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Rio de Janeiro, 25 de junho de 2017


Cidade

"Eles precisam saber o mal que fizeram", diz irmã de Schomaker

Paula Laureano - aplicativo - Do Portal

31/03/2015

 Paula Laureano

Desde a quarta-feira (25), a praça onde começa a Rua General Severiano, em frente ao campus Praia Vermelha da UFRJ, em Botafogo, leva o nome de Alex Schomaker Bastos, em homenagem ao estudante de biologia de 24 anos, assassinado em 8 de janeiro. Também nesta semana o Portal dos Procurados lançou um cartaz com recompensa de R$ 5 mil por informações que ajudem a identificar e prender os assassinos do universitário, morto com sete tiros numa tentativa de assalto no ponto do ônibus 434 (Grajaú-Leblon). Ele retornava para casa depois de jantar com a namorada no Shopping Casa&Gourmet, a 300 metros dali.

Foi a primeira conquista da família, que desde então espera solução para o crime e vem buscando a mobilização da população carioca contra a banalização da violência. “Enquanto os responsáveis não forem identificados, processados e julgados dentro da lei, não viveremos em segurança e com dignidade. A sensação de impunidade que predomina em nossa sociedade é que faz dos criminosos (leia-se: dos bandidos que nos apontam uma arma a cada esquina do RJ aos corruptos de todas as instâncias) tão prepotentes, tão bárbaros...”, comentou a advogada Olívia Fürst Bastos, irmã de Alex, em sua página no Facebook, ao compartilhar o cartaz do Disque-Denúncia.

 Reprodução Formada em direito pela PUC-Rio, Olívia é especialista em direito de família, e ganhou o Prêmio Innovare em 2013, por difundir no Brasil o método de práticas colaborativas, iniciativa de resolução de conflitos inovadora no país (leia mais em Arbitragem e mediação: alternativas para a Justiça). O trabalho para promover a paz em situações cotidianas e privadas ganhou nova dimensão com a tragédia familiar. Nesta entrevista ao Portal PUC-Rio, Olivia conta como a morte do irmão refletiu na sua vida profissional e de cidadã: “Se pegarem os assassinos do meu irmão, eu gostaria de participar de um círculo restaurativo, que funciona como uma mediação, uma forma de restauro, em que eu acredito. Não acredito na prisão, simplesmente. Eles precisam saber o mal que fizeram, quem mataram, o que causaram nas pessoas que estão em volta. Falta a conscientização”.

Portal PUC-Rio Digital: Seu trabalho tem como objetivo alcançar acordos que promovam a paz. Ao mesmo tempo, seu irmão foi vítima de um ato de violência. Que impactos essa tragédia teve para a sua vida profissional?
Olívia Fürst Bastos:
Reforçou o que eu penso, o sentido do meu trabalho, de que precisamos, primeiro, assumir a responsabilidade pelos nossos atos e ter autonomia para fazer nossas escolhas. Isso nada mais é do que um exercício de cidadania. Se algo está errado é nossa tarefa, é nosso dever, transformar essa realidade. Afinal, somos cidadãos com capacidade crítica, senhores de nossa história, e podemos assumir responsabilidades por atos ou omissões. Então, quando a gente decide não ir à luta, não dizer o que a gente pensa, não transformar a realidade, nós estamos assumindo a consequência disso. Eu trabalho ajudando pessoas a se divorciarem com autonomia e responsabilidade. Eu acredito no protagonismo das pessoas, no protagonismo do cidadão. O cidadão é o dono da rua, é ele que tem que ocupar o lugar e dizer como deve ser. Não pode ser um coadjuvante da sua própria história, na sua própria cidade.

Portal: Sua família está processando o Estado. Seu pai, o jornalista e ativista de direitos humanos Andrei Bastos, escreveu que medidas simples, como a poda de árvores e a iluminação, teriam impedido a morte de Alex. Você já tinha esta visão de que somos consumidores de segurança, por exemplo?
Olívia:
Eu não sei se a palavra é consumidor, porque quando consumo eu posso escolher de quem eu quero consumir. No caso do Estado, nós elegemos um representante e viabilizamos o trabalho dele pagando os impostos, para que ele administre o que é nosso. Nós não estamos consumindo; nós já somos donos. O Estado é um servidor público, que serve ao público. A rua é nossa. A escola pública é nossa. Ela está aí para ser usada. O sistema de saúde, os hospitais, a iluminação, o banco da praça é nosso. Nós pensamos que a coisa pública é de ninguém. O que não temos em nossa cultura é a relação de que a coisa pública é nossa, e isso faria com que nós exigíssemos mais a resposta dos servidores de cuidar daquilo que é nosso.

