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Rio de Janeiro, 25 de junho de 2017


Cidade

"Prefeitura não pode limitar a criatividade do carioca"

Luisa Oliveira e Yasmim Restum - aplicativo - Do Portal

12/02/2015

 Yasmim Restum

Com o olhar firme por detrás dos óculos e um vasto repertório de tesouros da música nacional, o fundador e presidente da Banda de Ipanema, Cláudio Pinheiro, recebeu o Portal. Pinheiro, junto com os amigos Edimar José de Lima, nos trompetes desde 1998, e Ismael Zacarias de Oliveira, trombonista da banda desde 2009 (foto abaixo), contam o que viveram sob o ponto de vista de suas respectivas gerações e o que esperam do carnaval e as relações com o Rio. A Banda de Ipanema, que comemora seus 50 anos no dia 13 de fevereiro.

A promessa de um livro sobre o primeiro bem imaterial tombado da cidade do Rio de Janeiro veio acompanhada de críticas e avanços na gestão do carnaval de rua pela Prefeitura. “Depois de muita insistência, a RioTur hoje coopera com as negociações”, desabafa o presidente. Zacarias observa a ascensão de blocos com repertório de músicas estrangeiras, e com gêneros cada vez mais variados: “A mistura de ritmos é o carnaval do Rio. Recebemos muita gente de outros estados brasileiros e países. Os blocos de agora vão incorporar cada vez mais novos estilos de se fazer carnaval, mas sem deixar de tocar as clássicas marchinhas e sambas”, acredita o trombonista. Na opinião de Edimar, o carnaval de rua hoje compete com os desfiles do Sambódromo de forma equilibrada graças à tradição de blocos mais antigos, que são exemplo do espaço democrático, carnavalesco e emblemático das ruas, “criado e cultivado pelo carioca”.

 Yasmim Restum Histórias cruzadas

A Banda de Ipanema surgiu em 1965, um ano após o golpe militar. Nasceu para afirmar a alegria das ruas, segundo Pinheiro, que revela um episódio de censura.

– A ditadura ainda era branda em 1965, mas a censura era presente. No fim da década de 60, meados de 70 a Banda partia da Rua Prudente de Moraes e em frente à Rua Montenegro (hoje Vinicius de Moraes) era comum encontrar um batalhão de choque atravessado na rua para impedir a nossa passagem – conta o engenheiro formado na PUC-Rio.

Pinheiro ressalta o ambiente deserto e silencioso do bairro de Ipanema na época e destaca:

– A provocação vinha do aparato militar, mas a banda nunca baixou a cabeça para esse tipo de ostensiva porque sabíamos que estávamos promovendo uma simples manifestação popular carnavalesca. Isso demonstra como era novidade, na época, o carnaval na Zona Sul.

O lema da Banda de Ipanema, Yolhesman Crisbelles, levanta muita curiosidade acerca de seu significado. Reza a lenda que o produtor cultural Albino Pinheiro (1934-1999), irmão de Cláudio, teria pegado emprestada a frase de um morador de rua que transitava pela Central do Brasil, gritando o que seria o nome do anjo do juízo final.

– Tanto os militares como a imprensa conservadora da época acreditavam que o nosso lema era uma mensagem subversiva – diverte-se Edimar.

Pinheiro conta que o slogan deste ano “Rio, logo existo” é uma homenagem às histórias que a banda e a cidade maravilhosa viveram juntas:

– A história da Banda de Ipanema se confunde com a história do Rio, e vice-e-versa, o Rio não vive sem a Banda, e a Banda não vive sem o Rio. Muitas vezes tivemos o Rio como pano de fundo, a frase que está na nossa camisa “Rio, logo existo” é um reconhecimento da importância da cidade para nós. A gente brinca dizendo que são 450 anos do Rio mais 50 da Banda, então estamos comemorando 500 anos.

Do aluguel de terno aos papéis invertidos

 Luisa OliveiraA Banda de Ipanema tem a tradição de sair de branco: a camisa do bloco, com bermuda branca, é o uniforme clássico dos músicos. Entretanto, Cláudio Pinheiro relembra outros carnavais quando os músicos e demais integrantes chegavam a alugar ternos para desfilar. O presidente conta também de momentos emblemáticos de desfiles e reuniões no Jangadeiros, bar já extinto da Praça General Osório onde esboçaram-se as primeiras ideias que convergiram na criação da banda:

– Uma vez, o Hugo Bidet (na foto com Pinheiro, que mostra um registro de um antigo desfile), apareceu montado a cavalo no desfile. O Jaguar, humorista e cartunista e também um dos precursores da banda, se fantasiou de Censura, enfiou uma rolha na boca em protesto à ditadura.

E ainda conta um curioso caso de “alucinação coletiva”:

– Um dia em que a moçada estava lá no Jangadeiros, bebendo. Um dos músicos viu um coelho no salão, mas, por achar que era alucinação da bebida, não contou aos outros. Então, outro viu, vários viram, até que apareceu um cidadão e perguntou o que um coelho estava fazendo ali! Foi um alívio, porque todo mundo achava que estava alucinado vendo aquele bicho no salão.

A clássica subversão de papéis, com homens vestidos de mulheres e vice-e-versa, teve suas origens na antiga Mesopotâmia, mas no carnaval carioca foi a Banda de Ipanema que reascendeu a tradição. Mas não foi de primeira, relata Pinheiro:

– Na hora da reunião, uns vinte ou trinta se comprometeram a sair de mulher, mas na hora H, fui só eu e um amigo! Foi um vexame quando chegamos à General Osório! No ano seguinte o pessoal criou coragem: os homens todos de mulher.

