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Rio de Janeiro, 29 de abril de 2017


Cidade

Ao virar patrimônio, procissão transcende significado religioso

Larissa Fontes - aplicativo - Do Portal

23/01/2015

 Mônica Soares

No dia 20 de janeiro, a tradicional procissão de São Sebastião arrasta milhares de fiéis da Paróquia de São Sebastião, na Tijuca, até a Catedral Metropolitana, no Centro. A deste ano, que encerra a trezena de celebração e devoção ao padroeiro, teve um apelo extra. Foi a primeira depois de ter sido nomeada patrimônio imaterial do Rio de Janeiro. A novidade faz parte dos preparativos para a celebração dos 450 anos do Rio, em 1º de março, e reforça a popularidade do santo entre os cariocas. Segundo a teóloga e professora da PUC-Rio Maria Clara Bingemer,  o reconhecimento como patrimônio imaterial é "algo que mexe com o imaginário e o espírito das pessoas e, além disso, vai na contramão de uma sociedade que dá muito valor ao material".

O doutorando em História Social da UFRJ  Vinicius Miranda Cardoso, que produziu dissertação de mestrado sobre o santo padroeiro, lembra que Sebastião integrava a guarda pessoal do imperador romano Diocleciano no tempo da perseguição aos cristãos. Por confortar os perseguidos, foi condenado à morte por flechadas. Milagrosamente, o mártir teria sobrevivido, mas, logo depois, acabado morto a golpes de clavas no hipódromo do Monte Palatino, por haver repreendido o imperador.

– Sebastião teria sido enterrado na catacumba onde, àquela altura, estavam os restos dos apóstolos Pedro e Paulo, local hoje chamado de Catacumba de São Sebastião. Foi ali que nasceu a veneração a esse e tantos outros mártires do Cristianismo – completa Cardoso.

Para o especialista, não há como precisar quem escolheu o do santo como padroeiro do Rio. Mas as razões são conhecidas. A faceta militar de São Sebastião correspondeu ao intuito de expulsar franceses “heréticos” e subjugar  tamoios “selvagens” na disputa pela Guanabara. A conjuntura do combate contra franceses e índios tamoios (1560 e 1565) coincidiu com o período inicial do reinado de D. Sebastião de Portugal (1554-1578). Com o mesmo nome, por ter nascido no dia 20 de janeiro, D. Sebastião foi associado e se fez associar ao santo.

– Certos testemunhos afirmam que a cidade do Rio foi a primeira fundada no reinado de D. Sebastião. Outros sugerem que a luta pela Guanabara foi mais valorizada em Portugal do que se imagina. De qualquer modo, buscou-se homenagear o rei. Mas o principal objetivo era garantir, digamos, a anuência divina para a proteção espiritual e, sobretudo, material daquela povoação contra inimigos e intempéries – esclarece Cardoso.

Na visão da teóloga, um painel de fatores compõe a devoção dos cariocas ao padroeiro. Doutora em Teologia Sistemática, Maria Clara considera que muitos o veneram sem conhecer sua história de soldado romano convertido por recusar-se a cultuar o imperador. Ela acredita também que, devido ao sincretismo observado em nosso campo religioso, alguns o misturam com Oxossi, orixá da Umbanda protetor das matas, dos animais, dos caçadores: 

– Muitas vezes, para muitas pessoas, estão aparentemente cultuando o santo da Igreja Católica, mas, na verdade, há algo das religiões afro-brasileiras no fundo da devoção. No entanto, creio que todos o reconhecem como padroeiro.

Ainda na avaliação da teóloga, o padroeiro revela-se significativo à cidade. Assegura proteção, desvelo, uma figura a quem os cariocas podem apelar em busca de auxílio. Para Maria Clara, “trata-se de uma figura importante como intercessor perante Deus pelas necessidades da cidade e um exemplo a ser seguido pelos fiéis católicos”. Cardoso pondera que os sentidos associados a padroeiro mudaram com a contemporaneidade. Segundo o historiador, para os que viveram entre os séculos XVI e XVIII, padroeiro era um símbolo político-religioso capaz de articular narrativas, "expressar a sacralidade e as virtudes de uma comunidade, merecendo culto solene e cujo abandono poderia significar a ruína da urbe":  

– Eu não diria que ninguém mais pensa dessa forma. Mas é nítido que, em geral, a ênfase contemporânea é de tratar o culto sob a ótica do patrimônio e do “lugar de memória”, como se fosse um elemento da identidade e manifestação privilegiada de um passado.

O próprio conceito de patrimônio imaterial é “estritamente contemporâneo, pós-Revolução Francesa”, completa Cardoso. Ele aponta a necessidade de convencionarmos uma referência pública a vestígios de um passado em vias de desaparecimento, diante da “sensação de aceleração irremediável do tempo”. Ao virar "patrimônio", a procissão do padroeiro ganha também, no ponto de vista do historiador, "um caráter oportuno, no melhor sentido", para o poder municipal e para a Diocese, por conta da comemoração dos 450 anos da cidade.

– Mas no terreno religioso – ressalva o especialista – a procissão sempre foi tratada como um patrimônio, especialmente por devotos do santo e por setores eclesiásticos.

Maria Clara ressalta que a nomeação destaca “o lado imaterial da vida”. Se a palavra "patrimônio" remete adinheiro, propriedade, reservas monetária, "patrimônio imaterial" é mais que isso, argumenta a teóloga:

– Representa uma devoção, a religião que se pratica e o reconhecimento de que necessitamos de proteção.

 Larissa Fontes Sebastiões da PUC

Sebastião da Silva Cruz, de 53 anos, trabalha na PUC-Rio há 16 anos como supervisor de obras. Morador de Mesquita, demora cerca de três horas para chegar ao serviço. Diz que "adora trabalhar aqui". Seu nome foi escolhido pelo pai por influência da avó, devota do santo padroeiro. O pai acabou devoto também, mas Sebastião confessa que "não é muito religioso". Ainda assim, não deixa de valorizar a deferência e o papel do santo para o Rio: 

– Hoje percebo que é uma satisfação ter o mesmo nome do santo padroeiro da cidade.

Já o estudante Gilberto Sebastião Junior, de 22 anos, carrega o santo no sobrenome.  A homenagem chega à terceira geração da família do calouro de Comunicação Social da PUC-Rio, desde que a bisavó decidiu homenagear "seu grande amor", conta Gilberto:.

– Apaixonada, ela incorporou "Sebastião" ao sobrenime do meu avô. Foi uma homenagem a um parente deste grande amor da minha bisavó, responsável pela ordenação na época da colonização suíça em Friburgo (região serrana do Rio). Ela também era grande devota de São Sebastião, então uniu dois fortes motivos para transformar o nome em sobrenome.