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Rio de Janeiro, 28 de março de 2017


Cidade

'Não será a Olimpíada das Olimpíadas, mas vai melhorar'

Viviane Zhuo - aplicativo - Do Portal

24/04/2015

 Andressa Pessanha

A pouco menos de 500 dias da abertura, a Olimpíada  acumula expectativas e apreensões alheias ao esporte. Assim indicam, por exemplo, os impasses políticos, técnicos e financeiros que atrasam as obras do Complexo de Deodoro, palco de 11 modalidades, e do recolhimento de lixo flutuante na Baía de Guanabara, palco do iatismo. Com orçamento de aproximadamente R$ 38 bilhões, distribuídos em demandas operacionais, instalações esportivas e estrutura urbana, os Jogos carregam a missão de deixar um legado – tangível e intangível – proporcional à façanha histórica e aos compromissos assumidos há seis anos, quando o Rio foi escolhido para inserir a América do Sul no mapa olímpico. Esta herança contabiliza R$ 25 bilhões, destinados a obras como o corredor expresso de ônibus BRT. Mobilidade é o principal desafio, avalia o economista Fábio Giambiagi, organizador do recém-lançado Depois dos Jogos – Pensando o Rio Pós-2016 (Campos/Elsevier). Se por um lado fracassou a meta de tratar 80% do esgoto despejado na Baía até 2016,  por outro revitalização do Centro e a ampliação da malha viária revelam-se contrapartidas animadoras. Podem dirimir, acredita Giambiagi, a maratona no trânsito que priva a cidade de R$ 13 bilhões anuais.  O presidente da Empresa Olímpica Municipal (EOM), Joaquim Monteiro de Carvalho, prevê até "transformações superiores" às de Barcelona", sede dos Jogos de 1992. "O Rio de Janeiro deixará de ser um lugar feito para a cultura de carros e passará a ser uma capital criada para pessoas", confia o executivo.

Em entrevista ao Portal, Monteiro de Carvalho e o presidente da rede C40 Cities, Rodrigo Rosa, projetam os benefícios urbanos, culturais e sociais da Olimpíada e expõem os desafios para que se confirme como "grande catalisadora de avanços" para o Rio. Coautores do artigo "O legado olímpico", assinado também por Jean Caris e publicado naquele mesmo livro, eles ressaltam a parcela do capital privado nas obras (60%, contra 20% em Londres 2012) e o planejamento de estruturas temporárias. Criadas para atender aos 17 dias de competições, vão se transformar, depois dos Jogos, em escolas e outros "espaços de utilidade pública", até em novo bairro. “O principal objetivo de todas as obras e investimentos é o homem”, afirma Rodrigo Rosa. Numa comparação com o Mundial 2014, Monteiro de Carvalho esclarece: "Diferentemente da Copa, não temos a pretensão de ser a Olimpíada das Olimpíadas. Os Jogos devem ser os melhores para as necessidades da cidade, fiéis ao cenário e à realidade brasileira. São estruturas sem luxo, que atendem às demandas olímpicas mas sem tapete vermelho".

Portal: O legado prometido foi uma das motivos oficiais que levaram o Rio a superar Chicago, Tóquio e Madri como sede da Olimpíada 2016. O Rio vai corresponder à expectativa e aos compromissos gerados?

Monteiro de Carvalho: A Olimpíada será muito mais que um evento esportivo. Estamos usando os Jogos como agente acelerador para transformar a cidade. Não só o Parque e os equipamentos olímpicos, mas a estrutura urbana. Diferente de Londres (2012), em que a concentração dos Jogos era no Parque Olímpico, no Rio há quatro áreas olímpicas. Essas zonas impactam diretamente 2,5 milhões de pessoas, em infraestrutura, transporte e saneamento. O Rio deixa de ser um lugar feito para a cultura de carros e passa a ser uma capital criada para pessoas. A transformação será maior que em Barcelona, ainda no imaginário das pessoas como os Jogos de maior legado. O Rio vem de uma curva de aprendizado muito profunda, depois do Pan, Rock in Rio, vinda do papa, Copa das Confederações, Copa do Mundo, e torna-se o espaço ideal para culminar nas Olimpíadas. São os Jogos da transformação, que mais beneficiarão uma cidade na história dos Jogos modernos.

Rodrigo: Há também os aspectos intangíveis: o sentimento de pertencimento do carioca e do visitante, que estimula as pessoas a fazerem a sua parte. Isso é transformador, pois permite que as mudanças ocorram e permaneçam depois da competição.

