Projeto Comunicar
PUC-Rio

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Rio de Janeiro, 25 de junho de 2017


Campus

Adesão crescente de alunos de outros estados amplia a diversidade cultural da PUC-Rio

Paula Laureano, carioca; e Luísa Oliveira, pernambucana - aplicativo - Do Portal

14/04/2016

 Rodrigo Beser Muzambinho, de onde veio Pedro Poscidônio, é a típica cidade do interior de Minas Gerais: há uma igrejinha em volta da praça, e “todos se conhecem, com queijinho e café”. Apaixonado por cinema, arte, animação, Pedro sentia que precisava desenvolver essa paixão em outro lugar, e escolheu a PUC-Rio para estudar cinema pela infra-estrutura do curso e pelos modernos equipamentos. Além disso, teve direito a bolsa de estudos pelo ProUni: “Amo muito a minha cidade natal, mas lá eu não ia encontrar ferramentas para crescer nessa área”, diz o estudante de 21 anos.

 Já a cidade de Taigra Mendes, 25 anos, é Porto Velho, capital de Rondônia: “É no Norte, perto do Acre, embaixo do Amazonas. Não é Roraima, as pessoas confundem”. Povo muito diverso, misturado, fruto da migração ocorrida na construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré – “Tem gente da Paraíba, do Maranhão, do Sul...” –, os habitantes de Porto Velho passam por dificuldades características da região, como a cheia do Rio Madeira, que atingiu 170 famílias este ano. Em 2014, 97 mil pessoas foram afetadas pela enchente, sendo que 35 mil ficaram desabrigadas.

 Pedro e Taigra são dois legítimos representantes da pluralidade regional na PUC-Rio, instituição carioca mas aberta aos sotaques de todas as estrelas da república federativa. Nos últimos anos, tem havido aumento gradativo de alunos de outros estados. No curso de Comunicação Social, em 1995, apenas 42 dos então 930 alunos do curso (4,51%) eram oriundos de outros estados (veja ao lado). Em 2015, foram 221 entre os 1.959 alunos matriculados, ou 11,28%. E, mais do que isso, a diversidade cresceu, subindo de seis para 21 estados. Agregar na PUC-Rio jovens de todas as regiões do país é uma conquista trazida, principalmente, pelo Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem:

Arte Paula Bastos Araripe  – Como a PUC utiliza o Enem, muitos estudantes podem optar pelo cadastramento da nota do Exame Nacional. Isso é frequente na maioria dos alunos de outros estados, pois assim eles não precisam viajar para fazer a prova e podem concorrer a vagas com as suas respectivas notas, são admitidos pela nota e desempenho no exame – observa Paulo Albuquerque, da Diretoria de Admissão e Registro (DAR).

Além do Enem e bolsas que a PUC disponibiliza, o vice-reitor comunitário, professor Augusto Sampaio – que entrou na PUC em 1962 como aluno e trabalha na instituição há 47 anos –, destaca também a influência do ProUni. Em 2014, o Programa Universidade Para Todos teve cerca de 7.700 bolsas no Estado do Rio, realidade que também reflete no cotidiano da PUC:

Arte Paula Bastos Araripe

Arte Paula Bastos Araripe  

 

– Todos esses programas, o ProUni, as bolsas, e também o PUC por um Dia (leia abaixo), a Mostra PUC, influenciam essa abertura da PUC para todos, algo que não existia. Hoje, há todas essas possibilidades. Essa troca de experiências com alunos de outros estados é ganho de informações. Essa convivência engrandece, nos faz conhecer melhor o Brasil, o lugar em que vivemos. Enriquece a vida dos jovens e a nossa vida universitária como instituição.

  Em 2012, o paranaense de Apucarana Francenilson Klava, de 19 anos, o Nilsinho, passou pelo vestibular e conseguiu se inscrever no Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Já havia visitado o Rio de Janeiro, quando se apaixonou pela cidade. Sabia que iria cursar jornalismo na PUC, a sua primeira opção, pela estrutura, pela orientação católica, como todos os seus colégios, e pela oferta de bolsa. Mas não sozinho, veio com a “mãezinha”, com a irmã e o irmão. “Paizinho” ficou, por causa do trabalho: “Sempre fui muito apegado a mãezinha e minha irmã, que fez contabilidade na PUC-SP, ela queria trabalhar em uma multinacional”.

