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Rio de Janeiro, 23 de maio de 2017


Crítica de Cinema

'Gravidade': um olhar sobre o mito da criação

Miguel Pereira*

26/10/2013

 Divulgação

Com dois astros de primeira grandeza, Sandra Bullock e George Clooney, e com algumas contestações da área científica, Gravidade, do mexicano Alfonso Cuarón, se utiliza de algumas metáforas sobre o espaço profundo que nos envolve. A história narrada é mínima e bastante comum. Também os efeitos especiais, incluindo a terceira dimensão, embora apurados e competentes, não chegam a inovar. Mas o filme apresenta algumas inquietações que nos fazem pensar. A ficção científica tem sido um excelente instrumento para se refletir sobre o futuro da terra. Os melhores filmes do gênero, não importando muito o contexto em que foram realizados, contêm, quase sempre, duas linhas centrais que conduzem suas narrativas. A primeira diz respeito às ameaças dos outros mundos sobre o nosso. Essa linha foi veículo para metaforizar as disputas da Guerra Fria, entre outras interpretações. A outra, que tem em 2001: Uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick, a sua máxima expressão, nos propõe algumas questões sobre a existência no mundo. Gravidade se enquadra nessa segunda categoria. Embora com uma abordagem mais rala e um tanto convencional, o filme de Cuarón realiza, nas suas imagens, aquela metáfora que o filósofo esloveno, Slavoj Zizek, identifica como o “vazio” do espaço profundo.

Sem dúvida, a primeira imagem do filme é o vazio total, até que um astronauta aparece na cena. Essa conjugação do vazio com o artefato nos remete ao processo da criação, assim como a última sequência do filme em que a personagem central emerge das águas e se ergue no meio da areia para uma nova vida. Esses elementos indicam que o filme não é apenas mais uma produção mirabolante e comum. Certamente não chega a uma reflexão mais profunda da sua proposta metafórica, em alguns momentos, bastante simplificada e sem novidades. No entanto, diante das inúmeras produções apelativas que vem sendo realizadas com as facilidades tecnológicas de hoje, Gravidade se destaca pelo ritmo envolvente e uma postura emocional que agenciam a atenção do espectador durante todo o relato.

Assim, mesmo que a meio caminho de uma realização mais consistente do ponto de vista de sua abordagem cinematográfica, o filme de Alfonso Cuarón é atraente e merece a nossa atenção. Belas imagens, uma montagem, emocionalmente, bem dosada, além das boas interpretações do elenco e de uma música adequada ao clima das cenas são qualidades que dão a Gravidade um interesse adicional.

*Miguel Pereira é professor da PUC-Rio e crítico de cinema.