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Rio de Janeiro, 27 de julho de 2017


Crítica de Cinema

A juventude, os advogados e o fotógrafo no prêmio da CNBB

Miguel Pereira* - aplicativo

02/03/2014

 Divulgação

Os três documentários que foram escolhidos para o prêmio Margarida de Prata da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) têm em comum um olhar generoso sobre os homens e as crenças. Rio de fé (foto ao lado), de Carlos Diegues, anuncia a grande novidade da história recente em que o Papa Francisco representa o testemunho de si e um sopro de esperança para a humanidade. Sua doutrina envolvente e a dinâmica de uma mensagem para ser ouvida e praticada se conjugam com uma juventude vibrante, consciente e criativa, solidária e múltipla que o encontrou no Rio de Janeiro. O filme vai entrelaçando sentimentos de fé, histórias pessoais, vozes minoritárias, expressões da diversidade e de uma pluralidade raramente vistos no cinema. Sabiamente, Carlos Diegues deixou que o acontecimento tomasse conta da cena. Não julgou. Fica evidente a sua postura a favor de uma esperança que toca as duas pontas importantíssimas das sociedades modernas: a convivência e relação entre os jovens e os velhos. Há uma irmanação do septuagenário líder da Igreja Católica e os milhões de jovens comovidos que o seguiam na Jornada Mundial da Juventude e ainda o seguem. O discurso e a vida se juntaram nesse acontecimento único e exemplar. Carlos Diegues fez um filme que a cada visão torna-se mais atual. Ele captou o hoje como futuro.

Numa linha semelhante é o olhar para o passado que Silvio Tendler propõe em Por uma questão de justiça, os advogados contra a ditadura. Ao revelar a coragem e as artimanhas com que muitos advogados enfrentaram os poderes ditatoriais, coloca em evidência dois lados da mesma questão: a militância revolucionária e a luta por um estado de direito. Em campos complementares, advogados e militantes estavam também irmanados para a conquista dos mesmos valores. Com frequência, os papeis se misturavam e muitos pagaram caro por essa ousadia. O que Silvio Tendler nos mostra, são histórias pessoais que vibram pelos ideais conquistados. Sofrimento, astúcia e estratégias jurídicas foram articulados e elaborados para salvar prisioneiros da morte, no momento em que estavam sendo torturados. Essa personalização de uma luta comum é um momento belo e também de crença no ser humano e sua possibilidade de transformar a realidade atual para uma sociedade melhor.

Em comum com o ideário para um mundo mais justo e humano é Revelando Sebastião Salgado, documentário de Betse de Paula. Além da estética, o trabalho de Sebastião Salgado tem uma significação particular. Ressalta os valores do meio ambiente, da vida dos excluídos, dos dramas humanos mais radicais e de um planeta que resiste, apesar da voracidade de um desenvolvimento predador e inconsequente. Entendemos o sistema montado pelo artista, o trabalho de grupo e a formação de uma equipe solidária e propositiva, valores que são também incorporados à vida familiar como uma condição do existir. Um sensível retrato em cores e preto e branco de um dos mais talentosos fotógrafos da atualidade.

Além desses três prêmios, a CNBB também concedeu duas menções honrosas. A primeira foi para o longa-metragem Remoção, de Anderson Quack e Luiz Antonio Pilar, que trata de um tema urbano complexo, mas extrema atualidade. E a segunda para o curta Às claras, de Eduardo Lima Rodrigues, aluno do curso de cinema da PUC-Rio, que captou, com extrema sensibilidade e emoção a vida das irmãs clarissas em seu convento na Gávea, contrapondo a vida voluntariamente reclusa das religiosas com o mundo contemporâneo conectado. Novamente, a mistura de gerações deu tom. Artistas e personagens de idades diferentes em momentos exemplares de suas vidas.

Miguel Pereira – Professor da PUC-Rio e crítico de cinema.