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Rio de Janeiro, 18 de agosto de 2017


Crítica de Cinema

Quartinho dos fundos sob um olhar crítico e bem-humorado

Miguel Pereira* - aplicativo

22/10/2015

 Divulgação

Indicado, oficialmente, pelo Brasil, para participar da corrida do Oscar de filme estrangeiro do ano que vem, e já premiado em diferentes festivais nacionais e estrangeiros, com destaque para Regina Casé como melhor atriz, Que horas ela volta?, de Anna Muylaert, narra uma história cujos contornos são muito próprios do nosso país. Só em famílias muito ricas do mundo essas práticas das empregadas domésticas ou serviçais ainda persistem. Talvez por isso a boa acolhida que o filme vem tendo aqui e lá fora. No nosso caso, se reveste de especial interesse por suas ironias e questionamentos desse processo centenário que remonta à escravidão. O espaço destinado aos empregados nos edifícios mais antigos já indicava a discriminação que ainda persiste: a famosa entrada de serviço e as dependências ou o chamado quarto da empregada. Os próprios anúncios de imóveis ainda apontam para essa realidade. A proposta de Anna Muylaert está, portanto, dentro de um contexto bem brasileiro e ainda presente em nosso ambiente social.

 Divulgação

É obvio que o olhar é crítico, mas ao mesmo tempo contemporizador. Não há propriamente uma discussão mais profunda  sobre a questão. O filme se desenvolve ao estilo que Muylaert vem construindo em sua carreira de cineasta, desde Durval Discos, seu primeiro e premiado longa-metragem. É uma forma de narrar naturalista, como se estivesse documentando as ações, com pouquíssimos arroubos sonoros e imagéticos. Os altos e baixos dos dramas cotidianos são contidos numa espécie de sotto voce, como tom predominante da narrativa. A contenção é talvez o segredo principal do humor satírico que perpassa o filme inteiro. Lembro aqui a grotesca sequência do falso pedido de casamento do dono da casa à filha da sua empregada. Momentos como esse são elementos que caminham na direção da afirmação de um estilo próprio de narrar. Poderia adicionar outros exemplos. Mas, sem dúvida, já para o fim do relato há a cena da Regina Casé na piscina que é um primor de composição, principalmente, no telefonema para a filha que marca o reencontro de ambas e o desfecho final do filme.

Embora as questões de fundo das relações patroa-empregada não estejam discutidas mais detidamente, Que horas ela volta? é um filme agradável de se ver e que tem na interpretação de Regina Casé  um trunfo indiscutível de acerto cinematográfico, com o bom humor que ela é capaz de criar em tudo o que faz.

* Miguel Pereira é professor da PUC-Rio e crítico de cinema.