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Rio de Janeiro, 23 de setembro de 2017


Crítica de Cinema

"O estranho caso de Angélica": um testamento estético

Miguel Pereira*

26/11/2013

 Divulgação

O estranho caso de Angélica, de Manoel de Oliveira, se inicia com a última estrofe de um soneto de Antero de Quental que diz o seguinte: Ali, ó lírio dos celestes vales! Tendo seu fim, terão o seu começo, Para não mais findar, nossos amores. Esta epígrafe à obra faz todo o sentido quando chegamos ao final do filme. Aponta para um lugar onde o amor será eterno. Ao longo da narrativa, assistimos ao percurso de um fotógrafo apaixonado por uma bela e jovem morta de quem ele faz o último retrato. Esse inusitado caso, escrito e inventado por Manoel de Oliveira, em 1952, quando pensava transformá-lo num filme, talvez tenha ficado mais atual, realizado agora. Quando teve a ideia, era ele mesmo ainda um jovem de 44 anos. Ao completar as filmagens, realizadas em 2010, com direito à comemoração de seu aniversário no set, havia celebrado 102 anos de idade. Em 11 de dezembro próximo, fará, portanto, o seu centésimo quinto aniversário, com o desejo declarado de dirigir um novo filme, o média-metragem O velho do Restelo.

Ora, nos versos de Quental está o segredo da existência. Na arte, não importam o tempo e o espaço, o aqui e o agora. Vale a imaginação, a eternidade. Viver é imaginar, criar sempre, dar sentido ao mundo e a si. E o centro dessa curta passagem pela existência são os nossos amores. No filme, eles vão da observação inquieta de um espírito pesquisador que quer registrar o mundo aos próprios sentimentos colhidos no processo vital. Assim, Isaac, um sefardita errante, encarna essa figura que fala mais pelo seu silêncio do que pelas poucas palavras que profere durante todo o filme. Testemunha a si próprio, no mundo, e registra, com a sua câmera, o tempo e espaço vivido, nas imagens que contrastam com a modernidade das máquinas. Da varanda do quarto da pensão onde está hospedado, vê e depois registra a prática ancestral da limpeza da vinha em oposição ao movimento dos caminhões que passam na estrada.

Mais do que um simples oposição de elementos, Manoel de Oliveira se refere ao paradoxo da história humana, onde a ideia do progresso está associada às novas técnicas de exploração do mundo que, mais contemporaneamente, se mostram destruidoras do nosso ambiente físico e humano. A superação desse paradoxo está na inocência das crianças, na figura do mendigo que não produz, mas pede para sobreviver, e em outros personagens e situações que conduzem a atenção do espectador para o terreno da imaginação e uma elaboração pessoal. Mas, está também na liberdade de um passarinho que misteriosamente morre numa gaiola, assim como o próprio Isaac que se entrega ao amor eterno, em cenas de fantástico onirismo, que lembram o belo e famoso quadro Ophelia de John Everett Millais, no qual, certamente, o cineasta português se inspirou.

Manoel de Oliveira consegue assim transitar de uma narrativa lenta e reflexiva para o deleite das grandes pinturas inglesas que conjugam realismo com romantismo. O estranho caso de Angélica é assim um filme provocativo e ao mesmo tempo uma espécie de testamento estético de vitalidade que o centenário cineasta português nos deixa para pensarmos em que mundo, de fato, queremos viver.

Miguel Pereira é professor da PUC-Rio e critico de cinema.