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Rio de Janeiro, 28 de março de 2017


Cidade

"Rio é o melhor lugar do mundo para se viver", diz empresário

Davi Raposo - aplicativo - Do Portal

21/05/2015

 Paula Bastos Araripe

“O Rio é o melhor lugar do mundo para se viver”, declara, sem reticências, o empresário carioca Pedro Salomão, 35 anos. Formado em Administração pela PUC-Rio, o jovem e bem-sucedido empreendedor, diretor-executivo da Rádio Ibiza, foi um dos apoiadores de primeira hora do Rio, Eu Amo, Eu Cuido, movimento de voluntários que desde 2010 promove ações de cooperação e envolvimento da população com a cidade. Em entrevista ao Portal, concedida na sede de sua rádio, que fica num prédio escondido entre a Avenida Nossa Senhora de Copacabana e a Praça Sarah Kubitschek, Salomão fala sobre a iniciativa e convoca o cidadão carioca a viver a cidade. O futuro do empreendedorismo carioca, para Salomão, é aliar as funções do trabalho com o que a cidade tem a oferecer ao morador. Ele próprio, com intensa agenda como executivo e palestrante, praticamente só se locomove de bicicleta.

Portal PUC-Rio: Como você aderiu ao projeto Rio Eu Amo Eu Cuido?
Pedro Salomão: Fui o primeiro empresário convidado a participar da iniciativa [dos amigos Joaquim Monteiro de Carvalho, Gustavo Faria e Rafael Saladini]. Sempre fiz questão de vestir a camisa e declarar meu amor ao Rio. Entrei com uma ideia mais voltada para o empreendedorismo. Há 18 anos comecei neste universo do empreendedorismo, e a primeira coisa que costumo falar em minhas palestras é que isso não tem absolutamente nada a ver com abrir empresas. Empreendedorismo, por definição, é a capacidade de implantar uma ideia e transformar uma situação estática em consolidada. Isso é empreender. É uma experiência incrível, com pessoas talentosas, e que influenciou minha forma de encarar a cidade. Temos que ser mais otimistas. Afinal, somos uma metrópole repleta de problemas como qualquer outra do mundo.

Portal: Você acredita que o carioca perdeu a capacidade de pensar na cidade como “maravilhosa”?
Salomão: Não acho que tenha perdido, apesar de haver motivos para isso. Mas sou contra a manifestação “apontativa”. Isso, no século XXI, não existe mais. Manifestações e reivindicações devem ser propositivas. Se todo mundo está indo para a rua mas continua jogando lixo no chão, não pode questionar valores morais e éticos nos altos cargos. Se fossem às ruas para dizer: “Agora não estacionamos o carro na vaga de deficiente”, tudo bem. Mas sair de casa com faixas para dizer o que está errado? Todo mundo sabe o que está errado. Na realidade, o pior é o não-pertencimento a uma situação. Sabemos que temos um problema sério com a violência, e vejo muitas pessoas desqualificando ou estereotipando a polícia. Eu questiono: “Quando foi a última vez que você conversou com um policial?”. Ninguém responde. Eles passam despercebidos nessa sociedade. Poderíamos ser muito mais inclusivos, mas preferimos não pertencer.

Portal: Como aliou sua experiência como empresário ao empreendedorismo?
 Paula Bastos Araripe Salomão: Tenho uma forma de olhar a cidade como extensão do trabalho. Na Rádio Ibiza, criamos um conceito inédito de identidade musical, tudo no meio da crise do mercado fonográfico. Só pudemos abrir essa empresa porque foi no Rio. O jeitinho carioca, característica pejorativa, muitas vezes também é extremamente propositiva. A importância do jeito amigável do carioca, essa coisa do abraço, do beijo, que deu muito certo no Rio Eu Amo Eu Cuido. A adaptação do carioca também passa pelo seu ambiente de trabalho. Minha veia carioca, de ligação com a cidade, me trouxe uma vantagem na criação de minhas empresas. Trabalho com dois conceitos: ser feliz e fazer o outro feliz. Só de ser no Rio de Janeiro, qualquer empresa já deveria ser 50% feliz. Nosso horário no escritório é das 9h às 18h, quando expulso todo mundo, estimulo a curtir a cidade. Digo: “Você tem uma cidade que está te esperando”. Do outro lado do quarteirão tem uma praia, bicicletas, lugares para conhecer. Quando os empresários entenderem que a cidade é preponderante para o curso dos negócios, ninguém nos segura.

Portal: Você faz iniciativas próprias de melhorias no ambiente em que vive e diz que, se cada carioca fizer sua parte, teremos uma cidade melhor. É simples assim?
Salomão:
Acho que existiria uma mudança significativa na dinâmica do Rio. Muita gente me dizia: “O Rio é muito sujo”. Ninguém negava, e isso se tornava uma verdade absoluta. O Rio é uma cidade limpa. Se formos expandir para o conceito de capital, Nova York é uma cidade muito mais suja, com infestações de ratos. Istambul, então, nem se fala. As pessoas têm esse terrível hábito de falar mal sem conhecer todo o espectro. Acho que, se a gente cuidar da cidade como nossa e levantar a bandeira de algumas coisas importantes, transformamos uma visão de cidade.

