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Rio de Janeiro, 20 de agosto de 2017


Crítica de Cinema

Ao revisitar o romantismo, Woody Allen dá recado reflexivo

Miguel Pereira* - aplicativo

09/11/2014

 Divulgação

Cético, melancólico, estranho são alguns adjetivos que têm sido usados pela mídia para se referir ao momento criativo de Woody Allen. Ele mesmo colabora para essa imagem pública que é desmentida a cada filme que realiza. De certo modo, suas obras mais recentes demonstram uma maturidade artística nova que se origina num pensamento questionador da própria existência. Essa pesquisa não se fundamenta em grandes arroubos intelectuais, mas em sentimentos humanos de forte impacto. Os teóricos e filósofos que aparecem nos diálogos dos filmes são apenas referências episódicas, muitas vezes em contextos de ironia. Nietzsche é uma das citações mais usuais do cineasta. Mas as suas indagações são coerentes e dentro de uma linguagem cinematográfica extremamente sedutora. Em Magia ao luar, ele revisita o glamour do gênero romântico, com todos os seus ingredientes melodramáticos. Apesar de o centro da narrativa ser a linha de uma história de um casal que está em posições opostas, o contexto que envolve essa trama acaba sendo o âmago de suas angústias existenciais.

Percebe-se que Allen não cria tramas simultâneas e sucessivas. Todas integram o mesmo espaço e tempo. Não são linhas paralelas, mas transversais. Assim, é possível entender que as relações tecidas nesse enredo rebatem umas nas outras e o discurso ultrapassa o gênero. O charme da sua narrativa está nesse arranjo em que, por exemplo, a experiência da morte convive com a esperança da vida, em que o além da morte é uma realidade ou uma magia torna-se uma questão secundária, mas presente e inquietante. São as angústias de uma existência que experimenta a proximidade da finitude que desperta a sua indagação na busca de um preenchimento espiritual. Neste filme, Woody Allen mostra que as agruras de seu protagonista são uma tentativa de encontrar uma verdade, mesmo que parcial.  E, aí, a chave do melodrama é perfeita. O amor tudo vence.

Se essa é a convicção do cineasta ou não, é impossível saber. Também importa pouco. O espetáculo vale em si por sua sofisticação e empenho na condução de um processo existencial relevante e atualíssimo. Com exteriores e interiores deslumbrantes, além de interpretações excelentes e uma fotografia primorosa, o filme é pura magia que nos envolve e emociona, mas não deixa de dar o seu recado reflexivo.

* Miguel Pereira – Professor da PUC-Rio e crítico de cinema.