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Rio de Janeiro, 23 de setembro de 2017


Crítica de Cinema

"Morro dos Prazeres": retrato sóbrio pós-UPP

Miguel Pereira* - aplicativo

18/12/2013

Crianças brincam de mocinho e bandido nas ruínas de um barraco do Morro dos Prazeres. A imagem é bela e ao mesmo tempo assustadora. Os restos de uma casa misturam-se aos vestígios de uma fabulação infantil trágica. São histórias e versões de um projeto de segurança do governo do estado do Rio de Janeiro, ainda em andamento e com consequências ignoradas, que o filme nos conta. Os resultados propalados pela imprensa não parecem condizer com vida cotidiana dos moradores das favelas ocupadas pelas UPPs. Morro dos Prazeres, da documentarista Maria Augusta Ramos, é uma investigação sóbria, mas sutilmente clara, sobre essa realidade, um ano depois da ocupação da favela pela polícia militar. Não são versões acabadas ou definitivas. São momentos de transição de um estado de coisas que nos deixam apreensivos. Não há dúvida que a forma selvagem e cruel do poder absoluto de vida ou de morte do tráfico de drogas está mitigado. Desse ponto de vista, pode-se imaginar que algo mudou nessas favelas. No entanto, um retorno sempre aparece, pois o comércio das drogas continua e os seus consumidores também. O problema é complexo e olhá-lo no calor dos acontecimentos é sempre um risco.

A documentarista adota um procedimento narrativo que tenta escapar às armadilhas de um princípio definidor. Os três atores centrais do relato – polícia, traficantes e moradores – falam o que percebem da situação e ao mesmo tempo a câmera se dirige para o contexto das ações que se realizam na favela. Ao proceder assim, assume as verdades parciais que aparecem ao longo da sua narrativa. Tira proveito da própria matéria documental para inserir a sua maneira de encarar esse conflito complexo. A neutralidade é apenas aparente. Uma montagem inteligente e o uso dos tempos dilatados de observação apontam para uma estratégia narrativa que nos leva à inquietação, sentimento que seguramente a autora viveu ao realizar o seu filme. Essa transposição do seu olhar para o nosso é a principal virtude do documentário de Maria Augusta Ramos. Não faz a pergunta explicita, mas ela está posta nos intervalos das imagens e sons. E é o que todos gostaríamos de saber: isso terá fim um dia? Há uma certa impotência nas possíveis respostas. Mas, por outro lado, a esperança de mudanças também está no relato de Maria Augusta, principalmente quando aparece uma nova geração limpa e desejosa de viver a felicidade e a autorrealização.

A noite que surge depois do magnífico prólogo das crianças brincando nas ruínas é quase a mesma que encerra, simbolicamente, o documentário. O filme não é um tratado acadêmico sobre as UPPs. É um olhar participante, sem paixões e excessos, que quer se esclarecer e compreender uma realidade que atinge a todos que vivemos aqui. É uma indagação que nos instiga a abandonarmos os preconceitos e buscarmos uma integração urbana e não uma distinção odiosa de uns sobre os outros. O que importa é o humano que nos liga a todos. Maria Augusta parece nos dizer exatamente isso. Não há solução isolada. Ela tem que envolver a todos.

* Miguel Pereira é prrofessor da PUC-Rio e crítico de cinema.