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Rio de Janeiro, 24 de março de 2017


Ciência e Tecnologia

Pesquisador explica nova teoria sobre origem da vida

Thaís Bisinoto - Do Portal

11/08/2011

 Arte: Eduardo de Holanda

“Não vejo conflito entre religião e ciência”, afirma o coordenador de pesquisas, desenvolvidas em laboratórios da PUC-Rio, que associam a origem da vida na Terra à interação dos raios cósmicos com cometas. Fragmentos desses corpos celestes teriam chegado ao planeta como "mudas" para organismos vivos. Para o professor do Departamento de Física Enio Frota, a teoria desses “tijolos da vida” não representa um conflito com principios religiosos. "São dimensões distintas", justifica. Em entrevista ao Portal, o físico conta os bastidores dos novos estudos, apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Ele também antecipa implicações desses experimentos que serão apresentadas, a partir da próxima segunda-feira, no primeiro workshop da série The Evolving Universe, na universidade e no Planetário. A iniciativa é organizada em parceria com  a astrônoma brasileira Duília de Mello, professora da Catholic University of America, em Washington (EUA), e pesquisadora associada da NASA Goddard Space Flight Center.

Portal PUC-Rio Digital: Seus estudos impõem questionamentos sobre a origem da vida. Isso representa, para o senhor, um conflito entre religião e ciência?

Enio Frota: Não, de forma alguma. Eu vejo ciência e religião de forma paralela, como duas dimensões distintas. O fato de eu estudar como se deu o início da vida não vai de encontro à minha crença como católico. Se pararmos para pensar, na história de Adão e Eva está representado o princípio da genética, o DNA. Além disso, nós, físicos, trabalhamos com as regras da física. Mas, quem criou essas regras? Com certeza não foram os homens. Acredito que tenha sido Deus.

Portal: Os estudos associam a origem da vida na Terra a raios cósmicos. O senhor pode explicar melhor essa teoria?

Frota: Estou estudando como se dá a passagem das moléculas inorgânicas para as orgânicas. Estas não são propriamente vida, e, sim, tijolos com os quais se chegou à vida. Descobri que os agentes responsáveis pela realização dessa reação são os raios cósmicos. Sem eles, ela provavelmente não ocorreria, pois o universo é gélido e as reações químicas não ocorrem a baixas temperaturas.

Portal: O que as novas descobertas representam para o conhecimento que temos de vida?

 Divulgação</b><b> 

Frota: Se os raios cósmicos estão bombardeando cometas, conclui-se que algumas reações químicas estão sendo feitas em todo lugar. Essa teoria aumenta as chances de que estejamos menos sozinhos no universo, porque indica que a forma como a vida começou pode ser muito mais comum do que imaginávamos.

Portal: E como podemos nos beneficiar dessa teoria?

Frota: Em princípio, de nenhuma forma específica, pois ainda está no plano dos estudos. Não há nada concreto ainda. Porém, já serve para saciar, em partes, a curiosidade que o ser humano tem de responder questões como “de onde viemos?”, próprias de sociedades desenvolvidas. Hoje, temos tempo para colocar essas questões filosóficas (lembrando que esse “hoje” não precisa ser “o dia de hoje”, literalmente, mas desde os gregos). Também se beneficiam dos estudos a PUC e seus alunos, com a aquisição de equipamentos, e o Brasil, pois ganhou know-how em várias áreas, além de reconhecimento internacional.

Portal: Como a PUC-Rio se insere nesse contexto?

Frota: Na universidade, nós fazemos experiência, montamos equipamentos – parte deles é feita aqui. Um laboratório ficou em montagem durante dois anos, com muita gente envolvida, muito trabalho, investimento, parcerias com FAPERJ, CNPq...

Portal: Pesquisas do gênero demandam grandes investimentos em todo o mundo. Qual o motivo de tanto interesse?

Frota: Quer se entender o Big Bang (a "explosão" a partir da qual o universo nasceu). Quer se reproduzir as histórias daquela época. É interessante pensar, também, que a invenção da internet foi feita em laboratório. No caso, o Cern, na Suíça. O objetivo dos cientistas não era fazer a rede mundial. Aquilo representava uma ferramenta para seus experimentos, mas acabou mudando a comunicação terrestre. Então, é nesse aspecto que esses grandes investimentos e essas grandes perguntas beneficiam os seres humanos.