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Rio de Janeiro, 27 de maio de 2017


Cidade

Legado olímpico exige mais atenção social, alertam analistas

Andressa Pessanha - aplicativo - Do Portal

08/02/2016

 Rodrigo Beser

As provas olímpicas ganharão o Rio só em agosto de 2016, mas há dois anos os cariocas já convivem com os Jogos. Da revitalização de parte da Zona Portuária à ampliação do metrô, a cidade virou um canteiro de obras, ecoam as equinas. Mudanças nas rotinas, na paisagem, no trânsito vêm acompanhadas da esperança de que se convertam no legado prometido. Instalações esportivas, mobilidade e urbanização totalizam um investimento de R$ 38, 27 bilhões, divididos entre os governos federal, estadual e municipal e a inciativa privada. Enquanto as instalações esportivas são contempladas pela Matriz de Responsabilidade, as benfeitorias urbanas integram parte do Plano de Políticas Públicas e correspondem ao tal legado olímpico. Apesar das reiteradas garantias oficiais de que será cumprido, moradores e urbanistas temem que uma parcela das benfeitorias acordadas não seja concluída no prazo ou ganhe destino semelhante aos de estádios construídos para a Copa de 2014, como as Arenas Pantanal e da Amazônia, que lutam contra a ociosidade. Ou pior: naufrague no mesmo barco da meta, já fracassada, de despoluir 80% da Baía de Guanabara até o próximo ano. Para assegurar que as Olimpíadas leguem ganhos sociais, ambientais e econômicos, especialistas sugerem mais engajamento na fiscalização da herança prometida: 

– O cidadão estava acostumado, durante muitos anos, a receber melhorias na cidade como um favor. Ele precisa encarar isso como uma obrigação, pois pagou imposto e ainda tem um prejuízo transitório no dia a dia. Esses investimentos são fabulosos em termos de capital, mas necessitam de uma razão de ser. Como isso vai se integradr (à cidade)?  A sociedade deve exigir o day after (dia seguinte) – ressalta o professor Eduardo Qualharini, da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EP/UFRJ).

Para os especialistas, a atenção deve estar voltada não só ao que será aproveitado depois dos Jogos, mas também ao curso atual das obras. Com a fiscalização do cronograma físico-financeiro – representação gráfica do projeto que indica gastos e prazos de todas as fases de uma construção –, é possível evitar que se tornem emergenciais e deem margem ao superfaturamento. “A falta de fiscalização da população contribui para pavimentar o caminho da corrupção dentro dessas obras”, adverte o professor do Departamento de Engenharia Civil da PUC-Rio Pedricto Rocha. Ele sugere que instituições acadêmicas contribuam com pesquisas e análises didáticas sobre as mudanças urbanas. A divulgação dos cronogramas deve estar sempre acessível nas página eletrônicas das empresas responsável pelas obras e da prefeitura, como é o caso do Portal da Transparência Jogos Rio 2016.

O envolvimento do público com o legado dos Jogos contemplas as mudanças de mobilidade, urbanismo e estrutura esportiva. O presidente da Empresa Olímpica Municipal (EOM), Joaquim Monteiro de Carvalho, enfatiza que as Olimpíadas "serão mais que uma simples competição esportiva":

– Estamos usando os Jogos como agente acelerador para transformar a cidade. Não só o Parque e os equipamentos olímpicos, mas a estrutura urbana.

O investimento na infraestrutura da cidade, segundo Rocha, é necessário desde que a densidade demográfica ultrapassou os 16 milhões de habitantes (376 por km²). O aumento populacional alavancou, também, o tráfego intenso nas ruas: segundo o economista Fábio Giambiagi, organizador do livro Depois dos Jogos – Pensando o Rio Pós-2016 (Campos/Elsevier, 2015), o Rio deixa de produzir R$ 13 bilhões por ano com o tempo gasto no trânsito. Para amenizar a precariedade do transporte público – sobretudo quanto à eficiência, à integração e ao acesso às opções de massa – foram investidos R$ 24 bilhões por meio do Plano de Políticas Públicas para obras de mobilidade e infraestrutura urbana, o principal legado dos Jogos. 

