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Rio de Janeiro, 27 de julho de 2017


Crítica de Cinema

Como a experiência da arte se reflete nas periferias

Miguel Pereira* - aplicativo - Do Portal

02/09/2013

 Divulgação

Em 1977, o documentarista George Stoney, também professor da Universidade de Nova York, volta à sua terra natal, a Irlanda, para visitar as locações e personagens ainda vivos do famoso filme O homem de Aran, de Robert Flaherty. Sai de lá como um dos documentários mais originais da história, Como foi feito o mito, de 1978, que revela alguns dos verdadeiros bastidores desta obra-prima do cinema mundial, mais de 40 anos depois da sua realização. Esse percurso de retorno ao filmado teve aqui no Brasil um exemplo emblemático com Cabra marcado para morrer, de 1984, de Eduardo Coutinho, até hoje o seu maior sucesso. Muito outros filmes seguiram nessa mesma trilha. É o caso de A alma da gente, de Helena Solberg e David Meyer. Em 2002, documentaram o belo projeto do coreógrafo Ivaldo Bertazzo, A dança das marés, realizado com jovens e adolescentes do Complexo de Favelas da Maré. Dez anos depois, retornaram ao mesmo lugar para nos contar o que aconteceu com alguns dos mais talentosos dançarinos revelados durante o processo de produção do espetáculo.

Diferente de outros projetos, o filme da dupla Solberg e Meyer constrói dois momentos distintos para nos propor uma reflexão importante e questionadora dos processos que ainda vigoram nas chamadas periferias do Brasil. Muitas ONGs e patrocínios culturais realizam seus projetos sem dar continuidade a eles. Acabam porque o objetivo foi atingido. Com isso, o que foi semeado serve apenas a uma colheita. E o talento fenece, pois a vida não perdoa, passa, e os destinos mudam.

Na primeira parte do filme vemos como esses jovens têm a chance de se tornarem dançarinos profissionais. Dos rigorosos ensaios promovidos por Bertazzo e sua equipe, ao cotidiano das casas e vielas da favela, tudo é mostrado pelas câmeras sensíveis de David Meyer e pela direção atenta de Helena Solberg que comanda, com talento, os belos movimentos da arte da dança. Nesse conjunto de imagens bem compostas surge uma visão sem preconceitos das favelas cariocas. Lá pulsa a vida como em qualquer outro bairro da nossa cidade. Uma vida digna, prazerosa, inteligente e sensível. Além disso, penetra na intimidade dos sentimentos e da arte que cada personagem carrega em si. Entre tantos casos, cito o do Cadu que agora é cineasta. Não perdeu o sentido de solidariedade com a sua comunidade.

Também vale o registro da história trágica de um dos líderes do grupo dos jovens dançarinos que volta ao tráfico e acaba assassinado depois que o projeto acaba. Outra observação que o filme deixa como reflexão para o espectador é o número consistente de jovens mães ainda adolescentes. Aborda também a questão das intervenções culturais que não têm seguimento, deixando seus participantes frustrados pela não continuidade dos projetos.

A alma da gente é assim um filme que mostra a beleza da dança e ao mesmo tempo questiona o destino dos seres que foram deixados ao léu. Claro que o sentido e a descoberta do mundo da arte moldaram a sensibilidade de seus corpos e almas. O que são e o que vierem a ser estarão sempre marcados por essa experiência vital insubstituível. 

* Miguel Pereira é professor da PUC-Rio e crítico de cinema.