  Paula LaureanoTemos que andar e encontrar uma praça limpa, iluminada, não só porque você pode ser assaltado, mas porque é higiênico. E o movimento que estamos fazendo de transformar o lugar onde o Alex foi assassinado em um lugar de luta, de paz é, justamente, para sinalizar que a rua é nossa. Temos que ocupar e dizer o que queremos, precisamos mostrar a mudança que queremos ver na nossa cidade, na nossa sociedade, que simbolize a nossa capacidade transformadora, o exercício pleno da cidadania. Começa na postura individual: “Eu sou uma pessoa autônoma, não sou uma vítima, uma engrenagem de uma máquina, eu assumo a responsabilidade pelos meus atos”. Então, autonomia e responsabilidade são dois temas muito caros para mim, que me mobilizam, me fazem fazer o que eu faço.

Portal: Como era a sua relação com a violência do Rio antes da tragédia com o seu irmão? Você acredita que essa conjuntura pode mudar?
Olívia
: Eu também sempre andei na rua, ando de ônibus desde os 10 anos de idade, e eu me lembro de sentar no carro dos meus pais e a primeira coisa que eu fazia era abrir a janela até embaixo, e andar com o vento na cara. Eu achava aquilo maravilhoso, mas minha filha nunca fez isso, e nunca vai fazer. Já vivi assaltos, nada muito traumático, nunca tive uma arma apontada para mim, mas sei que as pessoas vivem coisas bárbaras pela cidade. Hoje, isso me preocupa, principalmente porque quando temos filhos nos sentimos mais expostos. Agora, então, com o que aconteceu com o meu irmão, eu vivo um conflito interno o qual eu preciso mediar. Porque parte de mim acha que eu tenho que lutar, que transformar e descer as grades, enquanto outra parte de mim sente muito medo. Tem horas em que fico muito triste e preocupada, pensando se realmente eu devia continuar morando no Rio ou se deveria me mudar para um lugar mais tranquilo, onde possa criar meus filhos sem tanto medo, sabe? Quando estou no sinal de trânsito e passa um motoqueiro, tenho sobressaltos.

Eu vejo a violência como a ponta de um processo, de uma estrutura social ineficiente – que faz com que as crianças não tenham escolas, daí não tenham uma boa formação. A polícia só atua nessa ponta do processo. A nossa luta é por educação, por trabalho, informação, distribuição de renda, participação social – a questão de segurança não é um caso de polícia, começa muito antes. Por isso o (secretário de Segurança Pública José Mariano) Beltrame não dá conta, porque ele apaga o incêndio, mas há incêndio em toda parte!

Se pegarem os assassinos do meu irmão, eu gostaria de participar de um círculo restaurativo, que funciona como uma mediação, uma forma de restauro, em que eu acredito. Não acredito na prisão, simplesmente. Eles precisam saber o mal que fizeram, quem mataram, o que causaram nas pessoas que estão em volta. Falta a conscientização. Essas pessoas vêm em uma linha existencial, meu irmão vem em outra, eles se chocam, acontece esse episódio catastrófico, meu irmão morre, eles seguem a vida deles. De onde eles vêm? Que oportunidades eles tiveram? Em que ambiente eles cresceram? Para onde eles vão depois daqui? Não para justificar o que aconteceu, mas para a gente entender que isso é a ponta de um processo. Eles precisam para se restaurar e voltar a sociedade, depois de cumprir pena, de consciência, autonomia e responsabilidade, precisam conhecer as consequências daquele ato. Precisam tomar conhecimento do que aquele ato deles causou. O que acontece na nossa sociedade é que eles se chocam, acontece a morte e eles são isolados do convívio social. Nunca vão conhecer os pais do Alex, os irmãos, os amigos, os projetos. Esse isolamento não traz nada para ninguém na nossa sociedade.

Portal: Também na cidade do Rio há relações complicadas, como entre polícia e cidadãos. É possível se apropriar das práticas colaborativas para mediar essa relação?

