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Rio de Janeiro, 27 de abril de 2017


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Editor aponta táticas para o jornalista bater um bolão

Vítor Afonso - Do Portal

18/10/2012

 Vítor Afonso

Antônio Nascimento, 52 anos, alcançará três décadas de jornalismo quando o Brasil de Neymar envergará a missão de alcançar a história. Toninho, como é conhecido, dificilmente encontrará tempo para comemorar a marca da trajetória iniciada em 1986, quando trocou os pilotis pela antiga TV Manchete e de lá para O Globo. Ao tradicional diário, ele dedicou a maior parte da carreira. Confundiria-se com uma segunda casa, não fossem as oito, dez, doze horas diárias entre pautas, fotos, edições. Uma maratona amplificada, claro, em tempos de Copa e Olimpíada. Toninho participou de 12 coberturas do gênero. Para 2014, quando seremos anfitriões, supõe-se um trabalho ainda maior. Em meio à rotina de editor de esportes na reta final do Campeonato Brasileiro, o ex-aluno do curso de Comunicação da PUC-Rio fabricou um par de horas para conversar, na redação do jornal carioca, com o Portal. Apontou novos desafios profissionais, como "saber onde colocar a notícia" na era das mídias sociais; destacou a importância de avanços tecnológicos para o mundo da informação, inclusive nas salas de aula; lembrou o adiamento forçado da largada universitária; revisitou memórias de "namoros, festas e idas ao Baixo Gávea"; e destacou a importância do olhar crítico à formação do repórter.     

Com a calma e a espirituosidade habituais, Toninho costurou lembranças que, descontado o inevitável verniz nostálgico de algumas delas, servem de lição e inspiração aos candidatos a jornalista. Paciência, por exemplo, é uma das virtudes necessárias ao garimpo da notícia – e não menos indispensável ao tênis, único esporte ao qual Toninho se mantém fiel nas folgas. Antes mesmo de circular por redações, ele teve de escalar uma boa dose de paciência: mudança na regra do Serviço Militar fez com que adiasse por um ano a entrada na universidade.

– Depois de ter passado no vestibular, já me programava para começar na PUC no primeiro semestre de 1979. Era o primeiro ano do governo do (ex-presidente) João Figueiredo e eles resolveram chamar os universitários. Dei azar – conclui.

Com certa boa vontade, também pode ser qualificada de "azar" a inversão de rendimentos nos dois vestibulares prestados: 

– Foi curioso: no vestibular que não valia, eu fiquei em 30º lugar e passei direto. No que valia, fiquei em 60º e tive que esperar a reclassificação.

Ebulição cultural e política contribuíram para a formação jornalística

Para o jovem morador do Leblon, estudar na PUC "era o objetivo". Foi alcançado em 1980, quando os católicos saudaram o papa João Paulo II na primeira visita ao país, os tricolores festejaram o 24º título estadual do Fluminense e os brasileiros ensaiavam os passos da redemocratização. Sobre os quatro anos no campus, o jornalista combina, em igual proporção, lembranças da diversão com os colegas – “as bebedeiras, os namoros, as festas” – e da efervescência política e cultural que muito somaram à formação:

– Em 1978, 1979, havia manifestações políticas na PUC. Quando eu estudava no Colégio Princesa Isabel, fui a uma delas. Aquilo me marcou tanto pessoalmente quanto politicamente.

 Reprodução Para o editor do Globo, “essa ideia democrática que a PUC transmitia, a ebulição cultural e política foram tão importantes quanto a parte pedagógica”. Segundo ele, em uma fase de “pré-democracia”, a universidade era um local onde “as pessoas exerciam a liberdade”:

– De 1980 até 1984, vivemos um período de movimentos como o das Diretas Já. Havia esse espírito de liberdade na universidade. Por isso, meus quatro anos de PUC valeram muito para minha formação como pessoa.

Marcante também foi, para o “apaixonado por cinema”, a convivência com craques da área, sobretudo o professor Silvio Tendler, diretor, por exemplo, de Jango (1984), Utopia e Barbárie (2010) e Tancredo - uma travessia (2011), por quem Toninho cultiva “um carinho especial”. Do cinema, e de várias outras áreas exploradas ao longo do curso, extraiu o cimento plural e a visão crítica sem os quais não se faz um bom jornalista – de qualquer era, inclusive a digital.

Antônio Nascimento conta que, curiosamente, poucos colegas seguiram caminhos semelhantes, rumo às redações. "Ainda assim, fiz boas amizades", ressalta. Uma delas revelou-se, anos depois, estratégica para o pontapé inicial no Globo:

– Estudei com Marcos Penido. Por meio dele, que já era repórter de esportes, conheci o Renato Mauricio Prado, então editor de esportes, que me levou para o jornal dois anos após me formar.

