Projeto Comunicar
PUC-Rio

  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram

Rio de Janeiro, 23 de agosto de 2017


Cidade

Presidente da CET-Rio: trânsito melhor só com transporte de massa, e em 2016

Lucas Augusto e Viviane Zhuo - aplicativo - Do Portal

24/03/2015

 Viviane Zhuo

O canteiro de obras em que o Rio de Janeiro se transformou para acolher a Olimpíada 2016 vem acompanhado de uma maratona de intervenções no trânsito – em especial, no Centro e na Barra ­– e demanda, portanto, um uso intensivo do que os técnicos chamam de "inteligência de tráfego". Aplicado de forma exemplar em metrópoles como as ex-sedes olímpicas Londres e Barcelona, o conceito é uma das armas para dirimir os gargalos no deslocamento urbano, sem os quais o Rio produziria mais R$ 13 bilhões por ano, calcula o economista Fabio Giambiagi, organizador do recém-lançado Depois dos Jogos: pensando o Rio para o pós-2016 (Ed. Campus/Elsevier). Mas as tecnologias dirigidas a aliviar os 47 minutos diários, em média, gastos no trânsito carioca – como os sinais ajustados ao fluxo de veículos e os painéis móveis – são desafiadas pelo aumento de 123% da frota nacional em dez anos, de 2003 a 2014. Só na capital fluminense, circulam 2,5 milhões de veículos. Chegarão a 3 milhões até 2020, projeta estudo da UFRJ. A presidente da Companhia de Engenharia de Tráfego, Claudia Secin, qualifica este crescimento acelerado de “ofensa à mobilidade”, porém garante: "Nem de longe a cidade tem o pior trânsito do país". Para equacionar o problema, a analista de sistemas e arquiteta ressalta que “só um transporte público de qualidade pode mudar a cultura do carro”.

No comando da CET-Rio desde 2009, ela considera a criação dos BRTs e BRSs (corredores exclusivos para ônibus) e a ampliação do metrô, mais do que legados olímpicos, avanços importantes para aproximar o transporte de massa do padrão internacional. Um caminho ainda longo, observam os especialistas, os usuários e a própria presidente. "Temos que considerar o quão longe as pessoas moram dos seus trabalhos na Região Metropolitana. Só com transporte de massa poderemos melhorar a mobilidade. Devemos melhorar o sistema de ônibus, investir em metrôs, barcas e trens. Enquanto as pessoas insistirem em, todos os dias, pegar seus carros para trabalhar, porque é melhor ficar engarrafado dentro do ar que ficar no ônibus, será um caminho sem volta". Em entrevista ao Portal, no Centro de Operações do Rio (COR), Claudia apresentou os trunfos tecnológicos para desatar os nós no trânsito nesta temporada de obras. Ela admite que, diante das alterações frequentes no tráfego, "só haverá melhora efetiva no próximo ano".

Portal: A concentração de grandes obras, especialmente no Centro e na Barra, congestiona ainda mais o trânsito do município, que, segundo especialistas, ainda é afetado por circunstâncias como o deslocamento de milhares de trabalhores da Região Metropolitana e da Baixada atrás de melhor emprego na capital. Como a inteligência de tráfego pode aliviar os gargalos da mobilidade?

Claudia: Há uma frase do prefeito (Eduardo Paes) que eu repito: a gente não pode ancorar mobilidade de cidade nenhuma, ainda mais uma metrópole como o Rio de Janeiro, no transporte individual. Não há solução nesse sentido, mesmo quando novas vias são construídas. Um exemplo clássico é o da Linha Amarela, onde a saturação mostra-se muito rápida. O Rio vive em um momento de crescimento econômico e isso gera mais viagens, seja para o shopping, seja para o turismo, seja para a movimentação dentro da própria cidade.

Portal: Qual a prioridade da CET-Rio para dirimir os problemas com a mobilidade, que, segundo o economista Fabio Giambiagi, fazem com que o Rio deixe de produzir o equivalente a R$ 13 bilhões por ano?

Claudia: Assim como nas grandes cidades do mundo, a CET-Rio direciona todos os investimentos da Prefeitura para melhorar a mobilidade por meio do transporte público. Daí, por exemplo, a criação dos BRTse BRSs. Todas as nossas iniciativas buscam aprimorar a qualidade do transporte público, principalmente o ônibus, enquanto o governo estadual investe no metrô. Mas os BRTs e BRSs não funcionam sem tecnologia associada a eles. Como exemplo, pode-se citar o sistema adaptativo de semáforos, que funciona nos BRTs já implantados, Transoeste e Trascarioca. Neste sistema, o sinal calcula o melhor tempo (de abertura/fechamento) em função do horário e da demanda. A novidade substituiu a tradicional contagem de veículos vinculada ao horário, utilizada para planejar o tempo de duração dos sinais.

