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Rio de Janeiro, 19 de outubro de 2017


Cidade

"Ativismo midiático nas favelas do Rio ainda é seletivo"

Davi Raposo e Juliana Reigosa - aplicativo - Do Portal

11/05/2015

 Arte: Davi Raposo

Impulsionado pelas novas tecnologias, o chamado ativismo midiático ganha favelas do Rio. Recursos digitais e práticas interativas dão voz a moradores dessas comunidades, que reivindiquem direitos para um público mais vasto. Campanhas na internet, como “Eu não mereço ser assassinado”, mobilização pela morte do dançarino Douglas Rafael Pereira da Silva, o DG, transformam redes sociais em ferramentas úteis à representação política. Contudo, tais inciativas, ao menos boa parte delas, revelam-se ainda seletivas e efêmeras, ressalva a professora de Linguística e Comunicação de Mídia da Queen’s University de Belfast Andrea Mayr – cujos estudos serão debatidos no seminário Photojournalism and Media Activism in the Favelas of Rio de Janeiro, nesta quinta-feira (14), na PUC-Rio (mais informações no quadro no fim do texto), do qual também participará também a pós-doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da PUC-Rio Alice Baroni. De acordo com Andrea, que se dedica a pesquisar a cobertura da violência pela mídia carioca, "o sensacionalismo contamina o noticiário brasileiro, com corte de imagens e falta de discussão sobre os problemas".

Andrea tem se aprofundado em estudar o tratamento feito pela grande imprensa de assassinatos em favelas. Em recente pesquisa de campo na Favela da Maré, Zona Norte carioca, a especialista analisou a cobertura jornalística da morte de DG – durante ação de policiais da UPP Pavão-Pavãozinho, em abril do ano passado – sob a ótica do jornal Extra. Em solidariedade à morte do dançarino, o ativista social René Silva postou, no perfil pessoal no Facebook, foto em que segura um cartaz escrito “Eu não mereço ser assassinado”. A imagem foi viralizada na internet. Tornou-se campanha com milhares de adeptos nas redes sociais. Para Andrea Mayr, alguns elementos, em especial, contribuíram para tamanha visibilidade:

– O contato direto do olhar com quem observa a imagem, o ângulo da câmera mostrando só o rosto da pessoa, a expressão séria de René Silva e a mensagem simples no cartaz são fundamentos que evidenciam como uma imagem aparentemente rudimentar pode ser tão poderosa e conquistar espaço na web e, consequentemente, nos jornais diários – avalia.

A pesquisadora pondera, no entanto, que campanhas do gênero na internet mostram-se ainda sijeitas à lógica de mercado. Boa parte dos casos é escolhida pela visibilidade adquirida em mídias tradicionais, enquanto outros permanecem no escuro:

– O caso do DG foi escolhido porque ele trabalhou no programa Esquenta!, da TV Globo. Por outro lado, o jovem Edilson da Silva Santos, morto durante os protestos no Pavão-Pavãozinho, quase não foi mencionado na cobertura da mídia. Ele tinha problemas mentais e não era visto como notícia – compara a pesquisadora.

 Paula Bastos Araripe Ainda de acordo com Andrea, lógica semelhante foi observada no caso do ajudante de pedreiro Amarildo Dias de Souza, cujo desaparecimento, em julho de 2013, depois de ter sido detido por policias militares na Rocinha, na Zona Sul, tornou-se nacionalmente conhecido. “Amarildo foi transformado em ícone do movimento de protestos no Brasil e no exterior. Havia outro homem morto pela polícia, mais ou menos na mesma época, na Zona Norte, que virou apenas mais um exemplo para as estatísticas”, reforça.  

A pesquisadora alerta para o risco de a fotografia, da imagem, ser usada para distorcer a realidade: “Muitas inverdades podem ser disseminadas, se não forem analisadas corretamente”, lembra. Para ela, um dos símbolos desse "poder" é foto de um jovem com rifle nas mãos compartilhada nas redes sociais, identificado erroneamente como Douglas Rafael da Silva. Apesar de o Extra ter esclarecido que a foto não era da vítima, ainda assim, constata Andrea, o estigma continuou nos comentários dos leitores na página eletrônica do jornal.

“Protestos off-line têm uma grande chance de mudar as coisas”

 Embora uma parcela dos ativismos midiáticos crescentes nas favelas cariocas seja ainda seletiva e efêmera, a pesquisadora da Queen’s University de Belfast ressalta que as redes sociais tornaram-se uma ferramenta proveitosa para dar voz a moradores. Constroem oportunidades para chamarem a atenção, sobretudo, a violações dos direitos humanos e para apresentarem "o lado deles da história":

– As redes sociais dão mais visibilidade aos moradores das favelas. Ao permitirem o retorno informações dadas pelas mídias tradicionais, possibilitam um maior impacto na divulgação dos fatos. Ao mesmo tempo, essas ferramentas ainda permitem que as pessoas das favelas destaquem muitas coisas positivas, como atividades culturais, políticas e festividades – acrescenta.

Andrea acredita, entretanto, protestos off-line "têm mais chances de mudar a realidade nas favelas cariocas" do que o ativismo midiático por meio de campanhas na internet:

– O uso das redes sociais como forma de ativismo midiático é importante, mas não mais do que sair às ruas e protestar – ressalta. 

Seminário na PUC promove discussão sobre ativismo midiático nas favelas do Rio

O seminário internacional Photojournalism and Media Activism in the Favelas of Rio de Janeiro, com Andrea Mayr e Alice Baroni, discutirá o modo como os jovens das favelas apropriam-se das redes sociais para o ativismo midiático. O encontro será em inglês e português, nesta quinta-feira (14), na sala K102, das 13h às 16h. Cada participante receberá um certificado.

 Divulgação De acordo com Alice, as pesquisadoras falarão sobre os espaços de visibilidade e invisibilidade na mídia hegemônica e ativista, além de relações de poder que perpassam essa produção discursiva. “Vamos debater também a pesquisa de campo que estamos realizando com os fotojornalistas da mídia hegemônica para compreender a transição de uma cobertura do crime e da violência através da produção de representação visual de violência explícita, para uma produção de representação simbólica da violência que ocorreu nos anos 1990”, reforça.

Coautora do livro The Language of Crime and Deviance: An Introduction to Critical Linguistic Analysis in Media and Popular Culture, Andrea aborda como o discurso midiático sobre crimes e criminosos pode influenciar a representação social dessas pessoas e atos. A pesquisadora britânica, além de analisar o papel da mídia na divulgação e cobertura de crimes, desvios sociais e processos judiciais criminais, tem trabalho na área de criminologia.

Já a jornalista brasileira Alice Baroni, doutora em Filosofia pela Queensland University of Technology, é autora do artigo The favelas through the lenses of photographers: Photojournalism from community and mainstream media organisations e coautora de Narrativas do cotidiano nas favelas do Rio de Janeiro: tentativas de construção de valores-notícia alternativos pelos fotógrafos populares.