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Rio de Janeiro, 25 de maio de 2017


Ciência e Tecnologia

Qualidade faz diferença em pesquisas de campo

Mariana Totino - aplicativo - Do Portal

12/08/2013

 Mariana Totino

Sociedades consideradas “exóticas”, primitivas ou isoladas deixaram de ser o principal assunto das pesquisas em ciências sociais, que passaram a privilegiar o estudo de grupos localizados na cidade e a presença do pesquisador em campo. Tais características influenciaram a criação de novos métodos de pesquisa em diversas áreas, sobre temas que vão desde saúde mental até comunicação e educação. Os métodos qualitativos de pesquisa se baseiam em entrevistas presenciais e/ou online, indo além de estatísticas obtidas com a aplicação de questionários. É sobre este método e seu caráter interdisciplinar o livro Qualidade faz diferença: métodos qualitativos para a pesquisa em psicologia e áreas afins (Editora PUC-Rio), que será lançado nesta quarta-feira, 14, às 19h, na Livraria Timbre, do Shopping da Gávea. Organizado pelas professoras de psicologia Ana Maria Nicolaci e Daniela Romão Dias, o livro reúne uma seleção de artigos de profissionais de áreas como psiquiatria, pedagogia e antropologia, além de mostrar novas aplicações destes métodos de estudo das relações interpessoais em novos ambientes como a internet.

Apesar de ter como objetivo fornecer aos graduandos uma bibliografia sobre as aplicações atuais e a história do método, segundo Daniela o assunto interessa não só a alunos de graduação ou profissionais de psicologia, mas de qualquer área que inclua aspectos mais subjetivos. Esta funcionalidade múltipla é justificada pela própria natureza da pesquisa qualitativa, que nasceu com um viés experimental, sob a influência da etnografia das ciências sociais. 

As pesquisas qualitativas exigem uma dedicação maior do pesquisador e resultam num trabalho quase “artesanal”, de observação prolongada, mas nem sempre são as mais indicadas. Métodos que podem ser considerados mais simples, ao apresentar dados como porcentagens e estatísticas captadas pela aplicação de questionários, podem ser os mais eficazes.

 Mariana Totino  — O que é subjetivo, impalpável, tal como desejos, intenções, motivações, medo e ansiedade, é melhor analisado no campo da pesquisa qualitativa, onde o pesquisador busca significações em um meio heterogêneo, de acordo com aspectos mais fluidos. Quando se trata de comportamento, a análise quantitativa é mais indicada. A escolha do método vai depender do objetivo do pesquisador. Há diversas possibilidades — ressalta Daniela.

Especialista em impactos psicológicos produzidos pelas tecnologias digitais, Ana Maria, desenvolveu o Método de Explicitação do Discurso Subjacente (MEDS), um dos métodos apresentados no livro, que envolve o delineamento do objetivo; a transcrição de entrevistas mais informais realizadas face a face e/ou online; e análise das entrevistas, momento em que o pesquisador tem liberdade para destacar algumas impressões e recorrências, identificando, desta forma, o que pode ser fruto de uma construção social.

Novos ambientes, novas regras e novas qualidades de relações

Embora este tipo de método, que considera fundamental a capacidade de escuta e de observação particular de cada caso, seja o mais utilizado no meio acadêmico, Daniela ressalta que há pouca bibliografia sobre a história da introdução destes métodos na área da psicologia, principalmente no Brasil, entre as décadas de 60 e 70. A ideia do livro veio da constatação de Ana Maria, uma das pioneiras no estudo de tecnologia e subjetividade; e de Daniela, que também pesquisa o tema há 15 anos e leciona disciplina Cotidiano Digital, de que a internet é cada vez mais estudada pelo campo qualitativo, como um ambiente que inspira novas relações.

Nesse sentido, Daniela destaca os artigos “Compartilhando vidas on-line: a pesquisa biográfica através da internet”, da doutora em psicologia pela PUC-Rio Mariana Santiago de Matos Silva; e “Netnografia: compreendendo o sujeito nas redes sociais”, da jornalista, pós-doutorada em Ciências Sociais Aplicadas e professora de comunicação da PUC-Rio, Adriana Braga. O termo “netnografia”, utilizado pela primeira vez em 1995, nos Estados Unidos, considera as relações e grupos estabelecidos ou afetados pela internet.

Para fazer uma pesquisa aprofundada sobre relações e vínculos estabelecidos pelas pessoas ao utilizarem a internet é preciso lidar com novos desafios e peculiaridades. A tecnologia deve ser encarada como um facilitador da pesquisa, mas não deve ser a única ferramenta. Adriana Braga explica que o contato presencial com o entrevistado é indispensável, embora as entrevistas (mais de uma, com o mesmo entrevistado) possam também ser feitas pela própria rede, por meio de vídeo chamadas por Skype, para que detalhes fundamentais como o constrangimento diante de certos assuntos, as escolhas de linguagem, pelas quais podem ser explicitados aspectos fundamentais como a escolaridade do entrevistado e a forma como ele resolveu se apresentar para a entrevista, não sejam perdidos:

— As pessoas se apresentam tentando gerenciar informações a seu respeito, para causar uma boa impressão. Na internet isso muda, pois já encontramos vários meios para causar impressão do que a gente é. Não é que haja fingimento. É para dar legitimidade. Não basta, por exemplo, ser professor tem que parecer ser um professor.

Ela afirma ainda que, apesar de alterar práticas sociais, a internet sempre será subordinada às necessidades subjetivas de cada usuário. Para pertencer a um grupo e estabelecer uma comunicação eficaz no ambiente digital é preciso entender a linguagem e as práticas deste grupo. Em seu trabalho, Adriana cita o termo “netetiqueta”, mas as regras ainda estão sendo definidas:

 Arquivo Portal — Ainda estamos aprendendo a lidar com ações que refletem em consequências reais, com constrangimentos como enviar uma mensagem para o destinatário errado. Aplicamos e adaptamos para a internet, na tentativa e erro, protocolos de ambientes tradicionais. O grande diferencial é que a internet pede um poder horizontal. Existem hierarquias, sim, mas as relações são permeadas muito mais por um imperativo da amizade. As regras estão sendo criadas e indivíduos, empresas, instituições estão aprendendo a lidar com isso. A internet altera práticas, mas não altera a sociedade. Somos socialmente competentes para gerir isso — afirma Adriana, que estuda as redes sociais desde os anos 90.

Daniela conta que, quando é procurada para dar entrevistas sobre a “geração que aperta botão e acha que está tudo resolvido, ou que fica só no sofá”, tenta mudar de assunto, pois discorda deste rótulo, que trata-se um “julgamento de uma geração anterior quem não sabe o que está acontecendo e que os jovens acabam acreditando nesse discurso, quando falam mal da geração deles”. A internet pode, sim, criar relações, vínculos de qualidade, e a crítica estaria voltada para a diminuição do tempo livre que poderia ser utilizado para se refletir sobre suas vidas, não para a já antiga crença de que as pessoas se encontrariam menos com a internet:

— Eu não paro de me comunicar com as pessoas e tenho muito mais compromissos sociais. Por outro lado, sobra menos tempo para descansar, fazer nada ou assistir a um filme com a família. Falo para mudarem de assunto quando falam de viciados em internet, pois para ser uma patologia tem que estar nas porcentagens mínimas, senão é um hábito. A relação de amizade pode ser tão superficial na internet quanto fora dela. Não é o fato de estarmos no ambiente que vai garantir a solidez da relação, outras coisas envolvidas. A qualidade não tem a ver com o ambiente — pontua Daniela.