Portal: Na prática, que avanços decorrem dessas novas tecnologias?

Claudia: Antes do Corredor Transoeste, os planos semafóricos da Avenida das Américas mudavam cerca de seis a oito vezes por dia. Hoje, podem mudar a cada minuto, dependendo do fluxo para cada sentido, conciliado à necessidade de dar prioridade aos BRTs. Todos os ônibus dos BRTs têm um tag, um equipamento que manda um comando ao sinal para avisar que o BRT se aproxima. Nesse momento, o tempo é recalculado para que os ônibus fiquem o menor tempo possível parados.

Portal: Que outras tecnologias ajudam na guerra pela mobilidade?

Claudia: Outras tecnologias utilizadas são os painéis aéreos de mensagens variáveis, de menor ou maior dimensão, que divulgam a duração de viagens, opções de melhores rotas para os motoristas a fim de evitar que eles se dirijam a uma via saturada ou a um destino em que houve interrupção de vias em função de acidentes, obras ou eventos. Isso distribui melhor o trânsito por toda a cidade. Todos esses equipamentos são conectados em tempo real com o Centro de Operações (COR) e controlados por técnicos. No Túnel Rebouças, o principal da cidade, há um sistema de detecção automática de acidentes, constituído de câmeras inteligentes, que avisam aos operadores qualquer anormalidade nas galerias, desde falta de luz até fumaça, incêndio, carro na contramão ou acidentado. Isso agilizou o nosso atendimento em 30% e tornou mais rápido o socorro a acidentes no túnel.

Portal: Como esses mecanismos, integrados pelas câmeras, auxiliam a inteligência de tráfego, ou seja, a capacidade de intervir no trânsito de forma rápida e precisa para evitar e solucionar problemas?

Claudia: As nossas câmeras são multifuncionais. A Prefeitura tem um parque de 560 câmeras, todas ligadas ao COR, que servem para monitoramento de tráfego. Elas ficam a uma altura de aproximadamente 6 metros, algumas até mais altas, no teto de prédios, o que permite uma visão abrangente da cidade. A gente detecta qualquer ocorrência, como uma queda de árvore ou passeata, e podemos mandar o efetivo operacional ao local para resolver ou, se possível, solucionar do COR.

Portal: Inaugurado em 2010, o Centro de Operações Rio nasceu com a proposta de propiciar intervenções integradas na cidade. Que sistemas e tecnologias do COR são aplicados no trânsito?

Claudia: O COR não é da CET-RIO. É um organismo que congrega vários órgãos da Prefeitura que prestam serviços à população, para que ajam juntos na prevenção, detecção e resolução de problemas. Todos os equipamentos estão ligados em tempo real. Os 2.400 cruzamentos da cidade estão ligados ao COR, o que proporciona maior rapidez na percepção e resolução de problemas. Além disso, o COR utiliza ferramentas como o aplicativo Waze, para ter a contrapartida de quem está no trânsito, checar as ocorrências, a velocidade de cada via, verificar se há alguma retenção e agir para desfazer os problemas.

Portal: As obras viárias na região portuária, que prometem ampliar a capacidade de tráfego em 50%, impõe uma série de mudanças na área.  As intervenções no Centro já se mostram suficientes para reduzir a lentidão do tráfego nos horários de pico?

Claudia: Não, porque as obras ainda estão em andamento. As intervenções na Região Portuária não estão sendo feitas apenas sob o ponto de vista da mobilidade, mas também sob o aspecto paisagista, para resgatar a região em que a cidade nasceu, que estava totalmente degradada. As obras serão concluídas em 2016 e, então, ficarão claros os benefícios, como a via expressa que diminuirá bastante o trânsito na Zona Portuária, fazendo uma ligação direta com a área do Flamengo. Quem estiver no Centro poderá usar o VLT para ir até a Avenida Rio Branco e a Praça da República. Haverá uma diminuição no movimento de carros, pois as pessoas utilizarão o VLT.

Portal: Segundo o IBGE, o carioca é um dos que mais gastam tempo no trânsito: média de 47 minutos por dia. Que tecnologia e sistemas são usados para atenuar ou mesmo inverter isso?

Claudia: A nossa avaliação não é essa. Nem de longe a cidade do Rio tem o pior trânsito do país. Temos que considerar o quão longe as pessoas moram dos seus trabalhos na Região Metropolitana. Só com transporte de massa poderemos melhorar a mobilidade. Devemos melhorar o sistema de ônibus, investir em metrôs, barcas e trens. Enquanto as pessoas insistirem em, todos os dias, pegar seus carros para trabalhar, porque é melhor ficar engarrafado dentro do ar que ficar no ônibus, será um caminho sem volta. Tudo que a Prefeitura faz, hoje, visa à melhoria dos ônibus sempre, porque eles transportam muito mais gente que um veículo de passeio. É nessa linha que temos que ir, como em qualquer outro país do mundo.

