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Rio de Janeiro, 23 de outubro de 2017


Cidade

Albergues em favelas garantem primeira visita à cidade

Marcella Inácio - aplicativo - Do Portal

12/02/2015

 Divulgação

Difundidos pelo movimento hippie nos anos 60 e antes encontrados apenas em bairros como Santa Teresa e Lapa, os albergues são um segmento que se propagou e, hoje em dia, muitos empreendedores têm investido na área. Atualmente possível se hospedar em uma centena de albergues, espalhados por todos os bairros da cidade, principalmente nas comunidades pacificadas da Zona Sul – como Rocinha, Vidigal, Cantagalo, Pavão-Pavãozinho, Santa Marta e Chapéu Mangueira. Há, em média, oito albergues em cada comunidade desta. E neles, 70% dos turistas nunca haviam tido a oportunidade de visitar a cidade devido a custos altos de se hospedar na capital.

Os valores de hospedagens chegam a ser a metade do que é cobrado no asfalto, cerca de R$ 40, R$ 50 a diária, por um serviço que inclui quartos coletivos, cozinha, internet, bar e até translado (aeroporto e rodoviária). De dezembro até o fim do carnaval, a chamada alta temporada, é comum encontrar mais turistas estrangeiros, europeus, norte-americanos e até australianos. Nesta época, o valor das tarifas aumenta, passando a custar, em média, de R$ 90 a R$ 120. Os pacotes promocionais começam a ser oferecidos, incluindo atividades extras mais atraentes, para isso, os albergues entram em contato com equipes da área de turismo marinho, esportes radicais, trilhas ecológicas com quem têm parcerias.

André Lima, 38, morador do Vidigal, é um dos empreendedores do ramo. Surfista e professor de tênis, associou-se ao amigo Luis Selva, 40. Baseados nas experiências de viagens e hospedagem pelo Brasil e o mundo, montaram, em 2010, o primeiro albergue da comunidade, o Vidigalbergue.

– O espaço era do meu irmão mais velho que faleceu e deixou para os meus sobrinhos. Alugamos, adaptamos e iniciamos o projeto. O Luis já tinha experiência, porque trabalhou por cinco anos na administração de um hostel da mãe, em Búzios. Engatinhamos e hoje somos referência. Recebemos turistas do Brasil e do mundo – conta André.

  Marcella InácioPara atrair ainda mais o público, os donos estão investindo em serviços para além do pernoite e da socialização. Nos estabelecimentos encontram-se atrações para cativar o visitante: refeições típicas, festas, passeios turísticos, aulas de dança e instrumentos, entre outros itens.

 O perfil dos turistas quase sempre se repete, geralmente solteiros, entre 22 e 35 anos de idade, mochileiros e com espírito aventureiro, dispostos a desvendar e entender a verdadeira atmosfera de uma favela. O que antes da pacificação não era possível, segundo Marco Antonio Venâncio, 34, nascido e criado no Vidigal.

– Há alguns anos, a presença dos traficantes amedrontava os visitantes. Com a chegada das UPPs muita coisa mudou, a política é outra. Transmite segurança e isso proporciona a visita das pessoas de fora – conta Marco.

Já para Jonatal Stegemann, 25, argentino que mora no Brasil há dois anos, recepcionista do Eço Hostel, na comunidade do Chapéu Mangueira, o problema é que, mesmo depois das instalações das UPPs, a mídia estrangeira propaga a favela como um lugar perigoso e desinteressante.

– Os meios de comunicação vendem que são ruins as favelas, que há perseguição aos gringos, assaltos e covardia. E não é isso que vivemos aqui, eu fui muito bem aceito, e olha que sou argentino! – brinca o funcionário do hostel, que ressalta: – A verdadeira realidade vai sendo conhecida com um amigo passando para o outro, indicando, e assim fazendo com que se quebrem os preconceitos.

A maior segurança nas favelas, aliada aos preços da hospedagem e à localização na Zona Sul do Rio, resultam na maior procura de turistas, pela proximidade de  pontos turísticos como Corcovado, Praia de Copacabana, Pão de Açúcar, Jardim Botânico, Pedra Bonita.

Outro fator que favorece a escolha por hostéis de comunidades é o lado social. Muitos, principalmente os europeus, buscam se hospedar para entender a cultura, a vida nas favelas, que diferem da realidade deles. Não existe uma preocupação com luxo, quanto a isso são totalmente descompromissados, pois passam o dia fora, passeando e voltam ao estabelecimento apenas para descansar e dormir. Até os lugares mais baratos para comer dentro das favelas eles sabem.

Para a divulgação, os donos apostam em sites. Nestes, é possível encontrar todas as informações sobre os serviços, localização, acomodações, eventos, tarifas e as reservas. Estas, na maioria dos albergues, são feitas pelo administrador do site (remunerado), e este por sua vez passa as informações para o estabelecimento. Desta forma que foram chegando os primeiros hóspedes, mas hoje muitos vão pela indicação de amigos.

O francês Fradique Louis, 28, que se hospedou por quatro dias no Hostel Pura Vista, na favela Pavão-Pavãozinho/Cantagalo, esteve no Rio de Janeiro pela primeira vez no fim do ano. Prevenido a respeito da segurança, o caminho, a condução, as festas, tinha até um mapa desenhado pelo amigo que já esteve hospedado no hostel.

  – Infelizmente não pude vir nas duas vezes que ele veio, estava estudando, mas me senti seguro em vir sozinho, com as instruções dele. Foi uma experiência muito boa, pude passear pelo morro e conhecer um pouco da arte deles. Bem que meu amigo Jean disse que eu ia gostar muito – conta Fradique, que já pensa até na segunda visita: – Da próxima vez, quero voltar com a minha irmã, não foi possível agora, porque ela começou a trabalhar há pouco tempo – relata o estudante de Artes.

Na baixa temporada, os hospedes são, na maioria, brasileiros vindo de Curitiba, São Paulo, Minas Gerais, Bahia. Aproveitando as menores tarifas, desfrutam das belezas da capital.

Raquel Dorvil, 23, mineira, auxiliar administrativa, se hospedou num feriado no Vidigalbergue com mais três amigas, e é outra “marinheira de primeira viagem”. Influenciada pelas companheiras, se programou e poupou dinheiro para vir visitar a Cidade Maravilhosa.

– Economizei durante quatro meses. Sempre quis vir ao Rio, mas estava muito caro e fiquei um tempo desempregada. Não nos importamos com alta ou baixa temporada. Vou à praia até com chuva. O importante é estar aqui, tirar fotos e postar no Facebook – diverte-se.

Reportagem produzida para o Laboratório de Jornalismo.