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Rio de Janeiro, 23 de agosto de 2017


Cidade

Trânsito e desinformação dificultam socorro a vítimas

Claudiane Costa - aplicativo - Do Portal

06/11/2014

 Viviane Vieira

Capital com um dos piores trânsitos do mundo, uma frota de 1.824.803 carros e obras por toda parte, o Rio enfrenta um problema de saúde pública derivado dos engarrafamentos e buzinas que se banalizaram na cidade: ambulâncias levam até três vezes mais tempo que o adequado para o atendimento de emergências, o que em alguns casos representa o risco de morte ou complicações no estado de saúde das vítimas.

– Com o trânsito como está, um trajeto de 10 minutos demora 20 minutos, o dobro. E dois minutos é muito tempo para quem está deitado no asfalto precisando de ajuda. Pode ser fatal – diz o socorrista Diego, de 30 anos, que trabalha na Zona Sul e indica o entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas e a Avenida Niemeyer como os piores trechos: – No horário de rush, o deslocamento é quase impossível. Quando somos acionados para ir à Zona Norte, por exemplo, é um transtorno enorme – conta o motorista.

Para tentar driblar o trânsito da cidade –, agravado por motoristas que ignoram a sirene ou demoram a abrir caminho –, o Corpo de Bombeiros reforçou os serviços de combate a salvamentos, primeiros-socorros e incêndios com o apoio de motociclistas. Desde setembro, bombeiros que atuam sobre duas rodas contam com cinco desencarceradores, uma espécie de alicate gigante usado para retirar vítimas das ferragens dos veículos. Ainda que não resgatem a vítima, possível apenas pela ambulância, os motociclistas oferecem maior agilidade ao atendimento, pois efetuam os primeiros socorros, preparam a vitima para ser removida e ajudam numa liberação mais rápida do trânsito. Segundo o comandante de Destacamento de Motocicletas do Corpo de Bombeiro, major Luís Henrique de Carvalho, em média, o motociclista chega ao local quatro minutos após o chamado, enquanto a viatura demora 15 minutos. A meta é triplicar o número de soldados habilitados até abril de 2015, passando de 25 para 75, com um curso de formação de 440 horas (veja o vídeo de treinamento).

Segundo a médica Raquel Piava Ribeiro, que atua como emergencista desde 2003, o rápido atendimento pode ser decisivo: “Não existe pouco tempo quando o assunto é saúde. O tempo é vital mesmo para aquele indivíduo aparentemente sem complicações”.

Se for para salvar uma vítima nós avançamos o sinal, subimos na calçada ou até pegamos a contramão. Já desci da ambulância e parei a outra rua para que ela pudesse passar no sinal fechado – conta o socorrista.

A médica explica que uma parada cardíaca de cinco minutos num idoso de 90 anos tem muito menos chance de reversão do que uma de 20 num jovem de 25 anos.

Arquivo pessoal– A educação na saúde é algo peculiar: se não é com você ou com os seus, por que deixar uma ambulância passar na frente? Comentam: “Ah, não tem ninguém na ambulância!”. E se estiver indo atender aquele velhinho dos cinco minutos de parada cardíaca? E se este motorista apressadinho bate por causa desta pressa? É a ambulância da qual ele desdenhou que obrigatoriamente terá que parar para atendê-lo.

O major Carvalho destaca questões culturais e estruturais como pontos principais na dificuldade de deslocamento das ambulâncias:

– O brasileiro quer se dá bem a qualquer custo, independentemente das consequências. E a estrutura da cidade, por sua vez, não ajuda. O Rio não é uma cidade planejada, e os veículos precisam se adaptar a algumas vias da cidade, como na Ponte Rio-Niterói.

Artigo 29, VII do Código de Trânsito Brasileiro (CTB)

“Veículos destinados a socorro de incêndio e salvamento, os de polícia, os de fiscalização e operação de trânsito e as ambulâncias, além de prioridade de trânsito, gozam de livre circulação, estacionamento e parada quando em serviço de urgência (...). Todos os condutores devem deixar livre a passagem pela faixa da esquerda, indo para a direita da via e parando, se necessário. O pedestre, ao ouvir o alarme sonoro deve aguardar no passeio, só atravessando a via quando o veículo já tiver passado pelo local”.

A médica lembra que o risco de acidentes é multiplicado em ambulância, ocorrendo mortes de pacientes e mesmo de equipes inteiras:

– Sofri uma capotagem há sete anos e já fui lançada contra a porta traseira da ambulância. Ano passado, tive fratura de parte de uma vértebra da coluna torácica. A capotagem ocorreu quando estava indo para atendimento, graças a Deus não tinha paciente na ambulância e toda a equipe estava sentada na frente. A parte traseira ficou destruída – relata a médica.