– Teremos duplicação de autoestradas e já temos os mergulhões na altura da Cidade das Artes, na Barra. Isso vai melhorar muito a vida. Antigamente, havia um engarrafamento regular naquela área. Com as obras, o trânsito ficará melhor. Ainda há problemas, mas, sem as obras, poderia ser caótico. Já no Jardim Oceânico, também na Barra, apesar dos transtornos com muitas obras ao mesmo tempo, depois de prontas vão auxiliar muito o trânsito. Do ponto de vista da engenharia, isso vai transformar a mobilidade dos cariocas – avalia Rocha.

As projeções de Rocha são aguardadas com especial ansiedade pelos milhares de motoristas que, por falta de alternativas de transporte de massa na região, gastam de uma hora e meia a duas horas, ou mais, no caminho da Barra ao Centro e vice-versa. Os entornos do Jardim Oceânico e da Cidade das Artes continuam sistematicamente congestionados.

Mobilidade e infraestrutura: principais legados

As intervenções urbanas associadas à Copa do Mundo e, agora, à Olimpíadas são consideradas, em geral, proveitosas, ou até imprescindíveis, por especialistas. Desde que consumam o objetivo central: melhorar as condições urbanas, principalmente de mobilidade. As grandes competições representam oportunidades talevez únicas, dizem, para instalar benfeitorias há muito necessárias. Os programados ganhos na circulação urbana estarão supostamente consumados só depois dos Jogos, provavelmente no fim do próximo ano, se nenhum acidente de percurso prejudicar os cronogramas. Tais ganhos, acredita Qualharini, trarão "facilidades em diversos aspectos, inclusive no acesso a serviços públicos como educação, saúde e cultura". (Amplie o infográfico sobre as obras de mobilidade para as Olimpíadas na cidade).

 Thayana Pelluso Um dos maiores investimentos em mobilidade – R$ 1,7 bilhão – está voltado para as pistas da Transolímpica. A faixa exclusiva de Bus Rapid Transit (BRT) liga a Barra da Tijuca a Deodoro, duas das quatro regiões olímpicas. Além da integração aos trens da SuperVia em Deodoro, a Transolímpica será articulada aos corredores de BRT já concluídos: Transcarioca e Transoeste. Ao todo, haverá 46 estações para estes ônibus, que operam desde 2012. O professor do Departamento de Engenharia Industrial da PUC-Rio José Eugênio Leal, especializado em concentração de transportes e logística, reconhece a utilidade dos BRTs em "áreas de pouca demanda", mas pondera:

– Para os Jogos, o BRT vai funcionar bem. Mas não seria a melhor solução, pois não é um transporte de massa.

Especialistas consideram a expansão das linhas de metrô uma solução "mais completa". Segundo Qualharini, o sistema de ônibus tende a se exaurir:

– O BRT é um transporte para cidades pequenas, não para regiões como a Barra da Tijuca, onde o fluxo é muito maior do que uma linha de BRT pode suportar. Daqui a quatro ou cinco anos, aquilo vai se exaurir. Acho o BRT um erro quase infantil, porque está atendendo a demandas muito maiores, que deveriam ser atendidas por transportes de massa, como o metrô – opina.

O projeto original programava mais uma linha de BRT, que ligaria a Praça Antero de Quental, na Zona Sul, ao Parque Olímpico, na Zona Oeste. Já a expansão da Linha 4 do metrô acolhe seis estações entre a Barra e Ipanema. Com investimento de R$ 8,79 bilhões – 90% deles bancados e fiscalizados pelo governo estadual –, a nova linha torna-se um dos legados olímpicos mais esperados. "Investir no metrô é sempre um ganho importante para a mobilidade", observa Leal. Para os Jogos, a partir de julho do próximo ano, só estações da Barra, Ipanema e Centro estarão funcionando. A estação Gávea ficará concluída só no fim de 2016, por causa de uma mudança no projeto. Serão construídas mais duas plataformas para contemplar novas expansões: Gávea-Centro e Gávea-Uruguai (Tijuca).

Voltadas também para desafogar o trânsito, a ampliação de vias importantes da cidade caminha no prazo previsto. Integra o plano de mobilidade a duplicação do Elevado do Joá, principal via de ligação entre a Barra e Zona Sul e um dos acessos ao Centro. Duas novas pistas e uma ciclovia à beira-mar ficarão prontas no segundo trimestre de 2016, o que aumentará a capacidade viária em 35%. Está programada também a ampliação da Avenida Embaixador Abelardo Bueno, na Barra, para 10 novas pistas e sete novas estações do BRT.

