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Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 2017


Campus

Especialistas debatem papel da imagem na história brasileira

Luisa Oliveira - aplicativo - Do Portal

26/08/2015

 Paula Bastos Araripe

A história de três presos políticos brasileiros é reconstituída a partir de retratos e documentos obtidos pela Comissão Nacional da Verdade e pela documentarista Anita Leandro pessoalmente com militares para o filme Retratos de investigações, que registra a reação dos ex-guerrilheiros Antônio Roberto Espinosa e Reinaldo Guarany perante suas fotos no momento da prisão por agentes da repressão, 50 anos após o fim da ditadura. Fruto de uma pesquisa de cinco anos, o longa, que estará em cartaz a partir de terça-feira, dia 1 de setembro, no Cine Arte UFF, foi um dos motes do seminário Imagens em disputa, promovido pelo Departamento e pelo Programa de Pós-Graduação de Comunicação Social da PUC-Rio, com participações de professores de outros departamentos e instituições, de terça a quinta-feira na 102K.

Presente à mesa de quarta-feira, a documentarista afirmou haver três disputas na montagem do filme: “a disputa entre imagens, com imagens e pelas imagens”:

– Encontrei vários documentos falsificados pelos torturadores. Falam muito mais da polícia do que das pessoas retratadas. Minha grande preocupação era: como trabalhar essas forças sem que elas se anulem na montagem? Há uma disputa entre o cenário e o visual, entre a informação e a falta de informação, entre a política e a época do testemunho – conta Anita. – Muitos destes arquivos foram expropriados sob tortura, feitos à revelia, sob um dispositivo de controle e observação, pois estavam confinadas em delegacias, agências de repressão e em pertences dos militares. Mesmo com a redemocratização no país, só consegui ter acesso às imagens em 2012.

 Paula Bastos Araripe  Anita também mostrou aos ex-perseguidos fotos de colegas que não sobreviveram. Com a memória despertada por fotos de arquivo, Espinosa fala sobre Chael Schreier, com que conviveu na prisão; e Guarany, sobre Maria Auxiliadora Lara Barcelos, a Dôra, com quem viveu em Berlim. Dôra, ou Dodora, que integrou o movimento Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), foi presa em 21 de novembro de 1969, aos 24 anos. Exilada em 1971 no Chile, conseguiu asilo político na Alemanha em 1974. Em 1976, suicidou-se nos trilhos do metrô de Charlottenburg, Berlim Ocidental. Um relato de Dôra em áudio, sobre as torturas que sofrera na prisão, está no trailer do documentário: “Eu fui colocada nua num sala, com cerca de quinze homens da polícia. Fui espancada, me golpearam com bofetadas, cerca de vinte bofetadas em todo o rosto. Me deformaram todo o rosto. Eles falaram que queriam mudar meu rosto. Depois disso colocaram uma música numa altura impressionante, música de macumba, e à medida que tocavam a música espancavam meus companheiros e a mim. Estavam completamente excitados e alegres, como se fosse uma festa”.

“Imagens são documentos e devem ser tratadas como tais”

O encontro, que teve como tema Montagem, temporalidade e versões da memória no cinema, trouxe ao debate a importância da imagem para a história. O professor de História da PUC-Rio Maurício Parada destacou o valor histórico de cartazes produzidos por exilados que foram deportados para Itália, Suécia e Bélgica entre os anos 1960 e 80. Estas obras são parte de uma coleção que está na PUC-SP e foram publicadas recentemente:

– Mesmo com variações em termos estéticos, de algum modo, contam uma história muito interessante da resistência ao Estado autoritário, denunciando a violência no Brasil naquele momento e também discordando do imperialismo propagado pelos Estados Unidos.

 Cartaz Belga: Divulgação  Ele ainda ressalta que os cartazes tornaram-se motivo de perseverança entre os opositores da ditadura, principalmente por causa da repressão:

– O cartaz tem uma presença muito interessante e seu uso é encontrado desde a Revolução Francesa, servindo de mobilização do exército popular francês. Mas acho importante a ideia do cartaz como veículo de rápida circulação e divulgação, capaz de construir redes, acervos, registros sequenciados e organizados. Ele transita com facilidade, pode ser dobrado, amassado, desfeito... De alguma forma, possibilita a circulação de ideias de um jeito muito voraz. Virou uma resistência aos opositores da ditadura, mesmo que o aparato e decisão de todo o sistema ditatorial estivesse nas mãos dos militares, incluindo civis ou não. Hoje, os cartazes são fontes de memórias importantes e podem ser abertos à pesquisa e à discussão.

O professor ressaltou ainda a herança deixada pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), que tinha, entre outros objetivos, controlar e reprimir movimentos políticos e sociais contrários ao governo, além de “assegurar e disciplinar” a ordem no país:

– O Dops não se desfez no período de redemocratização. Perdura até hoje em suas derivadas ramificações. A experiência da violência política do Brasil deve ser pensada profundamente, é algo que não parou. Essa hostilidade tornou-se linguagem ao longo do século XX, e é impressionante como isto se tornou comum na sociedade contemporânea.

Filmes nacionais e seus “heróis”

 Paula Bastos Araripe  Doutor em Ciências da Comunicação, Eduardo Morettin ressaltou a importância do debate: “Em tempos de crise, realizar um evento como este é motivo de resistência”. O professor de História da USP destacou a produção de filmes nacionais e suas peculiaridades nos anos 1970, quando se observa uma tendência a estimular a produção de filmes que enaltecessem os “heróis da pátria’”.

 – Como mostra estudo de Tunico Amâncio, em janeiro de 73 a Embrafilme pensou em estimular a produção de filmes culturais, a partir de prêmios conferidos a adaptações cinematográficas.

Ele lembra que, mesmo com investimentos estatais para alavancar a produção cinematográfica nacional, várias obras foram censuradas.

São Bernardo, de Leon Hirszman, adaptado da obra de Graciliano Ramos, ficou retido na censura por sete meses e foram exigidos cortes que o diretor não aceitou fazer. O fato de o filme ter recebido em 1973 o prêmio Margarida de Prata, oferecido pela CNBB, criou um cenário favorável para que nova investida junto à censura federal fosse feita a fim de que a liberação ocorresse. A demora foi fatal para a produtora Saga Filmes, que entrou em processo de falência, dificultando o retorno de Hirszman às filmagens por vários anos. Em 75, a Embrafilme passa a coproduzir filmes históricos destinando a eles verbas especiais. Desse processo, o único que se realizou foi Anchieta José do Brasil, de Paulo César Saraceni, que se distancia do culto cívico aos heróis. O filme foi fracasso de critica e de público, contrariava a politica institucional e a historia como se queria. Anchieta demonstra de maneira exemplar as tensões entre as tentativas de controle por parte do Estado na produção cinematográfica e às propostas estéticas de cineastas e críticos ao cinema clássico e ao filme de gênero, estes mais afeitos à celebração idealizada.

 Paula Bastos Araripe  Morettin destacou ainda a importância do historiador, tanto nas artes visuais como na didática na produção de longas: “Cinema e livro didático são importantes na construção histórica e a restabelecer a memória”.

Cultura do esquecimento

Maurício Parada também comentou que, em um cenário de crise política, econômica e ética, brasileiros tenham clamado pela volta dos militares em recentes manifestações. Para Parada, isto é reflexo de um “esquecimento”:

– Esses pedidos são um silêncio do que foi o período extremista no Brasil. Um esquecimento. A população precisa conservar o debate e os discursos, isso é o que torna a sociedade saudável.

Assista ao vídeo do debate.

Na terça, foram exibidos curtas-metragens. Saiba mais sobre o seminário.