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Rio de Janeiro, 27 de julho de 2017


Crítica de Cinema

"Sobral Pinto, o homem que não tinha preço": reflexivo e atual

Miguel Pereira*

12/11/2013

 Divulgação

A narração, em off, que abre e fecha o documentário Sobral Pinto – O homem que não tinha preço, é da diretora Paula Fiúza, neta de Sobral. Esta presença da realizadora na cena leva o espectador para a atmosfera da intimidade de um personagem público de grande importância para a vida nacional. Aguça a curiosidade e nos propõe uma investigação facilitada pelos laços familiares. Claro, Paula teve acesso a relatos e materiais de pesquisa muito especiais, e, ao mesmo tempo, pretendeu um distanciamento que o processo fílmico lhe impunha.

Ao sair da cena e dar voz a outros atores, a documentarista buscou descortinar as duas dimensões da vida do avô: a pública e a privada. Essa visão dual produziu um sentido binário que às vezes se mistura, pois, as falas, na maioria das vezes, não separam essas facetas. Sobral Pinto aparece assim como arauto das liberdades e da justiça, coisa que, de fato, ele foi, e ao mesmo tempo como um ser de convicções religiosas e morais rígidas. Para contrabalançar esta segunda parte, Paula abre para nós espectadores um segredo que, dificilmente, viria a público fora do âmbito familiar. Aliás, o modo como a documentarista aborda esse lado mais pessoal é extremamente respeitoso e engrandece a personalidade do biografado. Afinal, como todo o ser humano, Sobral também cometeu seus deslizes.

Mas há uma terceira dimensão narrativa do filme caracterizada pelo garimpo das falas e imagens do próprio Sobral Pinto. Nela vemos o personagem na sua exposição mais completa. O que pensa, como pensa e como reage aos estímulos da vida pessoal e pública. Revela-se um homem de grande estatura moral e o filme traz o seu discurso para os dias que vivemos. O espectador realiza, naturalmente, essa operação que atualiza o testemunho. Em algumas cenas, com sua pastinha, muitas vezes empunhado o guarda-chuva e vestido quase sempre de preto, Sobral é uma figura chapliniana, principalmente, quando aparece de costas andando. Se essas poucas imagens foram colocadas por Paula no filme com essa intenção, importa pouco. O fato é que, como condutor das causas dos injustiçados, esse papel lhe cabe muito bem.

A grandeza do personagem está também no seu despojamento e na sua humildade. Não ambicionou posições, nem reconhecimentos além da medida. Um desses momentos foi quando recebeu o título de Doutor Honoris Causa da PUC-Rio, junto com Dom Helder Câmara, em 1991, fato não registrado pelo filme. Festejado com pompa e circunstância, Sobral, assim como Dom Helder, reagiu com sobriedade a essa justíssima homenagem. O documentário de sua neta nos fala de uma vida que se tornou exemplo para muitos juristas e pessoas comuns. É comovente o depoimento do advogado Modesto da Silveira, entre outras falas emotivas do filme. Sobral Pinto – O homem que não tinha preço é um documentário reflexivo e atualíssimo.

Miguel Pereira é professor da PUC-Rio e crítico de cinema.