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Rio de Janeiro, 25 de setembro de 2017


Crítica de Cinema

Metáfora da vida dos mais frágeis que nos ensinam tanto

Miguel Pereira* - aplicativo

19/08/2013

 Divulgação

As primeiras imagens de Camille Claudel, 1915, de Bruno Dumont, mostram a protagonista olhando para o céu através de uma bela árvore invernal de galhos secos. Por ela passam a luz e os raios celestes que turvam e atrapalham a visão. O olhar se fixa e permanece numa espécie de beatitude de quem achou a forma ideal. A expressão é de um gozo criativo estampado na face. Esse momento inicial de contemplação é um dos eixos centrais da narrativa. A famosa escultora vive a inspiração da criação, sem concretizá-la. A angústia do processo criativo não se torna ação. É interiorizada apenas. Entendemos, ao longo do filme, que o êxtase é uma potência que jamais se torna ato. Há mesmo uma sequência em que Camille pega um pouco de barro do chão e começa a modelar uma figura. Antes de chegar a uma forma mais definida, a mão crispada desiste e joga fora a sua matéria-prima.

Por outro lado, o olhar voltado para o alto parece indicar que de lá poderá vir o milagre. O caminho é espinhoso. Quase um calvário. Um dos momentos mais emocionantes e simbólicos do filme é exatamente quando um grupo de internos escala uma pedregosa e incômoda montanha. Ao cimo, a contemplação supera tudo. A dor e o sofrimento da caminhada ficam estampados nos corpos. A solidariedade também. Uns ajudam aos outros e o que poderia ser aversão torna-se simpatia, acolhimento, quem sabe, amor.

Camille Claudel viveu internada num asilo de loucos por mais de 30 anos, obcecada por medos e manias de perseguição. Há ainda muito a se pesquisar sobre esse fato. O ostracismo existencial e artístico de Camille continua a desafiar os estudiosos da arte.

Este filme de Bruno Dumont é o relato de uma pequena parte do processo de alienação impositivo e sem saída. Camille Claudel foi privada de se exprimir, submersa que ficou em suas fobias. No entanto, na versão apresentada pelo cineasta, se infere, claramente, que o contexto conspirava contra ela. Até seu irmão querido, Paul Claudel, pouco a visitava e nada fez para tirá-la do asilo. A sequência do encontro dos dois é absolutamente cruel. O radicalismo médico, a condenação moral insinuada como culpa de um aborto não explicado, além do pano de fundo das complexas relações de Camille com Auguste Rodin, a vida cotidiana entre os loucos, enfim, o seu martírio em vida, são abordagens que Bruno Dumont nos apresenta como possibilidades do sentir e entender a talentosa escultora francesa.

Acima de tudo, a visceral e soberba interpretação de Juliete Binoche e uma fotografia esplêndida de Guillaume Deffontaines fazem de Camille Claudel, 1915 um belo filme que é também uma metáfora da vida dos mais frágeis que nos ensinam tanto.

Miguel Pereira é professor da PUC-Rio e crítico de cinema.