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Rio de Janeiro, 17 de agosto de 2017


Crítica de Cinema

"Lore": rito de passagem confrontado com o desumano

Miguel Pereira*

28/11/2013

Divulgação

O filme Lore, da australiana Cate Shortland, é um rito de iniciação à vida adulta de uma jovem em situação de risco na sua fuga para uma vida digna. A transposição do contexto em que a história nos é narrada – o final da Segunda Guerra Mundial – para o mundo contemporâneo não é fora de propósito. Os conflitos radicais continuam a existir e jovens são atingidas todos os dias, segundo as imagens e notícias que nos chegam pela imprensa. Um recente caso emblemático é o da jovem paquistanesa Yousafzai Malala, vítima de um atentado por defender a educação das mulheres, numa região dominada pelas milícias talibãs.

A personagem Lore luta por sua dignidade e da sua família. Nesse processo de discernimento pessoal, descobre que seu mundo caiu e a ideologia que sustentava a vida familiar, o nazismo, se mostra para ela monstruosa, incluindo o papel de seu adorado pai nesse processo. A cena do enterro simbólico do carrasco nazista, junto com o retrato do pai, que, na verdade, são a mesma pessoa, é uma espécie de fecho de um ciclo existencial em que o passado é revisto pelo presente. A jovem Lore torna-se adulta e consciente do bem e do mal que a cerca.

Dito assim, o filme se assemelha a um conto moral típico das passagens ritualísticas da vida. Não é por outro motivo que a fuga de Lore e seus irmãos tem, como travessia, a famosa Floresta Negra. Obstáculos e perigos são superados ao mesmo tempo em que o contexto do fim da guerra vai revelando os diferentes atores dessa tragédia. O filme pode ser entendido com uma fábula em que os passos da vida são acompanhados pelo amadurecimento de sua personagem. Uma sincera opção pela sobrevivência, aliada a um ambiente áspero e realista do jogo moral, político e ideológico tornam a narrativa complexa e um tanto dispersa. No entanto, em momento algum, esses fatores retiram o interesse do espectador. Ao contrário, provocam indagações e mesmo questionamentos sobre a presença do mal nas sociedades.

Ao mesmo tempo, a narrativa tem um tom de contemplação que anda ausente das telas de todo o mundo. Essa preocupação com a imagem bela, ao mesmo tempo realista e brutal, faz da narrativa de Cate Shortland uma exceção diante da grande maioria dos filmes atuais. Além disso, ao tocar num tema que ainda é tabu na nossa cultura, basta lembrar o recente Hanna Arendt, de Margathe von Trotta, nos coloca novamente sobre o julgamento da história que, a todo momento, nos implica. Repensar o passado é sempre oportuno como maneira de nos entendermos melhor hoje.

Cate Shortland teve a coragem de mexer com os símbolos do mal que nos cercam. A fórmula encontrada por ela traz para a vida atual o que do passado ainda persiste no que diz respeito à desumanização da existência. Ao afirmar a dignidade de Lore, magnificamente interpretada por Saskia Rosendahl, e sua trágica aventura, a cineasta australiana nos leva à reflexão do nosso próprio destino num mundo em rápidas transformações.

* Miguel Pereira é professor da PUC-Rio e crítico de cinema.