O uso da nota do Enem foi o recurso usado pela estudante de jornalismo Aline Rípoli, 29, estagiária do Projeto Comunicar e natural de Sabino, interior de São Paulo: “Quando me decidi por jornalismo, eu tinha opção de São Paulo ou Rio. Passei com minha nota do Enem e escolhi a PUC porque, para jornalismo, não tem melhor aqui no estado. No Brasil temos boas faculdades, mas a PUC é excelência mesmo”

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A mineira Izabela Antunes entrou na PUC via Enem, e também garantiu o Prouni. Ela é de Muriaé e sempre quis morar em uma cidade com praia, mesmo um pouco receosa com a mudança: “Eu tinha muito medo, achava que o Rio de Janeiro ia me engolir”.

  A estudante Yulli Dias também é de Minas Gerais, mas da capital, Belo Horizonte. Yulli fica indignada quando acham que ela morava em fazenda, que tirava leite de vaca: “BH é cidade grande, gente!”. E compara as duas capitais: “Vida noturna no Rio é praticamente todos os dias. Lá é mais fim de semana mesmo, e ainda assim, tudo começa e acaba terminando mais cedo. Esse trem de virar a noite é coisa de carioca, mineiro só conhece isso quando viaja.”

Já a estudante de jornalismo Roberta Rocha entrou na PUC pelo Enem ainda no 2º ano de Ensino Médio. Capixaba de Cachoeiro do Itapemirim, cidade de 200 mil habitantes no Espírito Santo, veio para o Rio conhecer novas pessoas e conversar sobre assuntos diferentes dos que conversava com os seus vizinhos: “Achava Cachoeiro um ovo. Tem dois shoppings e dois cinemas, que não passam filmes legendados”.

Choques culturais e mitos derrubados

  Isabela Oliveira Dias, de 19 anos, é da Bahia. “Salvador é uma cidade diferente para cada um que passa por ela. Nos dias de calor intenso acalmados pelas águas do Porto da Barra, é possível para todos entenderem a magia da primeira capital do Brasil. Posso afirmar, com a maior certeza do mundo, de que não deixei Salvador por falta de amor.” Isabela foi aceita pelo vestibular da PUC e escolheu cursar jornalismo na faculdade pela dica de uma amiga, durante um intercâmbio em Vancouver, no Canadá. “Ela me contou que a PUC-Rio tinha um bom programa de intercâmbio e boa visibilidade no exterior, o que para mim, que estava passando por uma fase de decisões, foi uma informação crucial”.

  Isadora Barros nasceu em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, e faz jornalismo. Quando contava às pessoas que viria para o Rio de Janeiro, ficavam preocupadas, pela pecha de cidade violenta da cidade. Ela aprendeu a se preocupar com assaltos, por exemplo, algo que nunca havia sido uma preocupação. Mas essa visão não era a única que tinham do Rio: “As pessoas acham que você vai namorar um surfista e pegar sol todos os dias”.

Isabela Giantomaso diz que em São Paulo pensam o mesmo: “Quem não mora no Rio acha que todo mundo vai à praia no horário de almoço, e depois do trabalho também!”.

Para Roberta Rocha, do Espírito Santo, morar no Rio de Janeiro era como morar em Nova York, Londres, em grandes cidades do mundo que tem uma magia em torno dela. Pensava no Rio como sendo maravilhoso, era um sonho viver aqui:

“Eu pensava que o Rio teria um milhão de possibilidades. E é verdade. Você tem, mas é difícil. Coisas simples da vida: ir à praia. Você pode ir ao Leblon, a Ipanema, Barra, Grumari. Mas como você vai? Metrô, sábado, está sempre lotado. Você não tem carro. A praia da Barra é muito longe, pega um trânsito infernal e vai em um ônibus caindo aos pedaços. Verdade, você tem um milhão de cinemas para ir, mas a meia entrada custa R$ 16 sábado e domingo. Em Cachoeiro, a meia é R$ 7. Você tem as possibilidades, mas como você chega a essas possibilidades é muito difícil. E para quem vem de cidade pequena, isso é como uma pedra no meio do caminho, ou como uma pedra em cima de você, empurrando para baixo e você tendo que lutar contra.”

