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Rio de Janeiro, 27 de julho de 2017


Crítica de Cinema

"O gebo e a sombra": o grande minimalismo de Oliveira

Miguel Pereira* - aplicativo

15/04/2014

 Divulgação

Uma das grandezas do cinema de Manoel de Oliveira é o minimalismo de suas produções. É uma escolha consciente, ancorada na economia de recursos financeiros e numa estética muito particular de seu estilo narrativo. Ele abole todas as fronteiras espaciais e privilegia o conteúdo dos textos e das representações imagéticas da cultura universal. O espaço cênico é apenas o ambiente onde se desenrolam as ações dramáticas na forma aristotélica.  É esse o princípio do drama que o guia. Seus personagens se relacionam com um nível de intimidade que não se vê em outros cineastas. O apuro desse estilo está em plena forma em O gebo e a sombra, seu mais recente trabalho em exibição no Brasil.

De uma só vez, Manoel de Oliveira conseguiu reunir um elenco que interage como se todos fossem da mesma família e vizinhança há muitos anos. Claro, a história pedia isso. No entanto, o modo como agem entre si, na presença ou na ausência da cena, é de tal modo naturalista que um olhar apressado pode confundir com a expressão teatral. Os talentos reunidos nas cenas do filme são indiscutivelmente uma soma de talentos invejável. Michael Lonsdale, Claudia Cardinale, Jeanne Moreau, Leonor Silveira, Luis Miguel Cintra e Ricardo Trêpa pouco se deslocam no exíguo espaço de uma sala, a locação central do filme, mas explicitam gestos, falas e movimentos corpóreos precisos e significativos. A composição que resulta dessas ações minimalistas revela um apuro pictórico que espelha uma atmosfera pesada e opressiva do drama vivido pelos personagens.

Na realidade, o que está jogo, a partir da peça de Raul Brandão, é a tragédia de uma família que vive à sombra de um de seus membros. As imagens iniciais do filme mostram o jovem João como se estivesse à espera, no porto, para uma viagem cujo destino não se conhece. Em seguida, em imagens nitidamente expressionistas, a ação de um roubo na noite parece indicar que esse mesmo João seria o seu autor. O peso externo passa então para o interior da casa, e como se fosse uma Penélope à espera do seu Ulisses, a jovem mulher espreita pela janela uma possível chegada do marido viajante. A ela se junta a mãe do jovem e mais tarde o pai. É neste espaço interno que a tragédia vai sendo desenvolvida ao longo do filme, com poucas interferências de personagens que entram na mesma cena. Reflexos e verdadeiras composições pictóricas adensam o sentido que vai se aprofundando no enredo. Pais, vizinhos, esposa, filho e policiais são os únicos atores deste intenso conto moral sobre as relações familiares. Há ainda o dinheiro como elemento que acaba destruindo as relações dos mais íntimos.

O gebo e a sombra é um filme exemplar que reafirma um estilo narrativo singular e em constante busca de novas alternativas cinematográficas. O centenário Manoel de Oliveira, hoje com 105 anos de idade, está em pleno domínio de sua criatividade. A cada novo filme, e está empenhado em um novo projeto, o cineasta português nos surpreende com sua inesgotável invenção.

* Miguel Pereira é professor da PUC-Rio e crítico de cinema.