Olívia: Eu acho que sim, e conheço alguns projetos no Rio que promovem um treinamento, uma capacitação e uma mediação nas UPPs, de forma que o policial, que é justamente a figura que está ali para proteger, tenha mais habilidade, mais ferramentas para lidar com as situações de conflito que se apresentam diante dele. Eu tenho um pouco de dificuldade de pensar na polícia e no cidadão como “nós” e “eles”. A polícia e o cidadão estão inseridos em um sistema. Certamente, nós temos muitos problemas de corrupção e a polícia, muitas vezes, é agressiva. Mas estamos no mesmo barco, e a mediação é um processo de aproximação em que todos ganham. Nós precisamos incorporar esse tipo de ferramenta na nossa vida prática, familiar, individual.

Portal: De onde surgiu o interesse pelas práticas colaborativas? Você é uma pessoa pacífica? Como é você lidando com os próprios problemas?
Olívia Fürst Bastos:
Meu temperamento é pacífico. Eu sempre resolvi as coisas por meio do diálogo, da simpatia, tentando compreender o outro lado. Eu venho de um ambiente familiar pacífico. Embora meus pais tenham se separado quando eu tinha 2 anos, nunca os vi brigando. Apesar do divórcio eles foram amigos, e eu cresci podendo transitar entre os dois espaços com muita leveza. Meu pai frequentava a minha casa e eles conversavam, sem confundir as questões conjugais com as questões parentais. Eu vivi na minha casa essa multiplicidade dos meus pais: novos casamentos, madrasta, padrasto, irmãos pra cá, irmãos emprestados pra lá, sempre com muita leveza, muito amor, muita naturalidade. Isso faz parte da minha história, eu venho de uma história positiva.

Relembre o caso

Reprodução do Facebook  Na noite da quinta-feira 8 de janeiro, o estudante de biologia Alex Schomaker Bastos, de 23 anos, foi jantar com a namorada e amigos no restaurante Outback, no Shopping Casa & Gourmet. No ponto de ônibus, esperava o 434 para voltar para casa, no Flamengo. Dois jovens numa moto anunciaram um assalto. Um deles achou que Alex reagira e disparou sete tiros, antes de fugir sem nada levar. O jovem foi levado para o Hospital Rocha Maia, a cem metros dali, mas não resistiu. Ele estudava biologia no Campus da Ilha do Fundão, e sua formatura seria no mês seguinte.

Família e amigos promoveram atos públicos em homenagem ao estudante no local em que ele foi assassinado. O ponto de ônibus foi pintado de branco para simbolizar a paz, e ganhou cartazes, refeita depois que a Secretaria de Conservação da prefeitura removeu a pintura e as faixas, no dia 20 de fevereiro. No dia 1º de março, dia do aniversário dos 450 anos da cidade, houve novo ato no local.

Mausy Schomaker e Andrei Bastos anunciaram que vão processar o Estado, pedindo não indenização, mas que o Estado assuma que Alex foi vítima da falência do governo. A praça onde fica o ponto de ônibus na Rua General Severiano não contava com iluminação ou policiamento, mesmo com criminosos atuando na região frequentemente.

Reprodução  Cobrado pela família de Alex, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, se comprometeu a manter um carro da polícia no local. O prefeito do Rio também recebeu Mausy, Andrei e Olívia no Palácio da Cidade, quando prometeu batizar a praça de Alex Schomaker Bastos, e dar a ela nova iluminação, um jardim, equipamentos de ginástica e tratamento paisagístico. O prefeito concordou com a necessidade de dar efetiva utilidade ao espaço. Nos encontros com Paes e Beltrame, a família ressaltou que, se o Estado estivesse presente, com uma iluminação correta, podando árvores e mantendo o espaço em mínimas condições, provavelmente Alex não estaria morto.

De acordo com a Divisão de Homicídios da Polícia Civil, “as investigações estão em andamento e o delegado prefere não divulgar mais informações, para não prejudicar o trabalho”.

O Disque-Denúncia recebe informações sobre os criminosos por mensagem de texto, vídeo ou fotos para o aplicativo de mensagens do WhatsApp do Portal dos Procurados (21) 96802-1650, ou, para quem estiver fora da capital, pelos números (21) 2253-1177 e 0300-253-1177.