Viviane VieiraDiego diz que perdeu a conta das vezes em que foi xingado por forçar ultrapassagens ou fazer manobras arriscadas. Mas nada, entre as diversas situações que passou em seis anos na corporação, comparado ao dia em que foi surpreendido por um homem armado:

– O sinal estava vermelho e a sirene ligada porque estava com uma vítima grave. A viatura estava atrás de um carro, e bastava ao motorista da frente apenas chegar o carro um pouco para o lado, nem precisava avançar o sinal. O sujeito desceu, foi até a porta da viatura e disse que não iria avançar por causa do radar. Expliquei que não era necessário e que o caso da vítima era grave. Parei num guarda de trânsito mais à frente e passei a placa do carro. Na volta perguntei se o conseguiu parar e ele me pediu desculpas porque era seu colega de farda.

Entre os profissionais do trânsito existentes, o técnico de enfermagem elege o taxista como o maior vilão: “É o profissional que não abre caminho para ninguém, nem ao ouvir sirene de ambulância”. Diego também reclama dos agentes da CET-Rio: “Mais “parecem estar fazendo figuração no trânsito, pois nada fazem para dar passagem”.

Para a médica, a conscientização dos motoristas virá pela necessidade, quando passarem ou tiverem alguém importante passando por essa experiência. Ela menciona a campanha veiculada recentemente, em que pessoas fora da área de saúde acompanhavam atendimentos a vítimas de acidentes automobilísticos. “É chocante, mas eficaz. É preciso algo firme, pois comportamento é difícil de ser mudado”.

Autoescola: o ensino tardio

O artigo 76 do Código de Trânsito Brasileiro determina “a adoção, em todos os níveis de ensino, de um currículo interdisciplinar com conteúdo programático sobre segurança de trânsito”. Porém, na prática, a maioria dos jovens só terá contato com este conteúdo nas aulas teóricas obrigatórias em autoescolas. Na Auto Escola Duarte, na Gávea, os alunos têm quatro aulas de 50 minutos sobre “noções de primeiros-socorros”, aprendendo a se comportar diante de um veículo de emergência na pista e a diferenciar os primeiros sintomas de mal súbito. A Tecnodata, empresa especializada em material didático para autoescola, produz conteúdos em vídeo, além dos disponíveis na internet.

Veja o vídeo da reação de motoristas alemães à passagem de uma ambulância.

– Não há interesse dos alunos em entender, por exemplo, o sintoma de infarto, de AVC (Acidente Vascular Cerebral) ou de pressão baixa. A maioria está preocupada em saber a senha do wi-fi – conta o instrutor teórico e prático da autoescola, Juscelino Baptista.

 Reprodução Youtube Baptista lembra que os carros de emergência em serviço não têm preferência, e sim prioridade. O problema, acrescenta, é saber se realmente estão em serviço ou apenas se beneficiando dessa prioridade: “Deveria haver um órgão que fiscalizasse esses carros”, sugere.

Alunos da autoescola alegam não dar passagem a carros de emergência ou por duvidar que seja uma situação de emergência ou por temer multas, quando isto implica em avançar o sinal ou subir na calçada, especialmente em pontos onde há radares. “O motorista pode recorrer, mas a lentidão da Justiça faz com que o motorista pague para não perder a carteira”, relata o instrutor.

Substituição de servidores do Samu por bombeiros

Se alguém passa mal, deve ligar para a Samu ou para o Corpo de Bombeiros? E se for incêndio, disca 192 ou 193? Essas dúvidas são comuns. De fato, havia uma divisão entre o Samu e o Corpo de Bombeiros: o primeiro realizava apenas atendimento em residências, enquanto o segundo em vias públicas. Porém, desde 2008, o Corpo de Bombeiros do Rio passou a coordenar o Samu na capital. No interior, o gerenciamento é das prefeituras.

O Corpo de Bombeiros do Estado do Rio, que coordena o Samu na capital fluminense, orienta que a população ligue para 192 em situações de risco de vida ou dano grave à saúde, em urgências ou emergências médicas. Já o 193 é o número de emergência para resgates, salvamentos, combate a incêndios, etc. Caso seja necessário, o Samu é acionado pela corporação. O objetivo é regular as demandas da população e garantir maior agilidade no atendimento, evitando que ambulâncias dos dois serviços sejam deslocadas para a mesma ocorrência sem necessidade. 

A falta deste conhecimento faz diferença até na prioridade no trânsito. Segundo o motorista, entre as viaturas brancas, que antes eram da Samu, e as vermelhas, do Corpo de Bombeiros, as segundas costumam ser mais respeitadas, porque as pessoas acreditam que só as vítimas desta ambulância estão em casos mais graves. “As pessoas não têm noção de que o bombeiro aqui é o mesmo. Acreditam que é outro tipo de serviço, mas é tão grave quanto o outro”, explica o major Carvalho.