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Rio de Janeiro, 20 de agosto de 2017


Ciência e Tecnologia

Vitória no Prêmio Santander reforça rumo da inovação

Tiago Coelho - Do Portal

27/02/2012

Arte: Jefferson Barcellos

A inovação tecnológica assume peso crescente na ambição de manter a economia brasileira entre as principais do mundo, em condições de competir com os países centrais e com os emergentes China e Índia. "Mas um produto só será inovador se houver condições de colocá-lo no mercado", ressalva o professor Ricardo Tanscheit, do Departamento de Engenharia Elétrica da PUC-Rio. A aplicação deste princípio, rendeu a Tanscheit, também coordenador central de Orçamento da universidade, o Prêmio Santander Universidades 2011, na categoria Ciência e Inovação. A equipe do professor desenvolveu o software de “confiabilidade humana” voltado à redução de erros em processos industriais.

Ao tornar tais operações mais seguras e eficientes, a novidade representa um dos principais caminhos para aproximar a inovação tecnológica brasileira da elite mundial: o compasso entre a academia e o mercado. Pois, como reforça Tanscheit, a capacidade inovadora deve estar afinada com as demandas econômicas e sociais.

– Um produto só é efetivamente inovador se a empresa pode introduzi-lo no mercado. Não adianta dizer que tem um projeto inovador se ele ficar guardado em uma gaveta – reitera o professor. (Veja, no quadro abaixo deste texto, a entrevista de Ricardo Tanscheit sobre o projeto premiado.)

Iniciativas como a do programa de "confiabilidade" contribuem para reduzir a (ainda longa) distância até o topo da produção inovadora. Segundo a Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec), do IBGE, apenas 4% das empresas que participaram do levantamento, consideradas "inovadoras em potencial" promovem inovações científicas, “copiando” para o mercado interno a tecnologia de outros países. Só  0,3% inova para exportar.

A área de software, pelos custos relativamente menores, é uma das mais promissoras no campo da inovação, destaca a pesquisadora do Departamento de Engenharia Elétrica da PUC-Rio Dilza Szwarcman. Ela coordenou, com Tanscheit, a equipe do projeto vencedor do Prêmio Santander Universitário 2011, chamado de “Sistema de caracterização da confiabilidade humana nas atividades industriais de operação, manutenção e inspeção".  

– Esta é uma das áreas mais competitivas do Brasil no campo da inovação tecnológica.  Os recursos são poucos, o que facilita o desenvolvimento deste tipo de projeto – analisa Dilza.

Tanscheit aposta no potencial inovador do software para que seja adotado pela iniciativa privada. O professor ressalta que a participação de empresas como a Petrobras e da companhia de linhas de transmissão State Grid no projeto aponta o estreitamento entre universidades e empresas como uma das possibilidades de se avançar nos empreendimentos inovadores.

– Não há, aparentemente, ninguém no mercado fazendo o tratamento nesta área de confiabilidade humana da maneira que estamos fazendo aqui, centrada na análise do comportamento do ser humano – afirma Tanscheit.

A coordenadora executiva do Escritório de Negócios em Propriedade Intelectual da PUC-Rio, Shirley Virginia, observa que a universidade é "muito respeitada" no desenvolvimento de softwares como o forte da universidade. Ela lembra, por exemplo, o êxito do Ginga, programa que gerencia funções de interatividade na televisão digital, desenvolvido em parceria entre a PUC-Rio e a Universidade Federal da Paraíba. Segundo a professora, também são "muito bem reconhecidas" pesquisas do Departamento de Engenharia Civil na área da geotécnica, tanto para contenção de encostas quanto para a perfuração de rochas petrolíferas, e projetos do premiado setor de robótica. O sucesso dessas iniciativas indica, ainda conforme Shirley, a importância das empresas incubadoras como "diferencial da PUC":

– A robótica já tem patentes protegidas que poderão ser aplicadas na área da saúde, pois habilitam pessoas com restrições motoras por meio da interface pensamento-máquina. Essa inovação dará mobilidade e uma melhor qualidade de vida para pessoas com necessidades especiais. A robótica da PUC-Rio é uma área extremamente promissora. Os prêmios que a robótica e as outras áreas recebem são de grande importância para dar visibilidade à universidade.