Caso as obras se estendam além do prazo e não terminem até as Olimpíadas, o compromisso deve se impor a aspectos políticos e à perda do apelo inerente aos Jogos, alertam urbanistas e engenheiros. Eles temem o risco de trajetória semelhante à do Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim(Galeão), cuja modernização havia sido articulada com a Copa de 2014. A maior parte das obras iniciadas em 2008 segue longe do desfecho. Na ampliação dos 17 mil km², está incluída a modernização dos terminais, da praça de alimentação e dos sanitários. Agora as autoridades prometem concluí-la até as Olimpíadas. Qualharini avalia que, fora obstáculos políticos e econômicos, o planejamento também não decolou:

– O grande problema é que foram muito otimistas. Uma regra básica na engenharia determina que o planejamento precisa incluir o que pode dar errado, não o que vai dar certo. A partir disso, programa-se uma série de ajustes ao que pode sair errado. Não adianta fazer um investimento feito para esta geração só ficar pronto daqui a 50 anos.

“As benfeitorias têm prazo de vida”, dizem especialistas

Mesmo se as obras cumpram planejamentos e prazos adequados, há outro fator preponderante para convertê-las em benefícios efetivos e sustentados: o prazo de vida. A utilidade de uma construção, esclarecem os engenheiros, varia ao longo dos anos. Um exemplo foi o elevado da Perimetral, implodido no ano passado. A intenção, quando fora construído, era ligar a parte central da cidade ao interior, sem sobrecarregar as vias de carga e descarga de caminhões na Zona Portuária. Ao longo dos anos, com a modernização das exportações, os caminhões foram substituídos por contêineres, deslocados para outra área. Assim, o fluxo de caminhões diminuiu e o local ficou abandonado. Especialistas relembram que megaeventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas servem sistematicamente de motores à revitalização de áreas urbanas abandonadas. Chegou a vez da Zona Portuária do Rio.

– Existem exemplos significativos neste sentido, como o de Londres, nas Olimpíadas de 2012. Eles recuperaram uma parte da cidade para o turismo em consequência dos Jogos. No caso do Brasil, a recuperação do Porto, por exemplo, tende a deixar um legado de infraestrutura, turismo e geração de emprego e renda – avalia Pedricto Rocha.

Porto Maravilha é o nome oficial do programa de revitalização da Zona Portuária, que corre independentemente das Olimpíadas. Novas opções culturais foram impulsionadas com a reforma, como o Museu da Arte do Rio (MAR), aberto em 2013, e o Museu do Amanhã, inaugurado neste fim de semana.

Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) corresponde a uma dos integrantes de maior destaque do projeto. Integrado com metrô, trens, barcas e redes de ônibus, o novo transporte elétrico conecta os bairros da Região Portuária ao Centro. Passará pelo Aeroporto Santos Dumont e proximidades da Rodoviária Novo Rio, Praça Mauá, Avenida Rio Branco, Cinelândia, Central do Brasil, Praça XV e Santo Cristo. Especialistas apontam o VLT como um "grande avanço", pois é ecologicamente melhor e mais rápido do que o ônibus.

Novas instalações esportivas para formar atletas

Não só as mudanças de infraestrutura na cidade são esperadas pelos cariocas, mas também um maior acesso à prática de esportes e mais atenção aos treinamentos dos atletas brasileiros, com centros de treinamento mais modernos. Ainda que o investimento do Ministério do Esporte entre 2007 e 2012 tenha sido mais de R$ 869 milhões, impulsionado pela Lei de Incentivo ao Esporte (Lei 11.438/2006, que permite que empresas e pessoas físicas invistam parte do Imposto de Renda em projetos esportivos aprovados pelo Ministério do Esporte), a formação dos atletas ainda é um problema. A realização das Olimpíadas no Rio, por isso, pretende deixar um legado esportivo, no qual os principais centros de competições das regiões olímpicas se tornem locais fixos para o desenvolvimento de esportes.

Leia também: Jovens atletas enfrentam obstáculos para profissionalização

 Davi Raposo As mudanças estão centradas, sobretudo, nas regiões onde se realizarão as 39 modalidades esportivas: Barra, Deodoro, Maracanã e Copacabana. Este legado esportivo faz parte da Matriz de Responsabilidade. Segundo a última atualização, em janeiro, dos 56 projetos, 75% passaram do grau 3 de maturidade, que vai de 1 a 5; sendo 1 o estágio inicial e 5, o final. (Amplie o infográfico para saber sobre as instalações esportivas).