O professor Augusto Sampaio, destaca que a Vice-Reitoria Comunitária recepciona e orienta alunos de outros estados, já que muitos deles não conhecem a cidade: “Quem pode sempre procura parentes, amigos que já moram aqui. Mas há alunos que nos procuram e nós os orientamos, damos telefones e informações úteis para qualquer tipo de emergência que precisem. Ficamos à disposição”.

O drama da hospedagem e do trânsito 

Na primeira semana, logo que chegou, Pedro, o Mineiro, como é chamado, morou com um tio em São João de Meriti e pegava o metrô da Pavuna todos os dias para procurar um lugar para morar no Rio: “Eu não conhecia o Rio, conhecia zero. Eu sabia que precisava chegar à Gávea todos os dias. O mais lógico era procurar um lugar na própria Gávea. Foi aí que eu me surpreendi com a dificuldade de se morar no Rio, principalmente na Zona Sul”.

Aqui, Pedro sai do "modo oratória", que esconde o sotaque

O primeiro lugar em que morou foi em um pensionato, em que dividia um quarto “mínimo” com mais três pessoas: “Eram duas beliches e elas tinham que ficar em L para caber no quarto. As quatro pessoas, em pé, ocupavam todo o espaço”. Hoje, ele aluga o quarto de empregada de uma casa: “Finalmente alcancei um pouco de individualidade, que nunca tinha encontrado em dois anos no Rio. Para estudar, produzir qualquer coisa, eu fazia tudo na faculdade”. E sabe que muitos não conseguem realizar o objetivo: “Este semestre uma outra estudante de Muzambinho ia cursar comunicação social na PUC, mas teve que trancar a matrícula porque não encontrou lugar para morar”.

  O pensionato foi a opção adotada por Isabela Dias, de Salvador, por ser mais barato e seguro para quem vem de fora. As mensalidades ficam entre R$ 740 e R$ 864, e há lista de espera por vagas. Ser católico não é uma exigência, mas é preciso ser estudante.

Quando chegou ao Rio, Roberta, de Cachoeiro, dividiu uma casa com várias pessoas, a única coisa que podia pagar na época. “Eu dividia banheiro com sete, oito pessoas. O quarto com mais três. E era uma casa velha, de vila, tinha muito mofo e ratos”. Aguentou sete meses. No fim de 2013, conseguiu um estágio no Portal PUC-Rio Digital, e a situação financeira melhorou um pouco. Conseguiu uma vaga em um pensionato de Botafogo: “Eu fui para lá como se fosse um oásis. Tudo limpo, banheiro no quatro, meninas parecidas”. Mas já enfrenta novas dificuldades. “Eu mudei de quarto e tenho que dividir o banheiro com o andar inteiro. São vários chuveiros, tomo banho de chinelo, preciso levar o papel higiênico, o xampu... Outro problema é a obrigação de conversar com as pessoas. Às vezes você não está com vontade de falar, só quer fazer a sua comida e ir dormir”.

No trânsito, a mudança é brusca para a grande maioria. A vida inteira Isadora Barros, do Mato Grosso do Sul, andou a pé ou de carro. Para ela, o trânsito que pegava, normalmente, era no máximo 20 minutos, mas no Rio de Janeiro precisa sair uma hora e meia antes de casa. Morando na Barra da Tijuca, percebe que muitos motoristas estão sozinhos no carro. “Ninguém divide carro nem dá carona, só pensa no conforto de si próprio, mas reclama do trânsito. O motorista pode levar as pessoas que trabalham ou estudam com ele, então o que custa? O carioca acolhe tão bem, não pensava que podiam ser tão egoístas”.

Identidades cariocas

Sobre a característica acolhedora, ela se surpreendeu com a frequência com que damos bom dia no elevador e com as respostas animadas. Também achou incrível o fato de as pessoas conversarem na fila do supermercado, mesmo sem se conhecer.