“Sempre gostei de ler e colecionava jornais”

 Vítor Afonso Dos quase 30 anos de jornalismo, Antônio Nascimento contabiliza 90% nos corredores do jornal fundado por Irineu Marinho em 1925. Destino coerente com o garoto que colecionava publicações, tão apaixonado pela leitora quanto pelos esportes. Mas, antes de assumir a batuta esportiva do Globo, em 1996, Antônio Nascimento jogou em outros gramados:

– Saí da PUC em 1984 e fiz um curso na TV Manchete. Depois trabalhei na Intervídeo, de Fernando Barbosa Lima, Roberto D’Ávila e Walter Moreira Salles Jr. Fiquei dois anos trabalhando na televisão, em programas como Conexão Internacional e Persona. Em 1986, cheguei ao Globo para trabalhar como redator de esportes. Em 1990, virei editor de internacional. Em 1993, saí do jornal e fui trabalhar com assessoria de imprensa até 1996, quando voltei para O Globo, já como editor de esportes – resume.

A discrição com que comanda a produção das seis páginas diárias do caderno contrasta com a intensa prática esportiva predominante em quase cinco décadas. Jogava vôlei, futebol, tênis. Restaram as raquetadas e o apego ao esporte, deslocado para o campo dos textos e fotos. Ele conta que os grandes momentos da carreira foram as coberturas das grandes competições. Na maioria delas, trabalhou, como se diz, na cozinha, distribuindo o jogo entre os repórteres. De todas, destaca a Copa de 2002, no Japão e na Coreia, conquistada pelo Brasil de Ronaldo, Rivaldo e Felipão. 

– Com o Brasil ganhando, é sempre melhor. Além disso, como os jogos eram de madrugada, eu passei em torno de 45 dias virando noites sem dormir. Inesquecível.

Jornalista deve escolher a melhor tática para veicular a notícia

No caminho oposto ao da seleção brasileira, que desde o penta procura reencontrar os melhores dias, a cobertura esportiva embarcou nos avanços digitais. Com a transmissão em "tempo real" e a disseminação das mídias sociais, o jornalista encara novos desafios. Um deles, observa Toninho, é “saber onde colocar a notícia”:

– Na década de 1980, só trabalhávamos com papel. Hoje temos várias mídias. As notícias estão no ar 24 horas por dia. Precisamos avaliar se a notícia é imediata ou se devemos guardar o furo para o jornal impresso.

 Vítor Afonso Toninho reconhece que as novas tecnologias acabaram com o monopólio das mídias tradicionais no fornecimento de notícias e considera que "as pessoas estão se informando mais atualmente". Embora este cenário exija novas estratégias e competências de jornais e revistas, como o avanço além da notícia, o editor de esportes avalia que também facilita a formação profissional:

– Antigamente, em alguns casos, tínhamos que ir ao cinema para ver um filme e depois discuti-lo. Hoje você pode ver o filme no youtube, na própria sala de aula – exemplifica.

Por outro lado, o jornalista aponta supostos problemas decorrentes das informações “menos elaboradas da internet”:

– Há uma overdose e superficialidade de informações. Hoje a informação precisa ser mais rápida e, por isso, muitas vezes é menos aprofundada.

”O jornalismo hoje é uma área em transformação”

A intimidade com o admirável mundo novo das redes sociais e da megaconectividade tende, ainda de acordo com Tominho, a facilitar o desenvolvimento profissional das novas gerações de jornalistas. Por outro lado, ele ressalva que os futuros jornalistas irão enfrentar um “grande terremoto”:

– Hoje você precisa trabalhar mais, porque deve ficar ligado em tudo que está acontecendo. O que é certo hoje, amanhã já é diferente. Uma tecnologia usada agora, amanhã já estará ultrapassada.

No início de sua carreira, ele considerava-se uma espécie de “editor de marfim”. Decidia o que o leitor  consumiria, diferentemente do que se observa atualmente:

– Eu escolhia o que o leitor iria ler. Hoje em dia, perco este controle. Isso é bom pela democracia, mas é ruim porque a informação pode não ser tão fidedigna como era na minha época.

Neste Maracanã de informações, é preciso depurar as confiáveis

Em mais um recado aos jovens, Antônio Nascimento reforça o desafio de transmitir informações que ajudem a democracia e a cidadania em meio ao Maracanã de informações:

– Com tantas informações que surgem, é preciso retirar aquelas que são confiáveis. Além disso, é fundamental que as informações não sejam distorcidas.