Portal compareceu ao ensaio da Banda de Ipanema no último sábado, dia 24 (confira a fotogaleria), e conversou com um dos símbolos da história do carnaval de rua, J. Ruy, também um dos fundadores da Banda de Ipanema. Apesar do bom humor, J Ruy não se mostrou muito satisfeito quando foi interrompido por um policial militar que alertava para a necessidade de encerramento do ensaio, visto que a PM já tinha cumprido seu horário de permanência no local.

– O Estado não deveria se meter em manifestação popular, eles só deveriam fornecer proteção e os banheiros para preservar a higiene. Agora, para botar o bloco na rua precisa de aval da Prefeitura, Batalhão da Polícia, Secretaria de Turismo. E nem sei por que precisamos de Bombeiros, se nem carro de som para pegar fogo nós usamos – desabafa.

Sobre a incidência de brigas em bandas e blocos de carnaval, retrucou:

– A segurança somos nós, nunca teve briga na banda. E agora porque passaram 10 minutos ele quer acabar com a nossa festa, isso não é segurança. D. João não estabelecia hora para batucar, e olha que na época dele era monarquia, e não democracia!

Já para Pinheiro a prefeitura deveria incentivar a folia, e não limitá-la. Este ano, a abertura do carnaval não oficial (sem autorização para desfilar) da cidade se deu em forma de protesto na Praça XI contra o excesso de regras impostas pela Prefeitura aos blocos. Apesar dos quase 500 blocos autorizados, muitos perderam o prazo de inscrição ou não tinham verba suficiente para fixar uma parceria com a Prefeitura do Rio.

– A prefeitura hoje está ajudando os blocos e bandas. Eu acredito que essa parceria vai se estreitar. No entanto, a Prefeitura está equivocada em limitar as manifestações do carnaval de rua, quando na verdade ela deveria estimular. A Prefeitura não pode limitar a criatividade do povo carioca.

Para Edimar, trata-se de regras a serem cumpridas: “Nós temos o nosso horário, assim como os policiais tem o deles”. Já Zacarias defende a organização do evento, acredita que é necessário o policiamento, “senão vira bagunça”.

Os desfiles infantis como forma de eternizar a folia dos carnavais de rua

Apesar de imposições do Estado, o carnaval carioca tem se mostrado cada vez mais multicultural, abrangendo diversas pessoas de diferentes estados e idades, o que é visto como um considerável. No decorrer dos anos, a Banda conseguiu reunir pessoas de todos os âmbitos. Das crianças aos adultos a vontade de festejar é a mesma: “As crianças são nossas maiores fãs, e têm muito interesse por nós, há um fascínio pelos músicos”, garante Zacarias.

Organizadora do Gigantes da Lira, a atriz Yeda Dantas há 15 anos conta com a parceria do músico Edimar para promover o desfile infantil de Laranjeiras, a partir de uma recomendação de Cláudio Pinheiro, que já realizava o carnaval das crianças na Praça General Osório.

– Para os músicos, tocar para as crianças, mesmo bebês, é uma alegria enorme. Com certeza o baile infantil é mais animado e eu acredito que muitos outros blocos vão buscar a se dedicar mais às crianças. É uma forma de perpetuar o amor pelo carnaval de rua, eles são os futuros foliões! Tem músico que não gosta, mas é só não os deixar furarem os instrumentos – conta o animado trompetista da banda.

“Se a gente tivesse mantido a tradição do repertório de 50 anos atrás, a Banda não seria o sucesso que é hoje”, diz Cláudio Pinheiro

O presidente da banda admite que as mudanças no repertório são imprescindíveis para a manutenção do público, já que a eles atendem a um vasto número de pessoas e buscam agradar a todos, observa Zacarias.

– Evitamos músicas pejorativas. O grande público todo ano muda então às vezes pessoas de outros estados vem. Existem muitas músicas legais e famosas que deixamos de tocar porque não seguem o estilo da Banda, a gente procura sempre fazer com que todos brinquem e saiam satisfeitos – acrescenta o trombonista.

Já para Edimar, a fórmula do sucesso é um repertório eclético:

– A banda tem valsa, maxixe, xote, samba, até Anitta! Mas é tudo música brasileira. A incorporação de músicas que não são carnavalescas ao carnaval é uma tendência, porque as pessoas se identificam e isso agrega.

– Se tivéssemos mantido a tradição do repertório de 50 anos atrás, a banda não seria o sucesso que é hoje. A Banda tem um público muito vasto, tentamos agradar, mas temos os nosso estilo – alerta Pinheiro.

O músico Zacarias acredita que a tendência dos blocos é de criarem ramificações que levem à inserção de outros gêneros musicais a cultura do carnaval de rua.

– Essa mistura de ritmos, como o samba, a ciranda, o rock é o carnaval do Rio. Os blocos que vem agora vão incorporar cada vez mais novos estilos de fazer carnaval, mas sem deixar de tocar as clássicas marchinhas e sambas, acredita o trompetista.

Sobre os rumos do carnaval carioca, eles compararam com os desfiles de anos atrás e acreditam que a festa evoluiu muito e está se tornando mais democrática:

Edimar comentou o crescimento do carnaval de rua nos últimos anos, mesmo após a construção do Sambódromo. Para Pinheiro, grande parte da classe média foi “roubada” do carnaval de rua, atraída pela sofisticação que os desfiles das escolas de samba traziam. “A ascensão da Apoteose levou muita gente para lá na época, mas no decorrer do tempo o carnaval de rua evoluiu muito. Hoje em dia se vê gente brincando na rua que não está nem aí para desfile” – observa o trompetista.

O presidente da banda completa:

– Há quem esteja lá seguindo a banda, mas não ouve sequer o som de um clarim. A convivência faz a festa. O carnaval se tornou mais democrático.