A Isabela Antunes, de Muriaé, também notou a facilidade com que os cariocas têm de conhecer pessoas: “O carioca gosta muito de falar! Já fiz várias amizades no ônibus, por exemplo, troquei até telefone”.

A paulistana Isabela Giantomaso compara os moradores do Rio com os de São Paulo:

  “O pessoal aqui é mais tranquilo, sempre dá força, dizem que vai dar certo, para ir com calma. Em São Paulo é muito mais tenso, eufórico, tem que dar certo.”

Já o atraso, que inicialmente incomoda a quem vem de fora, termina por ser incorporado. Taigra Mendes, de Porto Velho, já aderiu ao atraso carioca: “Eu era pontual! Mas acabei pegando esse jeito”. Isadora Barros também tinha o hábito de chegar no horário combinado e esperar a pessoa por meia ou uma hora.

Antes de conhecer as pessoas aqui, Roberta achava que todo carioca era descolado, gostava de praia e o que viu é que existe uma pluralidade:

“Eu tenho amigos que não gostam de ir à praia, que preferem o frio, que tem uma seriedade a mais. O carioca também é mais despojado, xinga muito, é muito informal. Mas ele sabe usar a informalidade dele de uma forma positiva. Por mais que todo carioca seja informal, nem todos são vulgares. Até na forma de se vestir, por que  estar de rasteirinha ou havaiana significa estar mal arrumado?”.

Quando Isadora viajou para a sua cidade natal vestindo saia longa, chinelo e camiseta, todos olharam para ela de um jeito estranho. Ela defende o estilo despojado da carioca: “Elas são mais bonitas assim, não se escondem, mostram a sua beleza natural”.

A goiana Liliane Ribeiro, 44, estudante de jornalismo, tem uma história diferente: veio para o Rio após o marido ser transferido de Singapura, e já frequentava o Rio, onde tem parentes. Entrou por vestibular, e escolheu a PUC “pela credibilidade e boa localização”. No Rio, sente-se em casa: “Gosto do jeito desencanado e alegre do carioca”.

Mas, depois de dois anos e meio morando sozinha, Isadora entendeu a pressão da qual seus amigos a alertavam. Ela sente falta de casa e preocupa-a que, se precisar ir ao hospital, não tenha ninguém para levá-la: “Em momentos de crise, eu tenho vontade de largar tudo. Ficar longe da família pesa muito”.

Arquivo pessoal  Já Izabela Antunes, quando volta para Minas, sente o estranhamento. Seus conterrâneos dizem que ela está perdendo o sotaque: “Eu acabo me sentindo sem identidade. Mas me apaixonei pelo Rio de Janeiro. Com certeza, vou fazer de tudo para ficar aqui.” Taigra Mendes compartilha o mesmo sentimento: “Eu não penso mais em voltar pra Porto Velho. Eu não caibo mais na minha cidade”.

Para a paulista Isabela Giantomaso, não dá para sair mais do Rio. Ela já se adaptou à vida aqui. Yulli dias, de BH, também não pensa em voltar. “Confesso que combino bem mais com o Rio. Em Minas, o pessoal é muito fechado, e eu já sou muito tímida, então... não era uma boa combinação”.

A coordenadora central de Graduação, Daniela Vargas, observa ainda o fluxo cada vez mais intenso de alunos do interior do Estado do Rio, além dos cerca de 300 alunos do exterior em intercâmbio:
– Existe uma migração de dentro do estado, pessoas que vêm de Campos, Petrópolis, Barra do Piraí... A PUC está aumentando, estamos fazendo obras criando áreas de convivência, porque observamos que tanto o aluno de fora do Rio, o aluno intercambista e os alunos que moram longe passam o dia no campus. A biblioteca, por exemplo, nunca esteve tão cheia! As pessoas passam o dia aqui, têm a oportunidade de estágio na própria PUC.

O professor Augusto Sampaio comenta o valor dessa pluralidade cultural dentro do campus:

– O que acontece na universidade é que os jovens acolhem outros jovens, e de maneira mais espontânea que a própria universidade eles se identificam, acham interesses comuns. Poder conviver com colegas de outras regiões é uma experiência significativa, é muito importante essa pluralidade.