No Parque Olímpico, localizado na Barra, das quatro principais arenas (Arenas Cariocas), uma será temporária e, após os Jogos, se transformará em quatro escolas municipais. As outras três se integrarão ao Centro Olímpico de Treinamento (COT), locais fixos, sob responsabilidade do Governo Federal, para treinamento contínuo dos atletas. Segundo o presidente da EOM, esses são exemplos de como o megaevento traz consequências que “se ajustam às necessidades da cidade”:

– Não temos a pretensão de ser "O Jogo dos Jogos". Eles devem ser os melhores Jogos para as necessidades da cidade. Não vamos gastar dinheiro como Pequim ou Londres, porque não somos um país de primeiro mundo. São Jogos bem fiéis ao cenário e à realidade brasileira, por isso, os Jogos do Legado.  

Além das novas instalações, muitas já existentes serão adaptadas para servir às modalidades em 2016. Na cidade, 55% dos equipamentos olímpicos serão reutilizados, como o Estádio João Havelange (Engenhão), Maracanã e o Complexo Esportivo de Deodoro (utilizado no Pan Americano de 2007 e nos Jogos Militares de 2011). De acordo com o Portal da Transparência, esses lugares receberão ajustes de acessibilidade, modernização e adaptação.

Entre todas as instalações esportivas, o campo de golfe foi o mais polêmico. O primeiro campo olímpico público do mundo está posicionado ao lado do Parque Natural de Marapendi, em uma área de reserva ambiental. As obras – cujo orçamento é de R$ 60 milhões, de empresa privada – já foram ameaçadas pelo Ministério Público do Rio (MP) por ilegalidade na concessão da licença ambiental. O processo do MP está em segunda instância, mas o prefeito da cidade, Eduardo Paes, alegou, em março deste ano, que não há crime ambiental.

“Os projetos ambientais são de menos importância”, diz especialista

 Davi Raposo Destaques sobre danos ao meio ambiente, ou a desistência de solucioná-los para as Olimpíadas, não giram só em torno do campo de golfe. O governo estadual, por exemplo, planejava plantar 34 milhões de árvores até o fim de 2015 para compensar os impactos ambientais causados pelos Jogos. A menos de cinco meses para acabar o ano, só 5,5 milhões foram plantadas. (Amplie o infográfico sobre as iniciativas ambientais relacionadas às Olimpíadas).

– Os projetos ambientais não foram colocados como prioridade porque não possuem resultados tão rápidos e visíveis como as outras. Portanto, eles acabam sendo de menos importância. Muitos legados ambientais se perderam em meio aos de mobilidade e de esportes. Um grande exemplo é a Baía de Guanabara – justifica Eugênio Leal.

Desde o Eco-92, no Rio de Janeiro, há planos de melhorar as condições ambientais da Baía de Guanabara. O Projeto de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG) ganhou destaque na reunião e iniciou-se em 1995. Depois de 20 anos, 1,17 bilhão de dólares foram gastos e 51% do tratamento de esgoto prometido foi tratado, além das questões mal resolvidas sobre os atrasos do programa e sua veracidade. Esse descaso, hoje, resulta em busca de negociações entre o governo do Estado e os 15 municípios do entorno da Baía – que despejam mais de 18 mil litros de esgoto por segundo – para entregar uma Baía minimamente apresentável para competições de vela nos Jogos Olímpicos. André Trigueiro, professor da disciplina Jornalismo Ambiental do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio, acredita que projetos de despoluição são constantes e de longo prazo.

– Projetos de despoluição de baías ou rios pelo mundo, na verdade, não têm um término. São conjuntos de ações que procuram resolver todos os focos de poluição, que devem ser administrados na linha do tempo. Até 2035, tempo de despoluição estimado pelo subsecretário do Meio Ambiente ano passado, é mais do que suficiente para resolver os problemas de esgotamento sanitário, eliminação dos lixões em volta e dar duro nas empresas petrolíferas das quais a Baía virou quintal – avalia o autor dos livros Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em Transformação (Ed. Globo, 2005) e Mundo Sustentável 2 – Novos Rumos para um Planeta em Crise (Ed. Globo, 2012).

