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Rio de Janeiro, 28 de abril de 2017


Crítica de Cinema

"Chico – Artista brasileiro": um filme pleno e encantador

Miguel Pereira* - aplicativo

08/12/2015

 Divulgação

Chico – Artista brasileiro, de Miguel Faria Jr., é um encanto de filme, na imagem, no som, nas falas, nos documentos e documentários, no pensamento e na reflexão. Por todos os lados que nossos olhos e ouvidos forem atraídos, uma beleza extasiante nos preenche. Como resistir à portuguesa Carminho, interpretando sola ou com Milton Nascimento, os versos e as melodias de Chico em parcerias com Tom Jobim e Edu Lobo. No canto solo, Carminho traz do fundo da sua alma portuguesa a intensidade nostálgica do fado e a poesia da natureza brasileira, presente na melodia e nos versos ecológicos da dupla Tom e Chico. No dueto com Milton, é a mística de um reino “sobre todas as coisas” que nos faz existir, cantado e celebrado num diálogo coeso e perfeito em sua execução por duas vozes benditas de tão poderosas que são. Dois momentos sublimes de um filme em que todos os nossos sentidos são despertados para o encantamento da vida. Como um filme musical, Miguel Faria Jr. repõe o passado e nos revela o presente, com novos talentos surpreendentes e canções do passado que nos enlevam, ao menos para aqueles que viveram os tempos da ditadura militar.

 DivulgaçãoSim, lá estão os episódios dos festivais de música dos anos 60, inclusive com a única fala da tímida e poderosa mãe de Chico, as passeatas, a prisão, a censura, o exílio, o cinema, enfim, momentos sofridos e de intensa criação, apesar de tudo. Também a intimidade afetiva e familiar se articula em vários blocos narrativos sem ser invasiva. Na realidade, Chico nunca foi um tímido, como se propalou na imprensa. Eu mesmo tive ocasião de entrevistá-lo, no lançamento do filme Quando o carnaval chegar, de Cacá Diegues, em 1973, para o complexo de comunicação das empresas Manchete, e Chico não apenas foi muito solícito como falou sem qualquer dificuldade. Aliás, Miguel Faria Jr. mostra o temperamento expansivo e social do artista, embora preze seus momentos de reflexão e trabalho solitário, principalmente na tardia e rigorosa criação literária, que vem se tornando um sucesso editorial mundial. Este bloco desperta um interesse especial dos espectadores, pelas revelações do livro O irmão alemão, que foi lançado antes do filme e se reveste de contornos novos e surpreendentes que só a imagem em movimento pode produzir. Também lá estão as peças de teatro e os filmes, com especial destaque para as parcerias com Ruy Guerra, num depoimento extremamente inteligente sobre o processo criativo de seu parceiro.

Cada sequência de Chico – Artista brasileiro é plena, e o conjunto é encantador. Preenche os nossos sentidos e nos faz pensar mais elasticamente sobre a nossa própria existência, hoje cada vez mais líquida e menos sólida. Miguel Faria Jr. não fez uma biografia de Chico Buarque de Hollanda. Realizou, sim, um filme-testemunho daquilo que Chico representa para a nossa identidade brasileira. Ficamos todos orgulhosos de nós.

* Miguel Pereira é professor da PUC-Rio e crítico de cinema.