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Rio de Janeiro, 19 de outubro de 2017


Crítica de Cinema

Irmã Dulce: drama exemplar de uma vida santa, reta e generosa

Miguel Pereira* - aplicativo

28/11/2014

 Divulgação

O filme Irmã Dulce, de Vicente Amorim, está encantando muita gente. De onde vem esse encanto? Pergunta natural diante de uma cinebiografia em grande parte já conhecida do público. Irmã Dulce foi uma personalidade marcante e carismática que teve projeção nacional, por seu trabalho persistente e eficaz junto às populações pobres de Salvador. Tornou-se uma figura midiática e de grande apelo popular. No filme, ela surge não como a heroína de uma causa, mas como a pessoa terna e amorosa que foi capaz de enfrentar, destemidamente, poderes e agressões na sua longa trajetória em favor dos outros, os despossuídos e necessitados.

A poética que Vicente Amorim introduziu no seu relato não está nos detalhes, mas num tratamento em que as ações dramáticas se somam umas às outras para compor um painel belo e atraente. Não ilude o espectador; convida-o a participar desse drama exemplar de uma vida santa, reta e generosa. Utiliza, de modo eficiente, as estratégias narrativas do cinema para um tipo de adesão que não impõe seus valores estéticos ou temáticos. Apesar de ser uma produção cuidada com o tempo e o espaço – lembro apenas o detalhe do quadro fotográfico de Pio XII na parede – esse elemento não se destaca do valor central do filme. Ele passa diante dos nossos olhos como se fosse uma coisa natural. Esse despojamento é uma característica presente nos outros trabalhos de Vicente Amorim. Não deixa a produção subir ao primeiro plano, como na maioria dos filmes contemporâneos. Quase nenhum efeito especial. A cena do encontro da Irmã com João Paulo II, em sua primeira vinda ao Brasil, não é inteiramente reconstituída. No entanto, em nada diminui o seu impacto, que é sintetizado no documentário final, sem mágicas ou apelos grandiloquentes. É um filme puro como pura era a Irmã Dulce. Esta submissão da produção à estética é um procedimento raro, e neste filme se adapta plenamente ao ser da biografada. A Irmã Dulce era a doçura e o amor em primeiro lugar.

O que está na cena faz jus total à beata já proclamada e à santa que em pouco tempo será canonizada. Este filme é um testemunho desse futuro e uma perspectiva de esperança, para que com o exemplo de Irmã Dulce se propague e encoraje muitos a seguirem o seu caminho.

* Miguel Pereira é professor da PUC-Rio e crítico de cinema.