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Rio de Janeiro, 24 de março de 2017


Campus

"Indústrias criativas devem receber mais investimentos"

Lucas Augusto - aplicativo - Do Portal

14/05/2015

 Andressa Pessanha Apesar da crise econômica renitente em vários países, a produção da indústria criativa no mundo movimenta US$ 1,8 trilhão, estima a consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC). O Reino Unido, um dos principais mercados, cresceu atrelado a uma política governamental de incentivos ao setor – que envolve uma série de atividades, como moda, cinema, música e televisão – implementada depois da Segunda Guerra. Uma cultura popular ascendente virou bem de exportação. "Apesar do prognóstico de queda no setor, é preciso que os governos invistam em cultura porque, além do retorno econômico, há os benefícios sociais”, propõe a pesquisadora inglesa Ruth Adams, professora do Departamento de Indústrias Criativas e de Culturas e Indústrias Criativas de King’s College London. Segundo a especialista, o grande desafio da área é a "vontade política”.

Em palestra organizada, nesta terça-feira, pelo Programa de Estudos de Comunicação e Consumo (PECC), parceria de grupo de pesquisa da PUC-Rio com o Infoglobo, Ruth apontou aspectos que  tornaram a produção criativa do Reino Unido uma das referências mundiais. Embora reconheça a importância do suporte governamental para o desenvolvimento do setor naquele país, a especialista ressalva que é necessário o amadurecimento de outros incentivos para reduzir a dependência da iniciativa pública. “Caso o governo não queira financiar alguns setores, uma parte da indústria, que não consegue se erguer sozinha, será afetada”, alerta Ruth, que fala hoje sobre subculturas juvenis, das 13h às 16h, também na PUC-Rio (sala 102-k), a convite da professora Claudia Pereira, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da universidade.

Ouça entrevista de Ruth Adams à repórter Camila Zarur:

No Reino Unido, o setor movimenta 60 bilhões de libras esterlinas por ano, o equivalente a R$ 282 bilhões, segundo o Departamento de Cultura, Mídia e Esportes, órgão do governo encarregado de auxiliar a produção criativa. A quantia representa 5% do PIB (soma das riquezas) do país. Ruth avalia que, apesar do retorno positivo e de traços como originalidade e criatividade, a produção criativa inglesa também se caracteriza pela instabilidade:

– Um dos aspectos da indústria cultural e criativa é o “princípio do ninguém sabe”. É muito difícil acessar, com antecedência, uma demanda por produtos culturais ou perceber o que pode ou não pode se tornar popular.

Ainda de acordo com a pesquisadora do King’s College London, o êxito desse tipo de produção depende, entre outros fatores, do “tempo perfeito” de lançamento. Pois, “o que pode ser popular em um mês, pode não ser no outro.

– É preciso lançar um produto no momento exato. O sucesso pode ser rápido e curto – observa.

A busca desse "tempo perfeito" foi seguida à risca pela indústria criativa do Reino Unido. Após a Segunda Guerra Mundial, implantaram-se organizações oficiais de incentivo às artes. Ruth contextualiza: "Esperava-se uma sociedade mais civilizada e tempos de paz. O objetivo era levar o melhor em arte e cultura para o maior número de pessoas possível”. A pesquisadora lembra que, não obstante a divulgação maior de música clássica, por exemplo, e "do efeito benéfico às pessoas", ainda se preferia ouvir música pop e assistir aos filmes hollywoodianos. O panorama se alterou nas décadas de 1970 e 1980, quando houve uma ênfase na cultura popular e comercial, um dos fatores da recuperação econômica do Reino Unido. Em 1997, o setor da Indústria Criativa e Cultural entrou na agenda oficial do governo.

Ruth também destaca que o passado cultural alavanca até hoje a cultura britânica, pois “a cultura popular sempre se recicla" – uma das principais virtudes, avalia a especialista: Acho que isso é positivo porque você pode fazer coisas novas, baseadas em estilos antigos”. Ela ressalta a influência dos Beatles:

– Nos anos 60, houve o florescimento de muitos setores criativos em Londres, como moda, cinema, fotografia, música. Surgiram, em sua maioria, apoiados pela popularidade da banda. Com os Beatles, nós vencemos o mundo pop.

 Andressa Pessanha Segmentos como música, cinema, moda e televisão são alguns dos mais rentáveis da indústria criativa, aponta a pesquisadora. Ela observa o caso da BBC (British Broadcasting Corporation), alvo de investimentos do governo britânico "durante muito tempo":

– Atualmente, a BBC está aprendendo a ser mais comercial, porque o governo está tirando investimentos da empresa.

A professora da King’s College  destaca que a BBC contribui muito para a exportação da cultura britânica pelo mundo: a empresa investe o equivalente a 17 bilhões de reais no setor, além de apoiar a indústria musical e gerar mais vagas de trabalho. A visibilidade das produções britânicas, como Doctor Who e a franquia Harry Potter, diz a pesquisadora, "contribui não só para tornar o próprio país mais alegre e contente, mas também aumenta a visibilidade britânica, por exemeplo, em termos de marketing interno e no exterior:

– Séries produzidas pela BBC, como “Doctor Who”, são traduzidas para diversas línguas. Isso mostra como um produto britânico atinge grande parte do mundo.