Portal: A frota de veículos no município é de aproximadamente 2,5 milhões de veículos, segundo o Denatran. Como o crescimento da frota dificulta as intervenções e a melhora no trânsito?

Claudia: Quanto mais carro nas ruas, mais complicado é fazer um desvio, ainda que seja uma obra de mobilidade. Além de todas as interdições já feitas no Centro, como a perda de uma das faixas da Avenida Rio Branco para o VLT, há pouco tempo foi iniciada uma remodelação na Avenida Brasil, que viabilizará as obras do BRT Transbrasil e que melhorará a locomoção, principalmente, para os moradores da Baixada. Haverá uma Avenida Brasil modernizada, mais segura, com sinalização aprimorada, estações e passarelas novas. Pedimos aos motoristas que “por favor, não passem de carro por lá”. Fizemos questão de preservar a faixa exclusiva dos ônibus, justamente para não prejudicar as pessoas que usam o transporte público, mas aqueles que usam veículos serão afetados, principalmente os que vão em direção à Zona Oeste. É um momento de muitas obras, é necessário que as pessoas colaborem. Só com um serviço de transporte público de qualidade, mudaremos essa cultura.

Portal: Quando haverá um avanço efetivo nas condições dos ônibus?

Claudia: Em 2016, a frota de ônibus BRT aumentará bastante, em virtude da Transolímpica e da Transbrasil, que serão inauguradas ate lá. Todos os ônibus já virão com ar-condicionado. O problema é que essa parte de transporte ficou muito tempo sem investimento e sem obras. Agora, estamos correndo atrás do prejuízo para entregar uma cidade melhor em mobilidade. Não por causa da Olimpíada, mas aproveitando a oportunidade para deixar um legado melhor depois do evento.

Portal: Estudo da UFRJ aponta que até 2020 teremos três milhões de veículos nas ruas do Rio. Até que ponto esse salto, impulsionado pelos incentivos à compra de veículos, como a isenção fiscal concedida nos últimos anos, dificulta as soluções para o trânsito da cidade?

Claudia: O crescimento da frota de veículos é um ofensor à mobilidade. Reitero: as pessoas devem usar, cada vez mais, o transporte de massa em vez do veículo de passeio.

Portal: De que forma as redes sociais ajudam a aliviar o trânsito?

Claudia: As redes sociais ajudam porque disseminam a informação rapidamente. O COR está nas redes sociais e os operadores enviam os informes das ocorrências na cidade, as programadas e as não programadas: manifestação, queda de árvore, acidente, falta de energia. Então, os motoristas sabem, rapidamente, do problema que enfrentarão no percurso deles, podendo decidir, eventualmente, se sairão mais tarde de casa ou do trabalho ou mudarão a rota.

Portal: Na sua avaliação, que outros fatores, além da engenharia ou da inteligência de tráfego, contribuem para melhorar o trânsito carioca?

Claudia: Mais respeito à sinalização e aos agentes de trânsito. As pessoas devem lembrar que dirigir não é só um direito, é um dever. Quem entra no carro tem o dever de conhecer o Código de Trânsito. É necessário dirigir de forma mais civilizada, baseado naquele princípio: “Não faça com o outro o que você não gostaria que fizessem com você”. Devemos acabar com a direção irresponsável. Nenhuma pressa justifica a imprudência. O poder público tem de fazer a parte dele: melhorando a sinalização, disponibilizando sinais inteligentes, colocando painéis informativos digitais e aperfeiçoando as condições na malha viária. Mas os motoristas e os pedestres têm de respeitar as normas também. Em relação à população, temos feito muitas palestras educativas, para conscientizar os futuros motoristas.

Portal: Apesar dos avanços nas intervenções no trânsito, aperfeiçoadas pelo progresso tecnológico, ainda se tem a sensação de que o tráfego está sempre parado. Como a senhora avalia a percepção de que a hora do rush se estendeu a grande parte do dia?

Claudia: Praticamente não temos mais hora do rush. Muitas pessoas já optam por trabalhar em casa ou adaptar seus horários para o trabalho. Hoje, os picos são muito achatados. Temos pouca variação, no início da manhã e no fim da tarde. Ao longo do dia, o tráfego é mais homogêneo e está sendo influenciado pelas obras. Importantes vias estão em reforma. Este ano ainda será um ano difícil nesse aspecto do trânsito, mas em 2016 vai melhorar.