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Rio de Janeiro, 26 de março de 2017


Ciência e Tecnologia

Conectados: medo e prazer de ficar de fora na era digital

Gisele Ferreira - aplicativo - Do Portal

16/09/2014

 Arte: Davi Raposo

Nas últimas férias de verão, a escritora Thais Godinho, autora do blog Vida Organizada e do livro de mesmo nome, resolveu dar um tempo no excesso de informações causado pelos meios de comunicação digitais e passar uma semana sem utilizá-los. Nesse período, parou de checar e-mail, Instagram, Twitter, e deixou sem resposta 87 mensagens em sua caixa de entrada do Facebook, conforme contou em um post feito em seu blog sobre sua experiência.

– Este tempo desconectada me mostrou que as pessoas são muito apegadas às redes sociais. Existe uma pressão para que as mensagens sejam lidas e respondidas imediatamente. Desde então eu não faço mais isso, e raramente consigo responder mensagens, especialmente no Facebook – conta a escritora (foto). 

 Arquivo pessoal Thais Godinho Essa sensação de exclusão digital é conhecida como Fomo (fear of missing out), ou “medo de ficar de fora”. O termo, cunhado pela primeira vez nos anos 1990 pelo pesquisador e consultor israelense Dan Herman, nada mais é do que a já conhecida ansiedade, agora em uma nova roupagem com o advento das redes sociais.

A Nave (Núcleo Avançado em Educação), escola que visa capacitar estudantes para profissões na área digital, em 2009 foi eleita pela Microsoft como uma das 30 escolas mais inovadoras do mundo. E foi lá que o professor Winston Sacramento pôs em prática o projeto 7 dias sem web.

– A lógica era formar um grupo com estudantes voluntários dispostos a ficar sete dias sem qualquer relação direta com redes sociais, sites, portais e e-mail. Após formar o grupo cada um dos participantes faz anotações diárias sobre sua rotina sem web. Enquanto isso, outro grupo de estudantes que não participa da experiência fica responsável por recolher diariamente esses registros e publicar na revista eletrônica da escola produzida pelos estudantes. Ao fim dos sete dias, os participantes se reúnem para trocar experiências sobre tudo o que aconteceu durante o trabalho.

Em seu primeiro romance, A festa é minha e eu choro se eu quiser, Maria Clara Drummond aborda, através do personagem Davi, as aflições da geração Y, e diz que as pessoas postam todos os passos nas redes sociais devido à ansiedade e à necessidade de serem amadas.

 – As pessoas desaprenderam a ficar paradas ou sozinhas. Sinto que há uma tendência a confundir afeto com feedback em forma de likes, o que gera uma angustiante escravidão – explica a autora.

Em contraponto, o Jomo (joy of missing out), ou “alegria em ficar de fora”, ocorre quando a pessoa consegue filtrar o que consome na internet e aproveitar o momento em vez de se preocupar com o que os outros estão fazendo. Seja através do amadurecimento ou da mudança de pensamento, o “prazer de perder alguma coisa” acaba aparecendo como um efeito colateral da exaustão do uso das redes sociais.

 Arquivo Portal Pesquisadora de interações digitais, a professora do Departamento de Comunicação da PUC-Rio Adriana Braga alerta que é necessário perceber o limite entre o saudável e o patológico:

– Quando a pessoa começa a comprometer outras atividades da sua vida, como um emprego ou suas relações familiares e sociais, é um sinal de que essa prática pode ter se tornado um vício.

De acordo com Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 50,1% dos brasileiros estão conectados à internet. Outro estudo feito pela Conecta, empresa de pesquisas on-line, indica que 89% dos internautas estão continuamente conectados ao Facebook, 87% ao WhatsApp, 80% aos e-mails e 63% ao Instagram. Esses dados apenas confirmam o fenômeno que há alguns anos está atingindo grande parte dos internautas.

Apesar de considerar o Instagram um ócio negativo, que gera competitividade e frustração, Maria Clara defende que o Facebook não é apenas um foco de distração.

– Faço parte de vários grupos de discussão no Facebook, estou sempre lendo artigos sobre atualidades. E acho que a ferramenta serve para difundir informação.

Para a escritora, a transição de Fomo para o Jomo está ligada ao amadurecimento pessoal.

– Tenho a impressão que a transição de Fomo para Jomo está ligada a amadurecimento pessoal. Não acho que a próxima geração vai pular o Fomo e ir direto para o Jomo, até porque o Fomo é um sintoma tipicamente adolescente e é normal passarmos por essa fase meio boba – afirma a escritora.

 Já a blogueira do Vida Organizada acha que esses fenômenos podem ser considerados uma característica da geração Y.

– O fato é que o mundo foi pego de surpresa, e não está sabendo lidar com isso direito. Aos poucos, creio que as pessoas consigam estabelecer filtros. Encontrar essa solução se tornará uma necessidade – explica Thais.

Adriana Braga acredita que o “medo de perder alguma coisa” é uma condição que varia caso a caso.

 – As pessoas mais ansiosas e populares acabam utilizando as redes sociais de uma maneira mais compulsiva. Já as mais tímidas, discretas e que não são tão ansiosas em relação ao social vão fazer uso das mesmas tecnologias com mais consciência.

A psicóloga e professora da PUC-Rio Rosália Duarte acha que a transição entre os fenômenos está ligada ao aprendizado e que a sociedade ainda está aprendendo a utilizar as redes sociais. Para ela, o uso excessivo dos meios virtuais é uma questão de autoafirmação:

 – Hoje há uma forte imposição de felicidade, principalmente em relação aos jovens. É perceptível um padrão de felicidade já estabelecido. Ser feliz hoje é ter a roupa, o tênis, um namorado, a mídia da moda.

Segundo pesquisa realizada na Universidade de Queensland pela doutora em filosofia Stephanie Tobin, na Austrália, as redes sociais podem contribuir para a depressão. No estudo, indicadores afirmam que a sensação de invisibilidade causada pela ausência de reações às postagens em páginas como o Facebook pode gerar efeitos prejudiciais aos usuários.

Rosália diz que os sintomas depressivos podem ser resultado de um padrão imposto pela sociedade que dita o que vestir, comer, aonde ir, o que se deve ou não gostar. De acordo com a psicóloga, esse é o século da depressão, e as redes sociais podem estar contribuindo negativamente para a doença.

Mas a professora Adriana Braga também afirma que as pessoas têm um termômetro próprio que em algum momento detecta o uso excessivo dessas práticas.

– Ao entender melhor o funcionamento do uso das redes, as pessoas tendem a diminuir o ritmo e a ter uma rotina mais saudável.