Portal: Cerca de R$ 24 bilhões são destinados às obras de infraestrutura e mobilidade. Paira sobre a ampliação da malha viária a expectativa de que seja o legado mais importante, pois o Rio, segundo o economista Fábio Giambiagi, deixa de produzir R$ 13 bilhões por ano com o tempo gasto no trânsito. Mas a Linha 4 do metrô, que ligará a Zona Sul à Zona Oeste, epicentro das provas olímpicas, e a Transbrasil não ficarão prontas a tempo. Que benefícios efetivos estarão concretizados no próximo ano?

Monteiro de Carvalho: Depois de 2016, mais de 60% da população será beneficiada com a melhora do transporte público. Por mais problemas que o Aeroporto Internacional tenha, é o primeiro do Brasil ligado ao transporte de massa. A Transcarioca e a Transoeste estão funcionando a todo vapor. Não são promessas. Já estão na rotina da cidade e beneficiarão um milhão de pessoas por dia no transporte, quando todas as trans ficarem prontas. No caso do metrô, não era uma promessa olímpica. O que havia era um BRs ligando a Praça Antero de Quental ao Parque. O governo estadual criou esse projeto do metrô. Deu certo, mas a responsabilidade de execução da obra é deles, e está em dia.  Já a Transbrasil não é para os Jogos, não estava no caderno de encargos.

Portal: Há algum atraso preocupante nas obras programadas?

Monteiro de Carvalho: Não. O mais difícil é orquestrar o todo: as quatro zonas olímpicas e os 33 equipamentos. O interessante é que 55% dos equipamentos olímpicos já existem. Só precisamos fazer os ajustes em termos de acessibilidade, segurança e iluminação. Vamos reutilizar e reformar o que já foi construído para os eventos anteriores. Ao contrário do futebol, que almejava ser “A Copa das Copas”, não temos a pretensão de ser "O Jogo dos Jogos". Eles devem ser os melhores Jogos para as necessidades da cidade. Não vamos gastar dinheiro como Pequim ou Londres, porque não somos um país de primeiro mundo. São Jogos bem fiéis ao cenário e à realidade brasileira, por isso, os Jogos do Legado. São estruturas sem luxo, nas quais o campo de competição atende às demandas olímpicas, mas não tem tapete vermelho.

Portal: O Projeto Rio 2016, apresentado pelo governo como o "maior legado social", pretendia ampliar a prática de esportes em 800 comunidades fluminenses e atender a 150 mil pessoas. A iniciativa, entretanto, foi abandonada. Isso influencia na credibilidade do Rio em cumprir as promessas olímpicas?

Monteiro de Carvalho: Na perspectiva da cidade, o legado intangível é enorme. Temos várias inciativas ligadas à educação, como os GEOs (Ginásio Experimental Olímpico), em Santa Teresa. O mais importante do intangível é mudar a cultura das pessoas. Será que faria sentido ter uma Olimpíada e as pessoas continuarem cuspindo chiclete na rua, furando sinal, jogando cigarro no chão e sendo desrespeitosas com as outras? Em Pequim, os chineses não sabiam fazer fila, mas aprenderam. Não existe nenhuma cidade no mundo com estrutura pronta para receber um evento dessa dimensão. Na infraestrutura, o Rio será uma grande inspiração para as próximas cidades olímpicas, mostrando que é possível atender aos requerimentos sem um custo exorbitante, principalmente, por parte do governo. No nosso caso, 60% do orçamento vem da iniciativa privada.

Rodrigo: O objetivo final de todas as obras e investimentos é o homem. Ao ampliar a rede de transporte, estamos melhorando a vida do cidadão que mora nas zonas mais distantes da cidade. Ao revitalizar o Porto, modificamos um lugar que estava abandonado e, consequentemente, tinha menos oferta de serviços públicos pelo baixo número moradores.

Portal: O senhor lembrou a Copa do Mundo, e a comparação é inevitável em alguns aspectos. Por exemplo, o governo esperava o Mundial adicionasse um ponto percentual ao PIB, o que não foi alcançado. Em termos econômicos, qual o tamanho do impacto da Olimpíada? Pode ficar abaixo também do esperado?