 Ligia Lopes

Shirley reconhece os esforços do governo brasileiro em incentivar a inovação no ambiente produtivo, sobretudo a partir da Lei de Inovação Tecnológica de 2004 – criada para estimular ambientes especializados e cooperativos de inovação, como o Núcleos de Inovação Tecnológica (NIT) nas universidades. Mas pondera que é preciso "despertar" o empresariado nacional para a necessidade de inovar e enfrentar a concorrência externa:

– Os empresários brasileiros, provavelmente, por resquícios do longo período de inflação alta e do mercado fechado, com as empresas protegidas, não viam a necessidade de inovar. Porém, com a abertura do mercado, há um risco de desindustrialização do país porque os produtos chineses e sul-coreanos estão invadindo o mercado com muita inovação. E o consumidor está livre para optar por um produto com preços mais baixos. O Brasil enfrenta um grave problema de concorrência – alerta.

De acordo com a professora, é igualmente importante o estímulo à expansão de acadêmicos e profissionais voltados à inovação tecnológica:

– Na China 35% das pessoas formadas em universidades saem da engenharia, de áreas tecnológicas. Nos EUA, o volume é de 15%, No Brasil, está em torno de 10% – compara – Portanto, competir com estes países é muito difícil.  Na Coreia do Sul, as crianças começam a aprender sobre inovação na escola primária.

Para o professor do Departamento de Engenharia de Produção da USP Mario Sergio Salermo, coordenador do Laboratório de Gestão da Inovação, percebe um "movimento positivo das empresas em busca de soluções inovadoras". Ele adverte, no entanto, que "há a evoluir para que as empresas brasileiras não sejam esmagadas pelo setor produtivo internacional":

 – O Brasil está sendo esmagado, por um lado, por países como a China, com manufatura muito mais barata e que investem em inovação tecnológica e avançam a indústria para patamares mais elevados de valores agregados. E, por outro lado, pelas empresas de países altamente industrializados e competitivos como a Alemanha, que buscam reduzir custos com terceirização, abertura de fabricas em países com mão de obra mais barata etc. É como se fosse um sanduiche, e o Brasil estivesse no meio entre os países centrais e os países emergentes. Se a indústria no Brasil não se mexer, será comprimida.

Em entrevista ao Portal PUC-Rio, os coordenadores do projeto vitorioso do Prêmio Santander Universidades 2011, Ricardo Tanscheit e Dilza Szwarcman, explicam o software que avalia o comportamento humano e justificam a importância desse tipo de reconhecimento:

Portal PUC-Rio Digital: Em que consiste o projeto vencedor do Prêmio Santander Universidades 2011?

Ricardo Tanscheit: É um projeto na área de confiabilidade que visa minimizar erros humanos em processos industriais, em diferentes tipos de indústria. Permite avaliar que tipo de profissional é mais adequado para determinado tipo de tarefa. Uma pessoa, por exemplo, que lida melhor com tarefas repetitivas. Em alguns casos, fazemos, inclusive, o uso de psicólogos. É um trabalho multidisciplinar.

Dilza Szwarcman: O sistema visa dar um perfil à confiabilidade do trabalho humano nos diversos processos de uma empresa. O software dá um apoio para melhorar a confiabilidade humana. O sistema permite avaliar, por exemplo, o turno que a pessoa pode trabalhar melhor. Há pessoas que apresentam melhor desempenho trabalhando no turno da manhã, outras no turno da noite. O sistema permite avaliar este tipo de coisa.

Portal: Há o interesse de vender o projeto para empresas?

Dilza: Há, sim, interesse em vender o projeto, porque é realmente inovador.

Tanscheit: O mercado está aquecido. Agregar pessoas de alto nível de operação custa caro. Então, estamos aprimorando o projeto aos poucos, antes de oferecermos às empresas.

Portal: Qual a principal importância de um prêmio como este?

Tanscheit: O prêmio tem um reconhecimento nacional. Proporciona visibilidade, reconhecimento para a instituição. É importante que a instituição seja divulgada. Acaba sendo importante para todo mundo.

Dilza: O prêmio abre oportunidades também para os estudantes que atuam nesta área de pesquisa. Não é só uma repercussão externa, mas interna também. Incentiva os alunos. Este já é o quinto prêmio que ganhamos.