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Rio de Janeiro, 29 de maio de 2017


Crítica de Cinema

Cenas mirabolantes e retóricas da violência em 'A família'

Miguel Pereira* - aplicativo - Do Portal

04/10/2013

 Divulgação

Quase 70 anos depois da invasão da Normandia, em 22 de agosto de 1944, o cineasta Luc Besson reacende uma velha querela francesa que considerava a cultura americana menor. Logo no início do seu último filme, A família, testemunhamos esse mútuo preconceito entre as duas mentalidades, hoje, em parte superado, com um dos símbolos do americanismo, a Disneyworld, implantada no coração da França. Se não fosse uma família especial, a de um chefe mafioso premiado por delação e transferido para uma pequena cidade da Normandia, as situações narradas pelo filme poderiam ter ido mais a fundo nessa relação cultural que distingue os dois países. No entanto, não deixa de ser interessante que um filme de ação e muita violência tenha, como substrato, um ambiente que remete a essa questão. Dos vizinhos à escola dos filhos, assim como nas relações com os serviços locais, essa disputa aparece às vezes de forma irônica, e, em outras, grosseira e quase infantil. Mesmo que tenha como pano de fundo uma narrativa centrada nas trapalhadas familiares, essa abordagem não deixa ser interessante. O que minimiza o seu efeito é estar a serviço de situações absolutamente convencionais nesse gênero de cinema.

Há ainda um procedimento bastante incomum nos filmes de ação que é a presença de um narrador que escreve enquanto narra e deixa o final em aberto. Esperteza de roteirista, sem dúvida. Também um curioso modo de conduzir a história entrelaçando essas três linhas de ação dramática: o contexto, a máfia e um sujeito narrador. Embora Luc Besson carregue as tintas nas situações estrombóticas do gênero gangster à Nikita (1990), seu grande sucesso, não deixa de compor seu filme com algum colorido que vai além da pele. A sequência da sessão do cineclube provinciano é ao mesmo tempo divertida e absolutamente cinematográfica, até mesmo pelo aviso inicial de que a Cinemateca francesa trocou o filme, e por isso será mostrado Os bons companheiros, de Martin Scorsese, tendo como debatedor o mafioso, revestido de pai de família. É um achado que funciona muito bem no meio das cenas mirabolantes e retóricas da violência e das caricaturas. Curiosamente, Scorsese consta nos créditos de A família como produtor executivo, o que significa que, de algum modo, associou-se a Luc Besson nesse projeto.

Apesar de não ir mais a fundo nas questões que passam pelo filme, A família, no original, Malavita, diverte e faz passar o tempo, além de contar com um Robert De Niro em boa forma e Michele Pfeiffer, como sempre bela e convincente, compondo um elenco bem conduzido. 

*Professor da PUC-Rio e crítico de cinema.