 Andressa Pessanha Rodrigo: Não, pois a nossa iniciativa tem como fim a melhoria da cidade. E a Copa do Mundo não foi frustrante. O número de sul-americanos que vieram para o Brasil até nos surpreendeu. Não há lugar melhor para fazer evento que o Rio de Janeiro. O termômetro agora é a alta procura por reservas em hotéis e a expectativa de cerca de 500 mil pessoas a cada jogo. Tenho a segurança de que a cidade estará bem animada ao receber turistas, movimentar a economia e ser o foco das atenções do planeta. Isso trará um retorno turístico de imagem e visibilidade que perdurará depois dos Jogos. Há uma cultura de entretenimento e realização de grandes eventos aqui. 

Monteiro de Carvalho: A vocação natural da cidade é o turismo: o Cristo é a sétima maravilha do mundo. O mundo tem uma curiosidade natural e inconsciente de conhecer o Brasil. Agora, há um motivo especifico para isso. Se não houvesse esses Jogos Olímpicos, será que duplicaríamos a capacidade hoteleira? É um grande catalisador de uma grande história. A maior festa a céu aberto do mundo é o carnaval. O maior réveillon do mundo é o de Copacabana. Já estamos familiarizados com isso.

Portal: E o legado esportivo?

Monteiro de Carvalho: Não faz sentido realizar os Jogos e deixar legado só para a cidade, como o piscinão da praça da bandeira, os BRTs e a revitalização do Porto. O campo de golfe, por exemplo, será o primeiro campo olímpico público do mundo. Apesar de ser um equipamento que vai atender à cidade e ao público, 100% dos investimentos do campo vêm da iniciativa privada. A Vila dos Atletas de Londres e a Vila dos Atletas de Pequim foram financiadas por recursos públicos. Todo esportista brasileiro carece de infraestrutura. Temos muito talentos para treinar e melhorar a performance nas próximas Olimpíadas. Todas as estruturas permanentes se transformarão em um Centro Olímpico de treinamento (COT), de responsabilidade do governo federal, que dará condições de os atletas treinarem. Fazer uma olimpíada não é difícil. Com dinheiro, você sobe as construções. O complicado, que deixa elefante branco é o pós, a manutenção de tudo. Isso que evitamos com muito sucesso.

Portal: Qual a estimativa de movimentação no mercado de trabalho gerada pela Olimpíada?

Monteiro de Carvalho: As previsões já mudaram muito. Mas há relações interessantes. A Vila Olímpica, na qual 10.500 atletas ficarão hospedados, é o maior projeto em curso da construção civil no mundo. Estão fazendo um bairro. São 31 torres e 3.600 quartos. Isso gerou uma quantidade enorme de empregos. Só o Parque Olímpico reúne quase 4500 funcionários. A construção da Linha 4 do metrô tem 8.000 funcionários. São fatores que aquecem a economia.

Rodrigo: O nível de investimentos que a cidade do Rio tem hoje equivale a padrões chineses de transformação humana. Seja na construção de bairros novos, do Parque Olímpico ou do próprio Porto, reconstruído em cima do que já existia.

Portal: A construção do campo de golfe remete ao projeto criado para evitar chamados elefantes brancos, espaços que depois da competição acabariam ociosos, como se fala do estádio de handebol. Essas mudanças podem ultrapassar o orçamento previsto?

Monteiro de Carvalho: Não, isso está incluído no contrato. Em Londres, a arena de basquete era temporária. Aqui é diferente. Transformaremos o equipamento olímpico em um instrumento para a cidade e, no caso da arena de handebol, no viés da educação. Esse estádio dará lugar a quatro escolas, cada uma para 500 crianças. Algo temporário durante as Olimpíadas, mas permanente para a cidade. É a primeira vez que isso acontece em uma sede. O desafio do Rio não é 2016, é 2017 em diante. O Brasil sempre foi o país do futuro, nunca havia um deadline. Mas com a Copa do Mundo e os Jogos, vem a luz no fim do túnel. 

Portal: Quais os maiores desafios no caminho desse legado que se espera?

Monteiro de Carvalho: Desafio é fazer a cidade acontecer. É o maior evento do mundo em termos de logística e operação. São 45 eventos todos os dias, infinidades de competições e campeonatos mundiais acontecendo na mesma hora. Isso demanda um planejamento exaustivo. Por isso, acontecem os eventos-teste, para fazermos os ajustes necessários.

Portal: A meta de despoluir 80% da Baía de Guanabara, como havia sido prometido em 2009, já foi oficialmente descartada. Será possível diminuir a contaminação e o lixo flutuante até os eventos-teste no palco do iatismo olímpico, em agosto?