Faltando menos de um ano para as Olimpíadas e menos de um mês para os eventos-teste da vela, a solução prevista é a implantação das ecobarreiras (posicionadas onde os rios desaguam que impedem a passagem do lixo) e a circulação de ecobarcos (barcos que recolhem no espelho d’água lixos sólidos que passaram pelas ecobarreiras) nas proximidades de onde as provas serão realizadas para evitar que as 100 toneladas de lixo atrapalhem as provas. A utilização desses métodos não é a ideal porque não despoluem a área, apenas limpa temporariamente, como alegam especialistas. Mas, este é o método em curto prazo para a prática de esporte nos eventos-teste e nos Jogos de 2016.

O projeto inicial das Olimpíadas era despoluir 80% da bacia hidrográfica como legado ambiental. Porém, o fechamento dos lixões à beira da Baía e o tratamento de esgoto em alguns municípios não foram o suficiente ao longo dos anos. No início deste ano, o secretário do Meio Ambiente, André Corrêa, já descartou a possibilidade de chegar aos 80% de tratamento de esgoto que desemboca nas águas para os Jogos.

– O governo disse que já chegou a 49% de despoluição, mas o que significa esse número? Despoluição pressupõe tirar não só esgoto, mas resíduo sólido, e resolver problemas de saneamento. Não estou dizendo que esse número seja mentiroso, mas não se fala na origem dele e nem se é o suficiente para se realizar o que se espera – pondera o superintendente do Instituto Baía de Guanabara (IBG), Adauri Souza.

Analistas lembram que a poluição da Baía não deve ser vista como um problema só para as Olimpíadas, mas também para a qualidade de vida da cidade. Souza explica que a saúde ambiental do local, as condições de vida dos moradores e até a economia do estado seria beneficiada com um tratamento “real” da Baía. “Queremos ficar com esse número de 49% para as Olimpíadas ou queremos uma Baía que chegue a 95% de tratamento de todo o esgoto que desemboca nela e melhore nossas vidas?”, reflete o superintendente. O engajamento da população, mais uma vez, é um ponto importante para que a despoluição não saia da pauta do governo após os Jogos.

População aprova, em maioria, os Jogos no Rio

Mesmo com alguns legados perdidos e transtornos em partes da cidade devido às obras, a aprovação dos Jogos em terra brasileira é maioria: uma pesquisa do Comitê Organizador Rio-2016 aponta 65% de aceitação do país aos Jogos. A meta é chegar a 90% até 2016, para se equiparar aos 92% de apoio da população em Londres há três anos. Rodrigo Rosa, um dos coautores do artigo “O legado olímpico” no livro organizado por Giambiagi e presidente da rede C40 Cities, acredita que a cidade está mobilizada.

– O termômetro agora é a alta procura por reservas em hotéis e a expectativa de cerca de 500 mil pessoas a cada jogo. Tenho a segurança de que a cidade estará bem animada ao receber turistas, movimentar a economia e ser o foco das atenções do planeta. Isso trará um retorno turístico de imagem e visibilidade que perdurará depois dos Jogos – afirma Rosa.

Paulo Dompieri, executivo de Comunicação, Marketing e Comercial do Comitê Rio-2016, também vê com otimismo o índice de aprovação e os preparativos que ocorrem na cidade. A procura de 5,2 milhões de pessoas por ingressos, para ele, é um “reflexo do entusiasmo do público”. A primeira fase de compras disponibilizou 4,5 milhões de ingressos para o sorteio, 700 mil a menos do que a demanda. A expectativa de uma virada para a cidade do Rio é grande. E acrescenta:

– O nosso desafio agora é saber como será a reação do público com as surpresas que terão na cerimônia de abertura e encerramento. A aprovação dos Jogos pela população já é bastante alta, e as obras estão no ritmo certo para inaugurar dentro do previsto, então não temos grandes dificuldades. Obviamente, temos um monitoramento completo e constante para tudo isso.

O que pode estar impedindo uma aprovação maior, segundo Eugênio Leal, são as obras paralelas às do legado, como a Transbrasil. O corredor expresso de BRT que liga Deodoro ao Centro, integrando a composições do metrô, VLT Centro e trens da Supervia, só ficará pronto no primeiro semestre de 2017.

– As obras paralelas estão ocasionando um transtorno enorme na cidade, que sofre mais. Foi ruim a ideia de começar a obra da Transbrasil, que não tem nada a ver com a Olimpíada, antes de terminar as outras principais. Estão tocando uma obra que não vai terminar a tempo dos Jogos, e o parcial não resolve – avalia o professor de engenharia industrial.

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