  DivulgaçãoPortal: A Praça Sarah Kubitschek é um exemplo disso?
Salomão: Sim. A entrada do nosso escritório é pela praça. Toda vez que eu falava dela, alguém indagava: “É a praça do xixi, do cocô, do cracudo e do muro?”. Era sempre isso, só mudava a ordem. Um dia cheguei ao escritório e perguntei ao pessoal o que eles achavam da praça. A resposta foi a mesma. Aí perguntei a eles: “Quantas vezes na vida vocês já foram à praça?”. Eles nunca tinham ido. Ou seja, as pessoas falavam que era daquele jeito sem nunca terem entrado nela.

Portal: E quando ela virou algo diferente?
Salomão:
Um dia fiquei três horas sentado no banco da praça olhando para o muro. Não ouvi barulho de carros no meio da Nossa Senhora de Copacabana, porque o muro era tão eficiente que filtrava o som. Percebi também que estava um sol escaldante e não senti calor, porque a copa das árvores me dava sombra. Notei que a praça poderia ser boa. Bastava limpar a sujeira, afastar o cracudo, ocupar de forma adequada. Um amigo paisagista indicou que tipo de planta seria ideal para o muro e com qual a frequência deveríamos regá-la. Fiz as contas: se cada funcionário regasse as plantas duas vezes por ano, a praça ficaria transformada. Meus funcionários abraçaram a ideia. Um mês depois, a praça estava pintada, com rampa de acesso e plantas. A praça foi ressignificada.

Portal: E a Prefeitura, não foi acionada?
Salomão:
Uma hora o subprefeito nos chamou no seu gabinete. Achamos que era para reclamar das intervenções, mas ele elogiou a iniciativa e ofereceu ajuda do governo. A Rio Luz refez todos os painéis de luz, a Comlurb ajudou a pintar, a Secretaria de Conservação fez todos os canteiros, fizemos eventos como cinema ao lar livre e muitas outras coisas. O que eu fiz de inovador? Só tive vontade de olhar de uma maneira diferente. Se o carioca tiver essa vontade de olhar diferente para cidade e seus problemas, teremos uma cidade imbatível.

Portal: Que momentos do movimento Rio Eu Amo Eu Cuido você registraria?
Divulgação Botafogo  Salomão: Houve vários. Logo no começo, fizemos uma ação chamada “Vista Essa Causa”, inovadora na época, chamando 35 estilistas para criar uma coleção com a cara da cidade e com a renda destinada a obras e melhorias. Havia certa apreensão por reunir os estilistas, mas na reunião final, quando vimos todos aqueles profissionais tão diferentes juntos, foi algo surpreendente. Quando a gente releva as diferenças em prol de uma causa, quer dizer que tudo valeu a pena. Outro momento muito bacana foi quando os quatro grandes times de futebol do Rio, Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo, entraram em campo com a bandeira do Rio eu Amo Eu Cuido. Ver os jogadores entrando e passando a mensagem de amor e cuidado pela cidade foi incrível.
Como causa propriamente dita, o episódio que mais me causa orgulho foi que, depois de dois anos falando da conscientização do lixo, depois de tanto insistir, conseguimos conversar com o prefeito e veio a campanha Lixo Zero da Prefeitura. Acho que foi esta a maior conquista: levantamos uma bandeira e ela virou uma política pública. Fiquei dois anos intensos no movimento, que ganhou vida própria. Acumulei muitos projetos, e preferi me ausentar. A partir de então surgiram novas ideias, e mais pessoas começaram dar apoio. Atualmente tomo mais o lugar de torcedor, apaixonado pela cidade e pelo movimento.

Portal: Qual é a sua relação com o bairro de Copacabana?
Salomão: Eu adoro falar de Copacabana porque é algo enigmático. Copacabana tem todo tipo de carioca. O bairro tem a democracia altamente estabelecida. Aqui tem o preto, branco, pobre, rico: todos frequentam a mesma praia. Esse é o Rio essência; não o elitista e segregador. O nascer do Sol no Posto 6 é o mais lindo do mundo. Tem duas coisas muito fortes: a vista de Niterói, com aquele mar prateado, e a imagem dos pescadores saindo para pegar o barco e voltando depois. Aquilo tem algo a ver com minha fé e minha religião. Representa o trabalho, a labuta. O outro extremo tem o mesmo valor. Da Pedra do Leme você observa os Dois Irmãos, o Cristo Redentor, a Pedra da Gávea e, se olhar para trás, o bondinho. Copacabana é o nosso símbolo maior, nossa porta de entrada. Eu nasci no Posto 6, e joguei cinzas do meu pai no Posto 6. Meus bisavôs maternos, que eram libaneses, vieram para o Brasil e trabalharam no Centro do Rio. Logo que Copacabana começou a se formar como bairro, eles vieram para cá. Escolheram para viver. Minhas histórias de vida foram muito ligadas ao bairro. Minha mãe conta, por exemplo, que eu comecei a lutar artes marciais desde cedo porque ela achava bacana os Gracies passeando pelo bairro. Eu só podia ser apaixonado por esse bairro. Vem de sangue.