 Andressa Pessanha Monteiro de Carvalho: Esse projeto da Baía de Guanabara é 100% responsabilidade do governo do Estado. Não cabe à prefeitura responder, mas estamos confiantes. É uma operação de ecobarcos, ecobarreiras, assim como foi feito no evento-teste de agosto de 2014, e foi um sucesso. Ninguém está despoluindo a Baía para os Jogos Olímpicos. É para o carioca.

Portal: Fora a ampliação da malha viária, o que se pode destacar efetivamente como herança dos Jogos?

Rodrigo: Seropédica, o Porto, os grandes investimentos, o sistema de controle de enchentes, essa visão de resiliência da cidade e o legado intangível: transformação cultural e social na vida das pessoas. Expansão da oferta do serviço de saúde para a população mais carente, melhorias dos indicadores educacionais. Não está no plano das Olimpíadas diretamente, mas se beneficia do aumento de receita da cidade. Dá uma melhor perspectiva gerencial. 

Monteiro de Carvalho: O grande exemplo disso é o Porto, no qual há uma requalificação da parte urbana. Hoje, moram 20 mil pessoaslá. Ao fim do projeto Porto Maravilha, temos a expectativa de mais de 100 mil moradores. A melhor forma de conservar um lugar é dando uso a ele. Quando existem habitantes, há mais restaurantes, hospitais, universidades, hotéis, há vida naquele lugar. A grande história dos Jogos 2016 é o antes e o depois.

Portal: Falando no pós-2016, como poderemos administrar o legado, para aproveitá-lo melhor, desenvolvê-lo ou, ao menos, não desperdiçá-lo?

Monteiro de Carvalho: O governo federal vai cuidar do legado esportivo. A manutenção das escolas é da Secretaria de Educação, a conservação dos BRTs é das empresas que fazem a gestão dos ônibus, e assim por diante. Tudo o que pensamos para os Jogos Olímpicos busca atender às competições esportivas e às necessidades da cidade. A empresa que está construindo infraestrutura, água, esgoto e energia do Parque Olímpico é a mesma que vai estruturar os posteriores condomínios residenciais e comerciais, correspondentes a 40% do Parque. Por isso, há o interesse na qualidade. Caso contrário, o custo de manutenção será dela. Essa companhia será responsável, durante 15 anos, por aperfeiçoar a área, sendo 60% dela, pública. Por exemplo, a população poderá fazer um piquenique em uma área de convivência, andar de bicicleta no Parque Olímpico e correr na Vila Olímpica.

Portal: O governo estadual prometeu plantar 34 milhões de árvores no Rio até o fim do ano para compensar possíveis impactos ambientais dos Jogos. Mas a iniciativa foi abandonada quando alcançou 5,5 milhões. O que será feito neste sentido?

Rodrigo: Essa compensação será feita de forma excedente pelos projetos que estão sendo desenvolvidos. O campo de golfe, mais uma vez, é um exemplo. A extensão a ser plantada é 6 vezes maior que a área adaptada para a construção do campo. Isso acontecerá de forma geral nos Jogos Olímpicos. Economizar dinheiro público é sustentabilidade. Quanto mais conseguirmos viabilizar a construção e a instalação esportiva com dinheiro privado, mais poderemos otimizar o recurso público para um fim maior do Estado, de administração pública, saúde, educação e proteção ao meio ambiente.

Portal: Que falhas observadas em Olimpíadas anteriores não podem ser cometidas novamente?

Monteiro de Carvalho: Um exemplo é o nosso estádio olímpico. Não estamos construindo um estádio olímpico do zero. Temos o Maracanã e o João Havelange, que já gastaram muito dinheiro. Por isso, pegamos o Engenhão.  Ele tem hoje 45 mil assentos fixos. Além dos ajustes na acessibilidade, segurança e coordenação, colocaremos mais 15 mil assentos temporários. Esse é o menor estádio olímpico desde Barcelona. Não precisamos de 80 ou 90 mil lugares. Por mais que a China seja uma potência, tem dificuldades para manter o Ninho do Pássaro. É difícil ter um calendário esportivo que dê uso a esse equipamento e equilibre essa equação.

Rodrigo: Isso economiza não só dinheiro, mas também recursos naturais, o que gera menos impactos ambientais. Hoje em dia, a bicicleta é o melhor meio de locomoção porque quase não polui, produz pouco congestionamento e traz benefícios de saúde para os usuários. Acho que o mesmo conceito vale para não construir um terceiro estádio.