaco, entre eles, Locações na Palestina, rodado numa espécie de pesquisa para as filmagens do Evangelho segundo São Mateus. É um filme de extrema atualidade, pois foi realizado, em junho e julho de 1963, antes da Guerra dos Seis Dias, de 1967, quando Israel ocupou as colinas de Golã, a faixa de Gaza, o deserto do Sinai, a Cisjordânia e Jerusalém Oriental, expandindo seu território dos 20.300 km² originais para 102.440 km². O documentário mostra claramente a situação das populações que viviam nesses territórios, por onde Cristo passou vinte séculos antes. As inspirações que levaram Pasolini a realizar o Evangelho foram colhidas pelas imagens dos palestinos pobres e sua habitações precárias, embora não tenha filmado lá.

Vale ainda uma avaliação da situação mundial no que diz respeito ao processo de descolonização e aos principais conflitos do mundo no início dos anos 60. A raiva é um filme com material de arquivo e que tem uma narração explosiva. É mais do que um documento de época. É um libelo contra a violência humana e o desastre da civilização contemporânea.

Destaco também a famosa enquete que Pasolini realizou, em 1963, sobre questões relacionadas às relações afetivas. Comizi d´amore mereceu comentários de ilustres intelectuais, como o de Michel Foucault, publicado no Le Monde, em 23 de março de 1977, sob o título As manhãs cinzentas da tolerância. Merece também especial atenção o episódio do filme Rogopag, chamado A ricota, certamente o filme mais censurado da carreira do cineasta, pelo qual foi condenado a quatro meses de prisão. Todo esse inacreditável processo está relatado num outro filme presente na Mostra do CCBB intitulado A futura memoria, de Ivo Barnabò Micheli.

Fazem parte ainda desta mostra filmes que relatam a vida do cineasta e seu brutal assassinato, em 1975. Há também a presença de Nineto Davoli, o ator preferido de Pasolini, e encontros em mesas-redondas com a participação de acadêmicos e pessoas ligada ao trabalho de conservação da obra de Pasolini na Itália, como Roberto Chiesi, responsável pelo arquivo do cineasta na Cinemateca de Bolonha.

Enfim, é uma ocasião única de desfrutar de uma obra inovadora não apenas do cinema italiano, mas mundial. Trata-se de um pensador que precisa ser mais conhecido por suas posições lúcidas e contemporâneas da vida social, política, econômica e cultural do mundo em que vivemos.

* Miguel Pereira é professor da PUC-Rio e crítico de cinema.